A festa do Espírito Santo convida à meditação e contemplação das relações tempo-eternidade, homem-Deus. A vigília da festa inicia-se com a leitura da narrativa pré-histórica da Torre de Babel, a que podíamos chamar a torre de ilusão. Já lá vamos. A torre de Babel, e a sua torre até ao céu (para dispensar Deus?), era vida em ilusão de confiança nas técnicas humanas já alcançadas no tempo: amassar barro, moldar tijolos, cozê-los a fogo abrasador e assentá-los com argamassa de betume, e assim alcançar a posição de Deus.
Hoje, a confiança de muitos especialistas também assenta em técnicas, mas mais sofisticadas e de IA, (Inteligência Artificial), com pretensões de dispensar (negar) Deus com a mesma ilusão e muita confusão na comunicação. Deus, diz a narrativa, desceu para os libertar da ilusão de independência e omnipotência. Deixaram de se entender e de conseguirem organizar-se e tiveram que se dispersar e recomeçar.
E hoje? O desentendimento não é menor, nem a ilusão da esperança nas técnicas sofisticadas, também, não é menor. A ilusão da humanidade de alcançar a esperança da imortalidade e a salvação só com os seus recursos, fabricando falsos seres humanos, transumanizados, já agora e qui, neste espaço e tempo sujeitos ao tic-tac do relógio. Ilusão de que não precisa de manter relação dos seres humanos com o SER que os criou, isto é, sem receberem a salvação desse SER espiritual que se revela aos seres de corpo e espírito.
A festa do Pentecostes de há dois mil anos poderia resumir-se na palavra Espanto. O que aconteceu não foi anunciado nem realizado por seres humanos. O vento impetuoso era sopro criador, as línguas de fogo causaram comunicação inesperada entre culturas e línguas numerosas e estranhas; nada menos de 18 ‘culturas’ como S. Lucas investigou e registou: «Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes (At 2, 1-11). Foi um espanto que gente de tantas culturas entendesse os apóstolos.
A novidade foi tal que ficaram atónitos, surpreendidos, porque tal facto era novidade que não podia estar no poder dos seres humanos. Isto só podia vir de fora dos homens, de um mundo além do físico. Eram maravilhas de Deus proclamadas nas suas várias línguas por uma só língua dos apóstolos. Não eram imaginação de sombras como as do mundo da caverna de Platão. Reveladas, eram realidade conhecida e observada por milhares de pessoas, não produzidas por elas, mas recebidas de fora como «maravilhas de Deus». Um espanto, realmente.
As narrativas do Novo Testamento que falam e revelam o Espírito Santo e a sua relação trinitária com a ressurreição da carne e a salvação são Boa Nova (realidade nova) que supera tudo o que as filosofias possam aduzir nos seus tratados. O Espirito Santo une dois mundos: o da matéria e o do espírito. Só Ele é ponte sem a qual a humanidade, com tudo o que ela empreende, fica confinada ao labirinto de saída que só se abre de além do tempo, do infinito para o espaço-tempo. Sem esta ligação relacional da fé cristã as sabedorias humanas ficam cortadas da solução e novidade, da esperança, da compreensão e da salvação. Jesus Cristo afirmou-o claramente com estas palavras: sem Mim nada podeis fazer.
Alguns filósofos que usaram com lucidez a sua disciplina concluíram que a Filosofia, por si só, não serve para salvar o homem. Para se libertar dessa inutilidade; precisa de ser aberta de fora pelo Espírito que dá a vida eterna. Só que este Espírito é pessoa Amor que circula entre o Pai e o Filho e Este é caminho, verdade e vida que ao encarnar e habitar entre nós, assumiu a natureza humana, carne-espírito, como ponte e porta entre o visível e o invisível, o temporal e o infinito.
Poderíamos dizer que os homens são ramo carne-espírito (sopro divino na criação, no batismo e no Cenáculo: o Criador soprou sobre eles e os sagrou com o Espírito Santo) e o Filho de Deus encarnado, Deus feito homem, se enxerta nos homens. «O Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito». (Jo 14:26). Ensinar e lembrar será como que nova revelação e salvação espiritual dada ao homem.

