É provável que a notícia seja novidade para muitos leitores, porque os principais meios de comunicação a omitiram ou a relegaram para um canto escondido. A história interessa-me directamente porque a vivi em parte.
No sábado passado, participei numa manifestação a favor da vida. Chamam-lhe Marcha pela Vida porque o cortejo percorre uma certa distância. Do largo de Camões, pela rua da Escola Politécnica, até ao Rato, até S. Bento. Éramos muitos e portanto encontrei muitos conhecidos, da universidade e de outras origens. À frente, uma rapaziada bem-disposta tocava tambores e outros, com megafones portáteis, promoviam «slogans» que a multidão gritava, em favor dos direitos humanos, da solidariedade, do apoio aos mais vulneráveis. A tarde estava deliciosa e o passeio foi agradável.
Chegados a S. Bento, alguns discursos breves, pequenas histórias pessoais de alguém que deu um passo em falso na vida por falta de apoio e está arrependido, ou testemunhos de gente que superou dificuldades graças à solidariedade de outros. Não faltou a referência à leviandade com que a sociedade encara os crimes do aborto e da eutanásia.
Tudo muito pacífico e simpático. No final, despedi-me dos amigos e segui o meu caminho. Só depois soube do episódio insólito.
Enquanto decorriam os discursos, um grupo de homens transportou uma caixa para o meio da multidão. Os que estavam à volta não perceberam o que eles queriam. No final, quando boa parte da multidão já se tinha dispersado e ficaram com mais espaço, taparam a cara com máscaras, retiraram garrafas de gasolina da caixa, despejaram-nas sobre algumas crianças, um bebé e alguns adultos, e arremessaram um «cocktail Molotov» contra eles, esperando que explodisse e incendiasse a gasolina.

Não se sabe porquê, o «cocktail» não explodiu! Entretanto, alguns manifestantes e depois a polícia impediram outras tentativas de pegar fogo à gasolina, prenderam um dos atacantes e os outros fugiram.
Num país geralmente pacífico como Portugal, a crueldade de queimar pessoas vivas, em particular crianças, é algo verdadeiramente insólito. Os assassinatos a sangue-frio cometidos pelos terroristas das FP25 atingiram este grau de desumanidade? Nem foi um impulso de fúria, ou reacção a uma provocação, foi uma acção premeditada, preparada em casa com antecedência por um grupo organizado.
Contudo, a história não fica aqui, continua com capítulos surpreendentes.

Como é que, no meio de tantos polícias, só conseguiram prender um único atacante? Por que razão o tribunal deixou esse atacante em liberdade, apenas sujeito à obrigação de se identificar periodicamente numa esquadra da polícia? Por que razão os principais meios de comunicação de Lisboa desvalorizaram o ataque como «incidente sem feridos numa manifestação contra o aborto», ou simplesmente o ignoraram?
Todos os anos se realizam em bastantes cidades do país, não só em Lisboa, estas manifestações em favor da dignidade da vida humana. Algum dos principais meios de comunicação deu conta disso?
Nem o acontecimento dramático ocorrido no sábado passado em Lisboa foi pretexto para informação séria. Podiam referir a solidariedade com os mais necessitados, a defesa da mulher, o apoio à maternidade, aos jovens, aos adultos e aos idosos, de que se falou nos «slogans» e nos discursos…
O silêncio selectivo é difícil de justificar. Tanto mais que os principais órgãos de comunicação social deram grande cobertura a outras manifestações ocorridas nesse mesmo sábado em Lisboa, mesmo que, ao contrário das marchas pela vida, não se desdobrem em marchas simultâneas em várias cidades do país.
Quando é que nos vemos livres deste controlo da informação? A manifestação pela vida começa a ser um clamor cívico em favor da democracia.