Em 2002, na primeira eleição que disputou depois de recuperar os seus direitos políticos injustamente cassados em 1994, Ibsen Pinheiro voltou às urnas com o slogan “por uma questão de justiça”. Não funcionou. O argumento havia sido derrotado no próprio julgamento da cassação. Aquilo nunca fora, de fato, uma questão jurídica. Era política.
Tratava-se de uma manobra petista — o senador Eduardo Suplicy, os deputados Aloizio Mercadante e José Dirceu, com a diligência do operador Waldomiro Diniz — para retirar Ibsen do caminho da Presidência da República. Depois de presidir a Câmara dos Deputados e se destacar no acolhimento do pedido de impeachment de Fernando Collor, ele surgira grande demais no tabuleiro.
Não participei daquela campanha a deputado federal de 2002 na qual ele obteve 32 mil votos. Nem pude levá-lo a Montenegro, como ele pretendia. Mas queria saber sobre os seus novos rumos políticos. Liguei. Atendeu-me ao telefone como sempre fazia:
— Amigo velho…
Pedi para conversar e ele sugeriu que o encontrasse no estádio Beira-Rio. Eu fui, desavisado do que acontecia. No setor de imprensa, encontrei funcionários que conhecia dos tempos de repórter de O Globo. Perguntei pelo Ibsen e logo me levaram pelo acesso direto ao campo de jogo. Aquele não era o melhor momento. O clima era de tensão. O pessoal foi me contando que o Inter fazia o último treino antes da viagem a Belém do Pará onde enfrentaria o Paysandu, no dia 17 de novembro. Precisava vencer. Nada mais servia para escapar do rebaixamento para a série B do Campeonato Brasileiro.
Parei na pista atlética. O treino já corria. No banco de reservas, os jornalistas acompanhavam a movimentação. Quando me viram parado ali, alguém gritou:
— Opa! Trocaram o treinador (Celso Roth havia sido demitido e substituído por Cláudio Duarte) e parece que vão trocar também o assessor de imprensa!
Respondi:
— Não dá. Sou gremista.
Vieram as risadas inevitáveis.
Foi quando Ibsen me percebeu. Deixou o grupo de ex-presidentes, dirigentes e conselheiros — Arthur Dallegrave, José Asmuz, José Aquino Camargo e outros — que liderava na mobilização pelo Inter contra o rebaixamento. Da margem do gramado onde estava o grupo, dirigiu-se ao meu encontro.
— Veio me trazer sorte? — foi dizendo. Não era o melhor momento e tratei de ser objetivo. Para não falar de futebol e não perder a viagem, disse que soubera da sua participação na formulação do programa de governo de Germano Rigotto, o grande vencedor daquelas eleições.
Fizemos rápida análise do desgaste do mau governo do PT que se encerrava (a corrupção exposta na CPI do Jogo do Bicho, a intolerância, processos judiciais contra jornalistas, a expulsão da montadora Ford, culminando na puxada de tapete que tirou a chance do governador Olívio Dutra de ir à reeleição, impondo a candidatura de Tarso Genro). Apesar disso tudo, o resultado do segundo turno eleitoral acabou ajustado: 52,67% dos votos para Rigotto, contra 47,33% dos votos para Tarso. Comentei que aquilo sinalizava que os petistas sabiam comunicar. O novo governo precisava respeitar essa competência e evitar conflitos, emendei. Não copiar o conflito petista. Nada de conflito. Conflito zero.
Foi o que deu tempo de dizer. Nos despedimos e fui embora.
No domingo, o Inter venceu o Paysandu por 2 a 0 e escapou do rebaixamento. Não sei se por mérito técnico, influências, superação coletiva, mas escapou.
Logo na semana, o telefone tocou.
— Amigo velho, o governador está em sintonia com a conversa sobre a comunicação. É o que ele pensa. Mas, jogou o problema no meu colo. Disse que só eu poderia conduzir este atrito zero.
Respondi que Rigotto, era sensível, sabia do que estava falando. Sua campanha fora neste sentido. Porém, sugeri uma condição necessária para Ibsen aceitar o desafio. Sustentei a importância da criação de uma Secretaria de Comunicação na estrutura de primeiro escalão do governo gaúcho. Para conduzir uma estratégia em cenário de atrito zero, era preciso ter autoridade política real, de um autêntico secretário de Estado. Sem isso, seria apenas retórica.
Em dezembro, Rigotto anunciou a nominata do secretariado do seu governo, que tomaria posse em 1º de janeiro de 2003. Entre os nomes estava o de Ibsen Valls Pinheiro, secretário de Comunicação.
No dia da posse, no pico do verão porto-alegrense, o Palácio Piratini estava abafado e superlotado. Gente por todos os lados, corredores tomados.
Rigotto, no seu discurso, fez emocionada manifestação pela reconciliação política do Rio Grande. Até pediu aplausos para os petistas presentes que de forma elegante cumpriram com a transmissão de cargos, mesmo enfrentando vaias.
Tentei me aproximar de Ibsen, mas foi impossível.
O telefone voltou a tocar dois dias depois. Mas esta é uma outra história.
(arlicks@gmail.com)