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A terrina

  • Julho 25, 2022
  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Ana Maria Figueiredo

Quando S. Josemaria visitou Portugal em 1972, passou-se um acontecimento que merece ser contado. O Padre Hugo de Azevedo, no seu livro “Uma luz no mundo”, transcreve uma história por si vivida.

Várias vezes desfolhei este livro e, entre tantas coisas que me impressionaram e de que tirei proveito para a vida, amei sempre esta história de simplicidade e fortaleza que nos ensina que as simples coisas são tão essenciais no amor pelos outros e na conduta de uma vida humilde.

“É destes dias a história de uma velha terrina – uma antiga terrina popular, rachada na base e recomposta solidamente com sete grampos de ferro – que lhe apresentámos cheia de chocolates em forma de coração. Comprara-a eu poucos meses antes em Coimbra numa loja de velharias – o Plácido – da Rua da Sofia. Qaundo a descobri na montra deu-me um pulo o coração; seria o presente ideal para o Padre!

Tantas vezes nos falava dos vasos rachados – frágeis como a nossa alma – que se consertam com uns bons grampos e ficam mais graciosos do que dantes – como fica cheia de graça a nossa alma arrependida, depois de uma boa confissão… Não era uma vaso, mas era uma terrina, um”puchero”, outra imagem que usava com frequência, comparando o espírito da Obra ao velho canjirão popular, donde todos os membros da familia, sentados ao redor da mesa vão tirando o que necessitam, cada um segundo a sua idade e apetite – um único prato para todos, um único espírito mas de aplicação tão variável como as condições de cada um…E ainda por cima, entre as ramagens pintadas no testo e no bojo, em letra corrida quase infantil, o artista decorara a terrina com a mais simples declaração, oito vezes repetida “Amo-te, Amo-te, Amo-te”…

 

Quando a viu, sobre a mesa da sala de estar de Enxomil, comoveu-se. Gostou imenso da velha terrina portuguesa e já não quis separar-se dela. Que a levassem para Roma. Queria vê-la muitas vezes. Dar-lhe-ia muita presença de Deus. E assim se fez. Erguendo o tampo provou um dos pequenos chocolates em forma de coração com que a tinham enchido e comentou, divertido:-“que doces são os coraçõs dos meus filhos portugueses”.

Até o Senhor o levar para o céu, quantas vezes se referiu a ela, extraindo lições, que só uma alma enamorada de Deus seria capaz de tirar!”

Também nós somos barro, muitas vezes partido, que pode ser consertado com uns grampos, tal como uma confissão sincera que nos volta a unir como ser humano, lindo e cheio de felicidade, para nos entregarmos aos outros, vivendo agora e sempre, em épocas difíceis, mas cheios de Cristo e cumprindo a sua vontade.

  1. Josemaria no ponto 826 do livro “Caminho” toca na importância das pequenas coisas. Escreve: ”tudo aquilo em que intervimos, os pobrezitos dos homens – mesmo a santidade – é um tecido de pequenas insignificâncias, que conforme a intenção com que se fazem, podem formar uma tapeçaria esplêndida de heroismo ou de baixeza, de virtudes ou de pecados. As gestas relatam sempre aventuras gigantescas, mas misturadas com pormenores caseiros do herói. – Oxalá tenhas sempre em muito apreço – é a linha reta – as coisas pequenas”.

Neste ponto, S. Josemaria evidencia bem que as pequenas coisas vencem batalhas.

O Santo Padre, na passada quaresma, deixou-nos as palavras de S. Paulo aos Gálatas, “Não nos cansemos de fazer o bem, porque, a seu tempo colheremos, se não tivermos esmorecido. Portanto, enquanto temos tempo (Kairós) pratiquemos o bem para com todos” (Gal 6,9-10a).

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