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Referências

  • Janeiro 31, 2026
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Batalha dos Guararapes

 

Como tantos que têm mais passado que futuro, tive experiências que hoje não fazem sentido. Sou de um tempo em que na praia as crianças eram fotografadas montadas em pôneis e monóculos perenizavam cenas do veraneio.

De um tempo em que um ou outro professor puxava as orelhas dos “burraldos” e até desferia uma reguada na carteira dos desatentos. Fosse hoje … boletim de ocorrência ou, no mínimo, xingamento do professor. Descontados e condenáveis, os exageros de então cederam lugar aos exageros de hoje, de pais que vitimizam alunos desleixados e preguiçosos enquanto condenam os mestres.

Lembro de uma aula de história em particular. Professor Finkler relatava episódios da Insurreição Pernambucana, na expulsão dos holandeses, e o fez com tanto entusiasmo que vibramos como se estivéssemos no cinema, assistindo uma carga de cavalaria. Exaltava as figuras de Vidal de Negreiros e Felipe Camarão, cujos nomes ficaram impressos na galeria dos heróis da nossa memória.

Naquele tempo era assim: os personagens da nossa história eram colocados como pilares da nacionalidade. Seus feitos inspiravam fidelidade e coragem das gerações futuras.

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A conquista do Polo Sul foi um feito grandioso disputado por ingleses e noruegueses. Aqueles, comandados por Robert Falcon Scott, oficial da marinha, e estes por Roald Amundsen, explorador do Ártico.

Scott empreendia sua segunda tentativa. Na primeira, desistira a cerca de cem quilômetros do alvo. Chegaria, mas não conseguiria retornar e por isto abortou a missão. Amundsen acumulara sabedoria, invernando no hemisfério norte, aprendendo sobre o melhor vestuário e sobre cachorros puxadores de trenós.

Os concorrentes estabeleceram postos avançados, com alimento e combustível, antes de se atirarem na empreitada. Partiram de pontos bem diferentes, cabendo aos ingleses o mais privilegiado deles.

Amundsen e sua equipe chegaram ao Polo Sul em 14 de dezembro de 1911. Realizaram inúmeras verificações para se certificarem de que estavam de fato no alvo. A expedição inglesa chegou em 17 de janeiro de 1912. Encontrou no lugar a bandeira norueguesa cravada no polo …

A desilusão seria o estopim da tragédia. As condições climáticas e a dificuldade de chegar a um depósito de alimentos determinaria a morte de Scott e de seus comandados. Há um livro extraordinário a respeito, que recomendo aos interessados:  O último lugar na Terra: a corrida de Scott e Amundsen.

Amundsen adotara uma estratégia para encontrar os postos de apoio no retorno, capaz de mitigar o risco de não achá-los em meio à brancura, às oscilações climáticas e à exaustão. Sua equipe cravara postes, alinhados, por uma razoável extensão. No poste do meio encontrava-se o posto. Se a memória não me trai, cada poste tinha uma bandeira preta, contraste absoluto com a brancura geral.

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O fato é que Amundsen retornou, inscrevendo seu nome na galeria dos grandes exploradores da humanidade. Scott, por outro lado, perdeu a vida a pouco mais de dez quilômetros do posto de reabastecimento. Para consternação de seu país, registrou os episódios finais de sua expedição.

Penso que os postes de Amundsen são, para um país, suas referências históricas. No ir e vir de uma nação, que por vezes se sente perdida, há sempre remissão na história, em seus notáveis, em seus bravos.

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A frase “Ninguém é herói diante de seu criado de quarto” – ou “Ninguém é digno diante de seu criado de quarto”,- é atribuída a Hegel, mas já li que seu autor seria Napoleão. Não é relevante, o que importa é o sentido de que na intimidade as fraquezas humanas são fraturas expostas. Nenhum personagem sai incólume debaixo de uma lupa.

Se os postes de um povo forem derrubados, por avacalhação dos personagens, por revisionismos deletérios ou pelo esquecimento ideológico, é inevitável que a história seja permeada por desencontros e pela trágica perda de identidade.

Se isto acontece, deixamos de saber quem somos. E o que nos une.

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