Praça Conde de Porto Alegre
Interno na capital gaúcha, tinha permissão para sair às quartas-feiras à tarde. Aos onze anos passeava com um de meus pais ou ia até a residência de uma tia, no centro de Porto Alegre. Gostava de percorrer a Rua da Praia e ficava muito tempo assistindo corridas de autorama na inesquecível Hobby, loja de brinquedos e modelismo.
A Casa Masson, a Confeitaria Neugebauer, a Casa Sloper e a Livraria do Globo eram ícones do refinamento e mesmo para os passantes suas vitrines eram de encher os olhos. Praticamente não havia camelôs, apenas vendedores de bilhetes de loteria, com seus inconfundíveis refrões. Nunca esqueci de um que ficava quase na esquina da Borges.
A Praça da Alfândega, ainda não frequentada pela estátua de Mário Quintana, tinha engraxates e a vizinhança de cinemas e da redação do Correio do Povo. Prédios bonitos, com detalhes que exigiam maestria de construtores, muito diferente de hoje, sob o império dos caixotes de concreto, sem beleza alguma. Corpos sem graça.
Aliás, sem abdicar do núcleo deste texto, como são estranhos os prédios enormes e envidraçados que aparecem nas imagens de Londres. Não há como evitar a modernidade, dirão, mas quem sabe ela possa ter sua juba aparada. A ocupação urbana por arranha-céus é uma tragédia, dramaticamente ilustrada em metrópoles, como na área central de Manhattan. Multiplicar exageradamente a área vendável em cima de um terreno é uma das odiosas práticas do capitalismo selvagem.
Voltemos à Rua da Praia. Passadas cinco décadas apenas a Livraria do Globo permaneceu. Ainda assim, vendida que foi, muito diferente daquela que um dia teve Érico Veríssimo como editor e tradutor. Era um centro difusor de cultura.
A Rua da Praia é hoje dominada por lanchonetes, lojas de telefonia móvel, farmácias e comércio comezinho, que inclui até mesmo lojas de rações animais. Despida do antigo glamour, sua realidade é um retrato 3×4 do país.
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Escrevo num domingo, sentado numa sala de espera da Santa Casa de Misericórdia. Estacionei o carro na Praça Conde de Porto Alegre, cuja situação é veemente denúncia da degradação da cidade. Ao me dirigir ao hospital cruzei o viaduto Loureiro da Silva e presenciei um sujeito escorar-se numa árvore, arriar as calças e aliviar-se em plena rua. Desviei o olhar e apressei o passo. Desgrenhado e sujo, o sujeito aparentava idade provavelmente bem acima da biológica e é mais um dos tantos atirados pelas ruas do país.
Os que aplaudem o governo atual dirão que sempre foi assim, mas as evidências contrariam sua cegueira ideológica. É preciso escutar as pessoas, sobretudo as que vivem ou trabalham nas áreas degradadas. Pedro, livreiro paulistano, com uma loja nas proximidades da Praça da Sé, me disse que o número de moradores de rua aumentou visivelmente após a posse do demagógico presidente, o mesmo que detona empresários, diz que o agronegócio é fascista e jura defender os mais pobres. A conta não fecha.
Quando nos deparamos com tanta gente vivendo ao desabrigo ou em rincões miseráveis é impossível não verberar contra os que tomaram de assalto o Estado, seja percebendo salários e vantagens incompatíveis com a pobreza do país, seja promovendo negociatas que o infelicitam. Os escândalos que espoucam de quando em quando desafiam nossa platitude e evocam indignação, mas a gastança com os poderes da república não é um escândalo menor, sobretudo porque é regular e permanente.
A casta que desgraça o Brasil tem olhos e ouvidos cerrados para a realidade. Estão se lixando para o povo, com raras exceções.
Até onde vai este trem descarrilado?