Pular para o conteúdo

Saúde mental

  • Maio 23, 2026
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

 

Criador é Ele, de todas as coisas visíveis e invisíveis, como nossas almas.

Ao nos valermos de tudo quanto existe, subcriamos, ainda que por vezes sequer entendamos a fundo a própria natureza particular com que o fazemos. Como de inventor e louco todos temos um pouco, não fugi à regra.

Antes de migrar para São Paulo, cidade ainda muito agradável na década de oitenta, desenvolvi uma idéia de percussão, voltada para utilização num brinquedo. Resumidamente, tratava-se de um mecanismo capaz de lançar esferas por meio de um motor. Imaginei um canhão em miniatura, resgatando uma brincadeira que ocupou a mim e a meu irmão por muitas, mas muitas horas. Colecionávamos tampas de pasta de dente. Eram centenas de tampas brancas, azuis, verdes, vermelhas, … e cada cor identificava um exército.

Dispúnhamos no chão caixas de fósforo à guisa de barricadas e viaturas de combate. O efetivo de cada exército tinha de ser obviamente igual. Tudo arrumado, começávamos o combate. Cada um atirava uma esfera de aço com o propósito de virar as tampas alheias. Vencia aquele que ao fim e ao cabo tivesse pelo menos uma tampa em pé.

Assim que bati o costado na capital paulistana, a par de minha atividade profissional, passei a ocupar as horas vagas e finais de semana para fabricar um protótipo. Para que se tenha idéia da modéstia do mesmo, o motor era de um liquidificador velho.

Protótipo debaixo do braço, o apresentei para um cidadão muito gentil, senhor Emerson Caresia, responsável pela triagem de invenções para eventual aproveitamento pela Brinquedos Estrela. Saí da apresentação de mãos vazias, mas com o coração consolado. Me disse que o invento teria provável sucesso nos Estados Unidos. No Brasil não eram permitidos brinquedos inspirados em armas, para não incentivar a criminalidade … Como se vê, diante dos índices do crime, a restrição deu mesmo muito certo …

Fosse hoje, competindo com maravilhas eletroeletrônicas, o virtual brinquedo não lograria sucesso, mas meu irmão e eu o pediríamos aos nossos pais se então existisse.

————– x ————–

Agradeço pelas memórias da primeira infância, que dividi sobretudo entre a casa paterna, a escola e o lar de meus avós maternos, na Ramiro Barcelos, onde fazia minhas lições escolares quase todas as tardes. Lá pelas quinze horas buscava pão no Seu Conga e necessariamente passava diante da Livraria Gehlen, empreendimento fundado por Nicolau, meu bisavô, imigrante alemão que chegou no Brasil em 1903.

A vitrine da livraria era primorosa e nas vésperas do Natal excedia-se. Os mais belos brinquedos de então, em geral fabricados pela Estrela, eram iluminados à noite e cada qual, respeitadas as possibilidades de sua família, sonhava em ganhar isto ou aquilo. Menos roupa, que uma tia ou outra sempre obsequiava … As meninas ganhavam sobretudo bonecas, o que certamente ajudava a desenvolver seu instinto maternal. Os meninos ganhavam material esportivo e outras tralhas que sugeriam virilidade.

Os tempos mudaram e ontem foi noticiado que a Estrela solicitou recuperação judicial.

————– x ————–

O retrato de nossos dias é aziago. Milhões de pessoas endividadas, nível de emprego celebrado, mas com predomínio de baixos salários, criminalidade insuportável, juros obscenos, pessimismo generalizado no setor de investimentos, dramatizado pela desindustrialização observada desde muito. Tudo isto coroado por sucessivos escândalos, sem que acreditemos que os crimes dos canalhas tantos serão devidamente castigados.

————– x ————–

Eis que surge das trevas da burocracia a idéia de responsabilizar os empresários pelo acompanhamento da saúde mental de seus funcionários. Uma norma entrará em vigor e mais uma espada de Dâmocles oscilará sobre a cabeça de quem empreende, além de aumentar custos.

Justificam a criação da nova exigência pelo aumento de afastamentos por problemas mentais, pelo salto registrado dos casos de depressão.

Quem sabe o ambiente de trabalho, cheio de exigências e elevado ritmo competitivo, responde por isto. Quem sabe a pressão exercida pelas empresas e suas metas explica o fenômeno.

Que tal avaliar se a causa maior não é a desesperança, não é o gritante crescimento do crime organizado, não é a ociosidade patrocinada por esmolas governamentais, não é a impunidade de milhares de ladrões dos recursos públicos, não é a sensação de que perdemos o trem da história e já não cremos nos poderes?

Que tal indagar se a depressão que corre solta tem algum vínculo com a leitura crescente de que vivemos sem esperança, num país de merda?

Categorias

  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Cultura
  • História
  • Política
  • Religião
  • Social

Colunistas

A.Manuel dos Santos

Abigail Vilanova

Adilson Constâncio

Adriano Fiaschi

Afonso Licks

Agostinho dos Santos

Alexandra Sousa Duarte

Alexandre Esteves

Ana Esteves

Ana Maria Figueiredo

Ana Tápia

Artur Pereira dos Santos

Augusto Licks

Cecília Rezende

Cláudia Neves

Conceição Amaral de Castro Ramos

Conceição Castro Ramos

Conceição Gigante

Cristina Berrucho

Cristina Viana

Editoria

Editoria GPC

Emanuel do Carmo Oliveira

Enrique Villanueva

Ernesto Lauer

Fátima Fonseca

Flora Costa

Helena Atalaia

Isabel Alexandre

Isabel Carmo Pedro

Isabel Maria Vasco Costa

João Baptista Teixeira

João Marcelino

José Maria C. da Silva...

José Rogério Licks

Julie Machado

Luís Lynce de Faria

Luísa Loureiro

Manuel Matias

Manuela Figueiredo Martins

Maria Amália Abreu Rocha

Maria Caetano Conceição

Maria de Oliveira Esteves

Maria Guimarães

Maria Helena Guerra Pratas

Maria Helena Paes

Maria Romano

Maria Susana Mexia

Maria Teresa Conceição

Mariano Romeiro

Michele Bonheur

Miguel Ataíde

Notícias

Olavo de Carvalho

Padre Aires Gameiro

Padre Paulo Ricardo

Pedro Vaz Patto

Rita Gonçalves

Rosa Ventura

Rosário Martins

Rosarita dos Santos

Sérgio Alves de Oliveira

Sergio Manzione

Sofia Guedes e Graça Varão

Suzana Maria de Jesus

Vânia Figueiredo

Vera Luza

Verónica Teodósio

Virgínia Magriço

Grupo Progresso de Comunicação | Todos os direitos reservados

Desenvolvido por I9