Confessamente preocupado com a nítida degeneração espiritual do Brasil e do mundo – sob a disseminação de idéias que agridem tanto a moral como o bom senso e a própria natureza humana,- procuro entender a razão e as desrazões do que temos assistido.
Houve muitos sinais de alerta no Ocidente para os quais não foi dada a devida atenção. Um deles se fez estridente quando, anos atrás, surgiu a absurda proposta de mudança do nome de cidades que homenageiam santos.
Como chegamos tão perto deste precipício?
No espaço que se abre sob nossos pés, capaz de causar vertigem, a Europa já começa a entender o suicídio que vem cometendo há décadas por abrir mão de suas raízes cristãs. Cortou os pulsos com a fina lâmina do gnosticismo afiada pelo modernismo e agora, literalmente perdida, apela para um maior controle da imigração. Pode ser tarde demais num continente no qual a taxa de natalidade dos autóctones chega a ser constrangedora.
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Hilario Belloc, em seu “As grandes heresias”, começa por diferenciar o uso cotidiano da palavra heresia do seu sentido particular. Pode-se, por exemplo, ouvir um torcedor de futebol dizer que é uma heresia escalar fulano de tal no time titular. Não é neste sentido que estamos ocupados.
Belloc aborda a palavra heresia pela sua ligação com a doutrina cristã e a define como a introdução ou negação de uma de suas partes essenciais.
Segundo o autor, é “de interesse especial para qualquer um que queira entender a Europa, o caráter da Europa e a história da Europa. Porque a totalidade da sua história, desde o surgimento da religião cristã, tem sido a história de lutas e mudanças, em sua maioria precedidos, com frequência senão sempre causados, e certamente acompanhados por divergências de doutrina religiosa. Em outras palavras, a “heresia cristã” é um assunto especial cuja compreensão é da máxima importância para a compreensão da história europeia, porque a ortodoxia cristã é uma companhia e um agente constante da vida europeia”.
Em seu livro, Belloc alinha aquelas que considera as maiores heresias e dedica o terceiro capítulo ao que denomina “A grande e duradoura heresia de Maomé”.
Relata que esta heresia logrou sucesso por conta de vitórias militares, da extinção de dívidas e da escravidão, além da proibição da usura, bem como por sua “extrema simplicidade, que agradava às massas menos inteligentes que estavam perplexas com os mistérios inseparáveis da profunda vida intelectual do catolicismo e com a sua radical doutrina da Encarnação”.
Também contribuiu para o sucesso a tradição de obediência a lideranças fortes. Nasceu no deserto, fora do seio católico, mas adotou, segundo Belloc, a unidade da majestade de Deus e a imortalidade da alma, como as doutrinas cristãs. Ao mesmo tempo negava a divindade de Jesus Cristo, a Santíssima Trindade, a presença real na Eucaristia e o verdadeiro significado do Sacrifício da Missa.
Considerando a possibilidade de novas tentativas de destruição da cristandade, o texto relembra dois episódios cruciais. Em primeiro lugar a Batalha de Lepanto, em 1571, quando os cristãos, de forma improvável, derrotaram a enorme frota muçulmana na costa da Grécia:
“Não eram desconhecidas as intenções desse grande império islâmico, que queria fazer com Roma, com a Itália e o resto do mundo ocidental cristão, o que já tinha feito fazia um século em Bizâncio, com o grande Império cristão do Oriente. Em 1473, atacaram e tomaram a capital, Constantinopla ― cujo nome trocaram para Istambul ―, e com ela toda as terras de Bizâncio. A maravilhosa igreja de Santa Sofia, onde ainda parecia ouvir-se a voz de são João Crisóstomo, foi transformada em mesquita”. (https://padrefaus.org/storage/2020/03/LEPANTO.pdf)
“O encontro das duas armadas deu-se em 7 de outubro, ao largo de Lepanto, no golfo de Patras. O almirante, D. João de Áustria, permaneceu de pé no castelo de proa da nau capitânia, mantendo erguido o estandarte da Santa Cruz. A batalha começou nesse dia por volta das onze e meia da manhã. Não havia vento propício para os cristãos, mas D. João, após uma prudente espera, ordenou atacar. A nau capitânia disparou o primeiro canhão. Pouco depois a capitânia turca respondeu e ergueu o pavilhão verde de Maomé, guardado como relíquia muçulmana na Meca. Inesperadamente, o vento mudou e impeliu as velas dos cristãos. O encontro foi terrível, comenta-se que foi a maior batalha naval depois da batalha de Accio, na guerra civil romana, onde Otávio, em 31 a.C, alcançou a vitoria definitiva sobre Marco Antônio. Antes das quatro horas da tarde, a Liga Santa tinha alcançado a vitória, desbaratando e destroçando a armada turca”. (https://padrefaus.org/storage/2020/03/LEPANTO.pdf)
Sem a vitória de Lepanto, o que teria sido do Ocidente cristão?
Padre Francisco Faus responde:
“Toda uma fé e uma cultura, que já estava se estendendo pela América, de Norte a Sul, poderia ter periclitado ou sido aniquilada. Não há a menor dúvida de que Lepanto foi um dos momentos mais importantes e decisivos da História do Ocidente, um dos que Stefan Zweig chamaria ´momentos estelares da humanidade´”.
O segundo episódio fundamental rememorado por Belloc foi a Batalha de Viena, em 1683, vencida sob o comando do rei polonês John III Sobieski, a quem o Papa Inocêncio XI, que conclamara a resistência ao Império Otomano, elogiou como o salvador da cristandade ocidental.
Aos que dissipam seu tempo falando mal das Cruzadas sem conhecimento algum, aos gnósticos que desprezam o tesouro que Cristo nos legou e aos inimigos inconscientes da Igreja, sugiro que leiam esta obra de Belloc. Terão, no mínimo, opiniões menos tolas e mais generosas.

