No dia 9 de Janeiro, o Papa Leão XIV dirigiu um discurso memorável aos representantes do corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé. A beleza, a história daquela sala imensa e a multidão de embaixadores, mais dos que a União Europeia ou os Estados Unidos conseguem reunir, foram a moldura do encontro, que demorou 2 horas, ocupando o discurso do Papa quase metade. Vale a pena ler o discurso na íntegra (disponível na página do Vaticano, www.vatican.va), para além das breves frases que aqui transcrevo.
O isolacionismo e o recurso à força são preocupantes: «Neste nosso tempo, preocupa particularmente a fragilidade do multilateralismo no plano internacional. Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso de todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou de grupos de aliados. A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está a alastrar. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias. (…) Isto compromete gravemente o Estado de direito, que é a base de toda a coexistência civil pacífica».
A ONU tem um papel essencial a desempenhar: ela «(…) nasceu do drama da Segunda Guerra Mundial, (…) como eixo da cooperação multilateral para prevenir futuras catástrofes globais, salvaguardar a paz, defender os direitos humanos fundamentais e promover o desenvolvimento sustentável».
É preciso promovê-la na direcção justa: «São necessários esforços para que as Nações Unidas sejam mais orientadas e eficientes na prossecução não de ideologias, mas de políticas que visem a unidade da família dos povos».
A lei não é uma convenção, refere-se à justiça: «Não se pode silenciar que a destruição de hospitais, infra-estruturas energéticas, habitações e locais essenciais à vida quotidiana constitui uma grave violação do direito internacional humanitário. (…) A inviolabilidade da dignidade humana e da sacralidade da vida conta sempre mais do que qualquer mero interesse nacional».
O Papa denuncia a manipulação das palavras, tão em voga: «Redescobrir o significado das palavras é talvez um dos primeiros desafios do nosso tempo. Quando as palavras perdem a sua correspondência com a realidade (…), as malhas da ambiguidade semântica tornam-se cada vez mais uma arma com a qual se engana ou se atinge e ofende os adversários. Precisamos que as palavras voltem a expressar de forma inequívoca realidades certas».
À frente, o Papa refere exemplos, mas percebemos logo do que está a falar: a morte de uma criança transforma-se em «IVG» e chega a falar-se em «aborto seguro»; ou, quando a vítima já não é tão pequena, apelida-se «eutanásia»; invadir um país classifica-se como «operação militar especial»; o massacre de um povo como «defesa da paz»; uma prática homossexual chama-se «casamento»; confundem-se homens e mulheres com outr@s cois@s; todos sabemos como certas opiniões se impõem em nome da verdade; a religião se persegue em nome da liberdade; etc.!
Percebe-se bem a mensagem do Papa: «É importante notar que o paradoxo deste enfraquecimento da palavra é com frequência reivindicado em nome da própria liberdade de expressão. (…) É doloroso constatar que, especialmente no Ocidente, os espaços para a liberdade de expressão estejam cada vez mais a ser reduzidos, enquanto se desenvolve uma nova linguagem, ao estilo de Orwell, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam. (…) Infelizmente, desta deriva resultam outras que acabam por restringir os direitos fundamentais da pessoa, a começar pela liberdade de consciência. (…) e a liberdade religiosa, que – como recordava Bento XVI – é o primeiro dos direitos humanos, porque expressa a realidade fundamental da pessoa».
Como andam os direitos humanos! «(…) Está a ocorrer um verdadeiro “curto-circuito” dos direitos humanos. O direito à liberdade de expressão, à liberdade de consciência, à liberdade religiosa e até mesmo o direito à vida sofrem limitações em nome de outros direitos considerados novos, resultando na perda de vigor do próprio sistema de direitos humanos, o que abre caminho à força e à opressão».
O discurso é extenso e interessante. Imperdível! É mesmo imperdível.