Enquanto aguardava no balcão de um fornecedor em Caxias do Sul a vendedora comentava que o mês de abril terá vários feriados. Disse a ela que dias parados são ruins para as empresas, porquanto os salários não diminuem de forma concomitante. Prontamente replicou: Seu João, o tempo da escravidão acabou!
Por uma fração de segundo tentei identificar um elo entre feriados, horas trabalhadas e escravidão, mas logo desisti. Sua reação me lembrou a pregação do sindicalismo mais tacanho e rancoroso. Facilmente resisti à tentação de contestar e apenas desejei a ela que num dia não muito distante tenha sua própria empresa, para experimentar outra visão ou sacramentar a que sustenta hoje.
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São massivas as imagens da destruição causada pela guerra entre o Irã e a dupla Israel-EUA. Há vídeos falsos, mas predominam os reais. Quanta crueldade, quanto desperdício de vidas e de recursos. Num tempo em que tanto se fala em proteger a natureza, semeia-se morte e ruínas. Talvez seja apenas a versão mais violenta da hipocrisia do século XXI, a mesma que proclama a proteção da natureza, mas defende atos antinaturais e nítidas perversões contra ela.
Tenho escutado um pouco de tudo e colimado opiniões alheias sobre eventuais erros cristalizados no Oriente Médio. O primeiro erro teria sido a própria criação do Estado de Israel. Segundo alguns, trata-se de uma decisão teocrática, mal disfarçada por um regime democrático. Os que pensam assim apoiam-se, segundo eles, na falta de unanimidade entre os próprios judeus, haja vista que alguns rabinos teriam sido contrários à criação.
O segundo grande erro teria sido a recusa do outro lado de aceitar a divisão territorial planejada pela ONU. Sucessivas guerras apenas resultaram na ampliação do território de Israel.
Por fim, há os que acreditam que o grande erro foi ameaçar Israel de extinção, permitindo antever que a região jamais terá paz. Que pena!
Diante das abundantes imagens, que implicam a morte de inocentes, seja com mísseis ou drones, misturando tecnologia e guerra assimétrica, confesso que chego a desacreditar da humanidade.
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Com seus quatro meses, Cacau, filhote de pastor alemão, corre em minha direção e me “abraça” … Seria encantador se não estivesse encharcada. No dia anterior sopitou sua desabalada exatamente numa poça d´água à minha frente, gerando copiosos respingos. Como reclamar? Como não reconhecer tal deferência?
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Antes de abordar o tema, registre-se que escravidão e racismo são abominações que clamam aos céus, ainda que em alguma época o tráfico não fosse ilegal. Só este ponto já serviria para uma boa conversa: o que é legal pode ser profundamente imoral.
Feitas as ressalvas, vamos aos fatos.
Dias atrás li que a Assembléia Geral da ONU aprovou resolução segundo a qual o tráfico de africanos escravizados foi o mais grave crime da história contra a humanidade. Além disto a resolução sugere que os países emitam pedido de desculpas e contribuam para um fundo para reparação. Houve inúmeras e distintas manifestações. O representante norte-americano disse que seu país não reconhece “um direito legal a reparações por injustiças históricas que não eram ilegais sob o direito internacional no momento em que ocorreram”.
Isto dá muito pano pra manga e não porei minha colher neste angu. Apenas contextualizo a escolha do título de mais grave crime num campeonato com fortíssimos competidores. Será que o aborto legalizado, esta morte monstruosa de vulneráveis, que a ONU defende, poderia tomar o cinturão?
Ou poder-se-ia propor a candidatura do Holocausto ou dos genocídios stalinista, maoísta e polpotista? Sem citar os crimes da Segunda Guerra Mundial, o genocídio dos Tutsis em Ruanda ou o genocídio armênio. Vale lembrar, aliás, que os conflitos étnicos na República Democrática do Congo seguem vivos. Como se vê, não é nada difícil elencar uma dúzia de candidatos ao topo da desumanidade demencial.
Quanto às reparações, o tema é de alta complexidade. Seja porque a criação de um fundo como o sugerido pela resolução da ONU terá de enfrentar a corrupção sistêmica da África, seja porque conflitos tribais alimentavam o tráfico.
Referindo-se ao caso brasileiro, encontrei o texto abaixo na rede mundial:
“Os escravos eram vendidos aos portugueses principalmente por elites, chefes locais e reis africanos. Esses líderes guerreiros aprisionavam membros de tribos inimigas ou prisioneiros de guerra e os trocavam no litoral por produtos europeus, como armas, tecidos e álcool. O comércio era estruturado e negociado por reinos como o Congo”.
Por estas e outras penso que é preciso olhar para a frente, pacificando o passado e trabalhando para um futuro sem guerras, por mais utópico que isto seja.
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Perdemos recentemente um colega com menos de setenta anos. Participativo na rede social, sua morte fulminante a todos surpreendeu. E nos privou de sua inteligência, de suas opiniões frequentemente originais, não raro polêmicas. Era seu estilo: longe do morno. Sorte dele, porque não será vomitado, segundo advertência do Apocalipse.
Ao lastimarmos sua morte, as reações são as mais diversas, mas todas traem um ponto comum: estamos na fila de desembarque … Como paraquedistas no primeiro e último salto para a eternidade. Quem sabe um ou outro indague “Serei o próximo?”.
Não há o que temer se tivermos um pingo da fé de São Francisco, que tratava a morte como irmã.
Há quem se apresse, a título de consolação, e arrisque a imagem do colega junto a Deus e até mesmo a interceder por nós.
Tanto quanto sei, era católico. Podemos, portanto, lançar mão do Catecismo da Igreja (1022):
“Ao morrer, cada homem recebe na sua alma imortal a retribuição eterna, num juízo particular que põe a sua vida em referência a Cristo, quer através duma purificação (611), quer para entrar imediatamente na felicidade do céu (612), quer para se condenar imediatamente para sempre (613). «Ao entardecer desta vida, examinar-te-ão no amor» (614)”.
Porque conhecemos seu caráter, podemos acreditar que seu juízo particular foi bom.
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Ao entrarmos na Semana Santa, a caminho do maior evento da história humana, sob a promessa da Ressurreição, sem menoscabo dos sofrimentos tantos de todos os tempos, individuais ou coletivos, é tempo de lembrar que a maior escravidão é a do pecado.
Feliz Páscoa!