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Os Papas que marcaram uma vida de hospitalidade

  • Fevereiro 28, 2026
  • Religião
  • Padre Aires Gameiro

Entrevista concedida a Susana Queiroga (Assessora de Pastoral da Saúde do Instituto S. João de Deus)

 

Ao longo de quase um século de vida consagrada na Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, o Irmão Aires Gameiro conviveu, direta ou indiretamente, com nove Papas da Igreja de Cristo. A sua experiência é marcada pela pastoral da saúde, pelo contacto com doentes e pobres, bem como por um trabalho relevante e significativo em áreas como a Alcoologia e a Psicologia, sempre marcada pela vivência intensa do carisma da hospitalidade. Oferece-nos uma leitura única da história da Igreja sob o ponto de vista de quem a viveu “de dentro” e no terreno. Nesta entrevista, convidámo-lo a revisitar esses papas, destacando a forma como cada um contribuiu para a hospitalidade cristã e para o cuidado dos mais frágeis, decorrente de um texto que escreveu para a Revista Labor Hospitalaria (laborhospitalaria.com), para o número 344 de 2026 que será dedicado ao Papa Francisco.

Ir. Aires Gameiro, quem são os “seus nove Papas” e por que razão decidiu escrever sobre eles? São os Papas cujo pontificado coincidiu com a minha vida: de Pio XI a Leão XIV. Todos marcaram, à sua maneira, a pastoral da saúde e a hospitalidade. Não pretendi escrever história exaustiva, mas dar um testemunho vivido, um olhar de quem caminhou com a Igreja e com os doentes ao longo de décadas.

Que memórias guarda de Pio XI? Lembro-me da missa exequial quando eu tinha apenas nove anos. O seu pontificado enfrentou calamidades como o nazismo e o comunismo, e reafirmou a defesa da vida. Foi também um Papa que realçou a responsabilidade social dos ricos para com os pobres.

Pio XII foi um Papa muito ligado à saúde e aos médicos. Como vivenciou este papado? De forma muito intensa. Na juventude ouvi a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. Em Roma, acompanhei audiências em que Pio XII discursava sobre ética médica e defesa da vida, temas que marcaram a minha vocação e assisti ao seu funeral. Ficou também para a história o seu apoio silencioso, mas eficaz, aos judeus perseguidos e o acolhimento que muitos encontraram nos nossos hospitais, nomeadamente na Ilha Tiberina em Roma, que ficava ao lado do bairro judeu.

João XXIII é lembrado como “o bom Papa”. Que impacto teve na hospitalidade? Foi um impacto relevante, sobretudo pelo seu estilo de proximidade, simplicidade, humanidade. João XXIII visitou doentes, reclusos, crianças hospitalizadas, pobres e, deste modo, abriu caminhos de diálogo com todos. Embora não tenha escrito documentos específicos sobre a pastoral da saúde, o seu exemplo vale mais do que muitos textos. E foi ele quem abriu o Concílio Vaticano II.

Que marcas deixou Paulo VI? Concluiu o Concílio e enfrentou anos difíceis pós-conciliares. Visitou Fátima e publicou a Humanae Vitae, que é, para mim, um documento fundamental para a moral familiar e bioética. A sua ação ajudou, de certo modo, a renovar o carisma da hospitalidade na Ordem Hospitaleira a que pertenço.

João Paulo I teve um pontificado breve. O que retém dele? A alegria, porque em apenas 33 dias de pontificado, deixou o testemunho de um coração simples, sorridente, próximo.

João Paulo II foi, segundo diz no seu artigo sobre estes Papas, o que mais o tocou. Porquê? Porque unia o vigor apostólico à profundidade do sofrimento oferecido. Concelebrei com ele, encontrei-o várias vezes e pude testemunhar como enfrentava a dor sem fugir dela. Criou o Dia Mundial do Doente, o Conselho Pontifício da Pastoral da Saúde e a Pontifícia Academia para a Vida. A sua carta Salvifici Doloris mostrou que o sofrimento, unido a Cristo, tem valor redentor. Foi o Papa que melhor entendeu a hospitalidade: acolher a dor humana à luz da cruz.

E Bento XVI? Um grande teólogo. Quando visitou Portugal e tive a graça de concelebrar com ele em Fátima. Não escreveu documentos específicos sobre hospitalidade, mas as suas encíclicas oferecem bases teológicas profundas para compreender o amor, a esperança e a caridade no cuidado dos frágeis.

O Papa Francisco trouxe um estilo novo. Como o lê no contexto da hospitalidade? Francisco é o Papa da misericórdia concreta: os pobres, os doentes, os migrantes, os descartados. A sua oração solitária na Praça de São Pedro durante a pandemia foi um gesto que ficará para sempre na memória da humanidade. Os seus documentos, Laudato Si, Fratelli Tutti, Dilexit Nos, mostram uma visão integrada do cuidado, da criação, das relações humanas, dos vulneráveis. E enfrentou temas difíceis, como os abusos na Igreja.

E o atual Papa Leão XIV? Que sinais já vê nestes poucos meses de pontificado? Ainda o está a iniciar, mas já destaca a necessidade de descanso, serenidade e prevenção da ansiedade na cultura cansada de hoje. Retoma inspirações agostinianas e franciscanas e parece querer colocar a hospitalidade no centro da vida cristã. Tenho uma boa espectativa!

O Irmão Aires Gameiro, sacerdote da Ordem Hospitaleira, nasceu em S. Simão de Litém, a 26 de agosto de 1929, quase a completar 97 anos, e conta já 78 anos de vida religiosa celebrados no próximo dia 19 de março de 2026. Ao revisitar estes nove Papas, evidencia um fio condutor: a hospitalidade cristã como expressão do coração de Deus. A hospitalidade é, pois, mais do que serviço: é vocação, é evangelho vivido, é o encontro entre o sofrimento humano e o amor divino. É neste diálogo que a Igreja encontra a sua verdadeira missão: acolher, curar e acompanhar — como fizeram estes Papas e como o Ir. Aires Gameiro testemunhou ao longo de toda a sua vida consagrada.

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