Esta imagem dos assessores Stephen Miller e Natalie Harp a subir para o avião do Presidente dos EUA ilustra o artigo de George Weigel (foto: Win McNamee / Getty).
Nos últimos meses, o realismo é invocado muitas vezes como referência moral em política, mas pode ser um erro funesto. Sob outra perspectiva, Leão XIV desenvolveu o tema no seu grande discurso ao corpo diplomático acreditado no Vaticano.
Qual o perigo do realismo? No confronto das várias possibilidades, quando não se consegue escolher a melhor —porque nenhuma alternativa é boa—, prefere-se a menos má. À primeira vista, parece lógico.
A decisão complica-se quando a opção menos má não tem qualquer hipótese de vencer. Nesse caso, convém escolher a «hipótese menos má dentro das que têm alguma viabilidade»? A lógica desta estratégia está cheia de condicionais.
No pontificado de João Paulo II, uma comissão de teólogos moralistas foi encarregada de estudar casos tais como: que posição tomar perante uma lei injusta que visa substituir uma lei em vigor, ainda mais injusta? Por exemplo, se a lei permite o aborto até às 10 semanas é legítimo propor uma lei que permita abortar só até às 5 semanas? Compreende-se a intenção, mas como escapar ao paradoxo de apoiar uma lei injusta? Pensemos no regime nazi: havendo uma lei que visa exterminar todos os judeus, será boa ideia apoiar uma lei alternativa que vise exterminar apenas metade dos judeus?
A lógica de escolher as propostas «menos más» só é simples em aparência. A referida comissão examinou os graus de maldade, as circunstâncias, as consequências, os condicionamentos e complexidades, procurando o critério justo. Contou-me um dos teólogos dessa comissão que, ao exporem o resultado a João Paulo II, ele concordou com a análise, mas acrescentou:
— «Os senhores não excluam a possibilidade do martírio!»
Há alturas em que a decisão correcta já não é ceder a alternativas menos más, ou menos más entre as que parecem viáveis. Enquanto é possível, deve-se argumentar com toda a diplomacia, no entanto, quando a persuasão se esgota, Deus pode pedir-nos o martírio.
O realismo —no sentido de ignorar a justiça— está muito em voga ultimamente.
Na vida nacional, serve para fechar os olhos a leis criminosas que desrespeitam a vida dos mais vulneráveis, corroem a estabilidade dos compromissos familiares, corrompem as crianças, etc.! Leão XIV foi muito claro a apontar a gravidade destes problemas.
Na cena internacional, o realismo é desculpa para cometer crimes, «porque os outros ainda fazem pior e o Direito internacional acabou, não vale a pena olhar para trás». Em contraste, o discurso de Leão XIV sublinha o valor perene dos princípios universais da justiça e a importância de reforçar o Direito e as instâncias internacionais que o devem aplicar.
George Weigel publicou esta semana no National Catholic Register o artigo «Might Does Not Always Make Right, or Even Sense» (o poder nem sempre leva à justiça, ou sequer tem lógica, www.ncregister.com/commentaries/weigel-might-does-not-always-make-right) que contesta, com a veemência típica do autor, a política dominante no mundo ocidental, em particular nos EUA: «(…) moralmente repugnante; historicamente ignorante e estrategicamente idiota. (…) É o princípio que permite a um Estado, na busca egoísta do poder, desconsiderar os seus tratados e compromissos solenes; que sanciona o uso da força, ou a ameaça do uso da força, contra a soberania e a independência de outros Estados. Tal princípio, despojado de todo o disfarce, é certamente a mera doutrina primitiva de que “o poder é o Direito”».
Weigel considera que esta atitude, que eu apelido de «realismo», não aprendeu com a história, em particular com a revolução das consciências liderada por João Paulo II, que derrubou o muro de Berlim e libertou pacificamente muitos povos do domínio comunista. Weigel considera, além disso, um erro estratégico desperdiçar a confiança que as nações civilizadas podem merecer aos olhos do mundo.
Espero que estas abordagens chamem a atenção e ajudem a ler o grande discurso de Leão XIV ao corpo diplomático.