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Conto de Machado de Assis

  • Maio 25, 2026
  • Cultura
  • Ernesto Lauer

No livro Histórias Sem Fim, Machado de Assis oferece à leitura diversos contos, tendo por época o Rio de Janeiro ao tempo do século XIX. Em um dele, intitulado A Igreja do Diabo, o relato é por demais significativo. Segue abaixo, por meu livre escrever, uma síntese:

Já cansado de viver dos remanescentes rejeitadas pelo Divino – pois só lhe chegavam as sobras, impossíveis de acomodar no paraíso etéreo, limbo ou purgatório – Lúcifer resolveu fundar uma Igreja na terra. Foi ter com o Senhor e pediu licença para por aqui chegar. Depois de alguns percalços e admoestações, finalmente recebeu permissão.

Já na terra, explicou que, como diabo, não era ruim como diziam; clamava que as virtudes poderiam ser substituídas por outras, naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas; declarou que a avareza é a mãe da economia, por isso permitida. A gula muito bem aceita. Disse que nos grandes banquetes, com muita comida e bebida é que se traçavam os destinos da nação.

O especial reservou para a venalidade (daquele que se vende, corrupto). Perfeitamente aceitável; era um exercício de direito superior. Se a pessoa pode vender sua terra, sua casa, seus animais, seus objetos pessoais; “como é que não podes vender a sua opinião, o seu voto, a sua palavra, a sua fé, coisas que são mais que suas, porque são a sua própria consciência”.

A prédica foi considerada muito sábia; adeptos começaram a chegar aos milhares e a igreja ganhou dimensão mundial. Com o andar do tempo – o tempo sempre é o melhor remédio – o Diabo tomou conhecimento que seus seguidores, por baixo dos panos, na calada, comiam de maneira mais frugal; ajudavam os pobres e necessitados e muitos concluíram que não podiam vilipendiar a sua própria consciência.

Soube por uns e por conhecimento próprio, destas atitudes insidiosas, totalmente contrárias ao que pregava. Desgostou-se; chamou a todos de volúveis, fingidos e charlatões, entre outros qualificativos desairosos. Resolveu fechar a igreja e voltar para o seu local de origem – os remanescentes lhe seriam suficientes; ao menos nesses poderia confiar.

Não há uma unidade natural no mundo. A dualidade é uma constante. O maniqueísmo é teoria filosófica que divide o mundo entre o BEM – DEUS e o MAL – DIABO. Esta doutrina ensejou aos princípios opostos. A realidade sempre envolverá duas concepções opostas – é a dualidade.

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe sua vã filosofia” (“There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy”) – disse Hamlet, dirigindo-se a Horácio. Na peça Horácio representa a racionalidade (lógica) e Hamlet a paixão. Ele morre e “tudo é silêncio”.

Ao conjugar a peça de Shakespeare com o conto de Machado de Assis, certamente a dualidade transparece. O diabo, ao vir para a terra, pretendia trazer a si os BONS, pois cansado das sobras que lhe cabiam. Hamlet busca a vingança pela morte do pai, acreditando no que lhe disse um espectro (fantasma); incorpora o MAL (por provocação).

Através da língua é possível engendrar situações mentirosas, imputar aos semelhantes fatos inverídicos, pejorativos, jamais sequer idealizados. O mundo da informática permite colocações desastradas e manifestações equivocadas, por desconhecimento da realidade. O real é como a faca: tem dois gumes. Para um verdadeiro conhecimento é importante conhecer os dois e cotejar um com o outro.

O mal se espalha, como o boato. Suba na torre de uma Igreja, espalhe as penas de um saco, ao vento forte que sopra. Tempo depois, caminhe recolhendo-as; quantas não estarão em um rio, nas suas águas sempre a correr. E então… é silêncio; o boato ganhou dimensão.

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