José Lezama Lima nasceu em Havana, em dezembro de 1910 e faleceu também em sua pátria, Havana, em agosto de 1976; ele é um romancista, ensaísta e poeta, sendo considerado como uma das figuras mais influentes da literatura latino-americana.
Seu primeiro livro publicado é “Morte do Narciso”, editado quando tinha vinte e sete anos e tornando-o instantaneamente famoso e os seus temas clássicos. Para além de seus poemas e romances, Lezama Lima escreveu diversos ensaios sobre figuras da literatura mundial como Mallarmé, Paul Valéry, Góngora e Rimbaud, bem como sobre a estética barroca Latino-Americana.
Também teve muitos ensaios na expressão americana, descrevendo a sua visão do barroco europeu, a sua relação com os clássicos e com o barroco Americano. Apesar de José Lezama Lima ter se tornado célebre no mundo da poesia, foi com seu romance semiautobiográfico “Paradiso” que o autor melhor expressou seu universo e suas experiências de linguagem; escrito entre as décadas de 1940 e 1960, o texto barroco conta de forma pitoresca a revelação do mistério da poesia: o autor faz prevalecer o sentir sobre o dizer, Lezama conseguiu devolver à poesia a sua essência que criou um sistema para explicar o mundo através da metáfora e especialmente da imagem, que fica bem resumido pela sua famosa frase “la imagen es la realidad del mundo invisible” (“a imagem é a realidade do mundo invisível”).
Obra : o autor produziu vinte e quatro textos, trabalhou em inglês por oito bibliotecas (usou muito a “expressão americana”), e nos proporcionou vinte e quatro poesias em escritas métricas.
Lezama Lima estruturou um sistema poético do mundo sem se importar com a dificuldade que a sua leitura causava a todos os leitores: ele quis explicar o conhecimento do mundo desde a outra margem, do desconhecido, do outro, e nesse percurso lograr o desvendar de um novo ser nascido da obscuridade: a poesia. José Lezama Lima criou um sistema para esclarecer o mundo através da metáfora e especialmente da imagem, que fica bem resumido pela sua famosa frase “la imagen es la realidad del mundo invisible” (“a imagem é a realidade do mundo invisível”).
Dois poemas de Lezama Lima: “Enemigo Rumor”, poesia, 1941.
Primeiro: AH, QUE TU ME ESCAPES; “Ah, que tu escapes no instante / em que já tinhas alcançado tua melhor definição. / Ah, minha amiga, que tu não queiras crer / nas perguntas dessa estrela recentemente cortada, / que vai molhando suas pontas em outra estrela inimiga. / Ah, se fosse certo que na hora do banho, / quando numa mesma água discursiva / se banham a imóvel paisagem e os animais mais finos: / antílopes, serpentes de passos breves, de passos evaporados, / parecem entre sonhos, sem ânsias, levantar / os mais extensos cabelos e a água mais lembrada. / Ah, minha amiga, se no puro mármore dos adeuses / tivesses deixado a estátua que podia nos acompanhar, / pois o vento, o vento gracioso, / se estende como um gato para se deixar definir.”
Segundo: UMA OBSCURA PRADARIA ME CONVIDA; “Uma obscura pradaria me convida, / seus mantos estáveis e cingidos, / giram em mim, em meu balcão adormecem. / Dominam sua extensão, sua indefinida cúpula de alabastro se recria. / Sobre as águas do espelho, / breve a voz em meio a cem caminhos, / minha memória prepara sua surpresa: / o gamo no céu, rocio, labareda. / Sem sentir que me chamam / penetro na pradaria devagar, / ufano em novo labirinto derretido. / Ali se veem, ilustres restos, / cem cabeças, cornetas, mil alaridos / abrem seu céu, seu girassol calando. / Estranha a surpresa neste céu, / onde sem querer voltam pisadas / e soam as vozes em seu centro enchido. / Uma obscura pradaria vai passando. / Entre os dois, vento ou fino papel, / o vento, ferido vento desta morte / mágica, una e despedida. / Um pássaro e outro já não tremem.”
Terminamos nosso texto: a poesia “é o único fato ou categoria da sensibilidade, onde não é possível a antítese”, consagração da ruptura radical do “meio-termo”, entre o nada e o infinito a que estamos eternamente condenados. E ao poeta cabe a função de “guardião do inexistente substantivo”. Lezama recupera a provocativa noção sobre a impossibilidade humana de compreender o mistério de sua origem e o infinito que a circunda para entrever aí “a região da poesia”.

