Skip to content

Bandidos

  • Março 21, 2026
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Praça Conde de Porto Alegre

 

Interno na capital gaúcha, tinha permissão para sair às quartas-feiras à tarde. Aos onze anos passeava com um de meus pais ou ia até a residência de uma tia, no centro de Porto Alegre. Gostava de percorrer a Rua da Praia e ficava muito tempo assistindo corridas de autorama na inesquecível Hobby, loja de brinquedos e modelismo.

A Casa Masson, a Confeitaria Neugebauer, a Casa Sloper e a Livraria do Globo eram ícones do refinamento e mesmo para os passantes suas vitrines eram de encher os olhos. Praticamente não havia camelôs, apenas vendedores de bilhetes de loteria, com seus inconfundíveis refrões. Nunca esqueci de um que ficava quase na esquina da Borges.

A Praça da Alfândega, ainda não frequentada pela estátua de Mário Quintana, tinha engraxates e a vizinhança de cinemas e da redação do Correio do Povo. Prédios bonitos, com detalhes que exigiam maestria de construtores, muito diferente de hoje, sob o império dos caixotes de concreto, sem beleza alguma. Corpos sem graça.

Aliás, sem abdicar do núcleo deste texto, como são estranhos os prédios enormes e envidraçados que aparecem nas imagens de Londres. Não há como evitar a modernidade, dirão, mas quem sabe ela possa ter sua juba aparada. A ocupação urbana por arranha-céus é uma tragédia, dramaticamente ilustrada em metrópoles, como na área central de Manhattan. Multiplicar exageradamente a área vendável em cima de um terreno é uma das odiosas práticas do capitalismo selvagem.

Voltemos à Rua da Praia. Passadas cinco décadas apenas a Livraria do Globo permaneceu. Ainda assim, vendida que foi, muito diferente daquela que um dia teve Érico Veríssimo como editor e tradutor. Era um centro difusor de cultura.

A Rua da Praia é hoje dominada por lanchonetes, lojas de telefonia móvel, farmácias e comércio comezinho, que inclui até mesmo lojas de rações animais. Despida do antigo glamour, sua realidade é um retrato 3×4 do país.

————– x ————–

Escrevo num domingo, sentado numa sala de espera da Santa Casa de Misericórdia. Estacionei o carro na Praça Conde de Porto Alegre, cuja situação é veemente denúncia da degradação da cidade. Ao me dirigir ao hospital cruzei o viaduto Loureiro da Silva e presenciei um sujeito escorar-se numa árvore, arriar as calças e aliviar-se em plena rua. Desviei o olhar e apressei o passo. Desgrenhado e sujo, o sujeito aparentava idade provavelmente bem acima da biológica e é mais um dos tantos atirados pelas ruas do país.

Os que aplaudem o governo atual dirão que sempre foi assim, mas as evidências contrariam sua cegueira ideológica. É preciso escutar as pessoas, sobretudo as que vivem ou trabalham nas áreas degradadas. Pedro, livreiro paulistano, com uma loja nas proximidades da Praça da Sé, me disse que o número de moradores de rua aumentou visivelmente após a posse do demagógico presidente, o mesmo que detona empresários, diz que o agronegócio é fascista e jura defender os mais pobres. A conta não fecha.

Quando nos deparamos com tanta gente vivendo ao desabrigo ou em rincões miseráveis é impossível não verberar contra os que tomaram de assalto o Estado, seja percebendo salários e vantagens incompatíveis com a pobreza do país, seja promovendo negociatas que o infelicitam. Os escândalos que espoucam de quando em quando desafiam nossa platitude e evocam indignação, mas a gastança com os poderes da república não é um escândalo menor, sobretudo porque é regular e permanente.

A casta que desgraça o Brasil tem olhos e ouvidos cerrados para a realidade. Estão se lixando para o povo, com raras exceções.

Até onde vai este trem descarrilado?

 

Categorias

  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Cultura
  • História
  • Política
  • Religião
  • Social

Colunistas

A.Manuel dos Santos

Abigail Vilanova

Adilson Constâncio

Adriano Fiaschi

Agostinho dos Santos

Alexandra Sousa Duarte

Alexandre Esteves

Ana Esteves

Ana Maria Figueiredo

Ana Tápia

Artur Pereira dos Santos

Augusto Licks

Cecília Rezende

Cláudia Neves

Conceição Amaral de Castro Ramos

Conceição Castro Ramos

Conceição Gigante

Cristina Berrucho

Cristina Viana

Editoria

Editoria GPC

Emanuel do Carmo Oliveira

Enrique Villanueva

Ernesto Lauer

Fátima Fonseca

Flora Costa

Helena Atalaia

Isabel Alexandre

Isabel Carmo Pedro

Isabel Maria Vasco Costa

João Baptista Teixeira

João Marcelino

José Maria C. da Silva...

José Rogério Licks

Julie Machado

Luís Lynce de Faria

Luísa Loureiro

Manuel Matias

Manuela Figueiredo Martins

Maria Amália Abreu Rocha

Maria Caetano Conceição

Maria de Oliveira Esteves

Maria Guimarães

Maria Helena Guerra Pratas

Maria Helena Paes

Maria Romano

Maria Susana Mexia

Maria Teresa Conceição

Mariano Romeiro

Michele Bonheur

Miguel Ataíde

Notícias

Olavo de Carvalho

Padre Aires Gameiro

Padre Paulo Ricardo

Pedro Vaz Patto

Rita Gonçalves

Rosa Ventura

Rosário Martins

Rosarita dos Santos

Sérgio Alves de Oliveira

Sergio Manzione

Sofia Guedes e Graça Varão

Suzana Maria de Jesus

Vânia Figueiredo

Vera Luza

Verónica Teodósio

Virgínia Magriço

Grupo Progresso de Comunicação | Todos os direitos reservados

Desenvolvido por I9