Skip to content

Adélia Prado “O poder humanizador da poesia”

  • Novembro 14, 2022
  • Cultura
  • Rosarita dos Santos

Daqui a um mês, nossa Adélia Prado festejará seus oitenta e sete anos. Ela nasceu em 13 de dezembro de 1935, em Divinópolis, cidade localizada no centro-oeste de Minas Gerais e a somente 120 km distante da capital, Belo Horizonte.

A autora é poetisa, professora, filósofa, romancista e contista, e sua produção é ligada ao chamado movimento modernista de 1922, a saber, quando diversos autores e de múltiplas tendências artísticas propõem reformar aquela cultura considerada ultrapassada, em busca de uma arte atualizada e mais próxima da espontaneidade cultural. É por aí que vamos descobrir a literatura de Adélia, e encantar-nos com ela.

Sua obra retrata o cotidiano com perplexidade e arrebatamento, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único. Em 1975, envia o manuscrito de sua coletânea “Bagagem” para a coluna de crítica literária do Jornal do Brasil, com sede no Rio de Janeiro, e a seguir, Carlos Drummond de Andrade toma conhecimento de suas poesias e as repassa à publicação de seu primeiro livro, pela Editora Imago. Em 1976, a autora lança esse mesmo livro “Bagagem” na capital do país, com a presença de autoridades políticas e de intelectuais da mais alta expressão artística.

Professora por formação, ela exerceu o magistério durante vinte e quatro anos, até que a carreira de escritora tornou-se sua atividade central. Em termos de literatura brasileira, o surgimento da escritora representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante, tendo-se em conta que Adélia incorpora os papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona-de-casa, e sua obra trata de temas como a religião, a condição feminina e o amor.

A autora vem de uma família modesta e é alfabetizada aos sete anos de idade, em um Grupo Escolar próximo a sua casa; aos quinze anos, logo após a morte de sua mãe, em 1950, ela inicia a escrita de poemas e no ano seguinte, aos dezesseis, ela ingressa na Escola Normal, onde conclui o curso de magistério, em 1953. Começa a lecionar em 1955, casa-se com um bancário, em 1958, e dessa união nascem cinco filhos. Antes do nascimento da última filha, em 1966, a escritora e o marido iniciam o curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis; em 1972, morre seu pai, e em 1973 Adélia forma-se em Filosofia. É a partir dessa etapa que ela começa a enviar cartas e muitos originais de seus escritos e poemas a professores e a especialistas em literatura, no intento de ver seus textos publicadas.

A lista de obras da autora aproxima-se de cinquenta, divididas entre poesia, prosa, balé, parcerias, e com traduções de seus obras, especialmente em inglês, nos Estados Unidos, e em espanhol, na Argentina e no México. Destacamos também a importante confissão de sua influência sobre o pedagogo brasileiro Rubem Alves, psicanalista, educador, teólogo, escritor, e igualmente sobre o premiado autor moçambicano Mia Couto.

A partir de agora, consagramos nossa atenção à análise da obra de Adélia Prado; habitualmente, considera-se sua obra-prima – ou magnum opus – a coletânea intitulada “Bagagem”. Sobre a origem do título, Adélia diz: “Entre outros títulos que me ocorreram, “Bagagem” era o que resumia, para mim, aquilo que não posso deixar ou esquecer em casa: a própria poesia”. Em “Bagagem”, Adélia faz uso do lirismo e da ironia, também da religiosidade e do profano, e ainda do cotidiano da mulher, da morte e da alegria; há também referências a outros poetas consagrados, como o próprio Drummond, o que veremos a seguir.

O título é “Com licença poética”: “Quando nasci um anjo esbelto, / desses que tocam trombeta, anunciou: / vai carregar bandeira. / Cargo muito pesado pra mulher, / esta espécie ainda envergonhada. / Aceito os subterfúgios que me cabem, / sem precisar mentir. / Não tão feia que não possa casar, / acho o Rio de Janeiro uma beleza e / ora sim, ora não, creio em parto sem dor. / Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. / Inauguro linhagens, fundo reinos / – dor não é amargura. / Minha tristeza não tem pedigree, / já a minha vontade de alegria, / sua raiz vai ao meu mil avô. / Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem. / Mulher é desdobrável. Eu sou.”

Como vimos, inserido em seu livro de estreia, “Com licença poética” é o poema que inaugura a obra e faz uma espécie de apresentação da autora até então desconhecida do grande público; os versos tecem uma clara referência – e homenagem – ao “Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade, o qual reconheceu e valorizou, nesse primeiro poema de Adélia, sua escrita modernista, o tom de oralidade, marcado pela informalidade e pelo desejo de proximidade com o leitor. É como se o eu-lírico generosamente se oferecesse a nós, entregando suas qualidades e defeitos sob a forma de versos; nessa poesia vemos também a questão do que significa ser mulher na sociedade brasileira, sendo sublinhadas as dificuldades que o gênero costuma enfrentar.

Destacamos um segundo poema, intitulado “Momento”: “Enquanto eu fiquei alegre, / permaneceram um bule azul com um descascado no bico, / uma garrafa de pimenta pelo meio, / um latido e um céu limpidíssimo / com recém-feitas estrelas. / Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios, / constituindo o mundo pra mim, anteparo / para o que foi um acometimento: / súbito é bom ter um corpo pra rir / e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo / alegre do que triste. Melhor é ser.” Este texto trata da transitoriedade do tempo, do correr da vida e de como se deve escolher levá-la.

Para ilustrar as várias fases da existência, a autora faz uso de imagens simbólicas como o bule azul descascado e a garrafa de pimenta pelo meio; as duas imagens sublinham o processo de desgaste e uso inerente à vida; alinhado com os objetos estão signos aleatórios como o latido de um cão e um céu limpo, itens que ocupam espaço no nosso cotidiano repetitivo, e após essa justaposição de matérias e afetos, a poeta conclui o poema de uma maneira positiva e com um tom otimista, destacando o corpo que ri e a alegria que vence a tristeza.

Como sabemos, seus poemas carregam uma linguagem coloquial e simples, o que torna sua obra leve e original; é sempre um prazer a leitura dos versos de Adélia. O poder humanizador da poesia aí se faz presente de uma forma muito próxima de quem a lê, o que torna possível a facilidade de compreensão de sua obra repleta de sentimentos e até de esperança (pode-se afirmar). Finalmente, o terceiro poema, “Fragmento”: “Bem-aventurado o que pressentiu / quando a manhã começou: / não vai ser diferente da noite. / Prolongados permanecerão o corpo sem pouso, / o pensamento dividido entre deitar-se primeiro / à esquerda ou à direita / e mesmo assim anunciou o paciente ao meio-dia: / algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda, / um vento bom entra nessa janela.”

O poema se inicia com a imprecisão do dia e da noite e com o elogio àquele que teve sensibilidade para perceber quando o sol nasceu; além disso, há uma série de conflitos presentes nos versos: o tempo que passa e não passa, a noite que chega e não chega, o corpo que quer se movimentar mas afinal está em repouso, o pensamento inquieto com a posição do deitar; no real, não sabemos quem é o paciente em questão que faz o anúncio da passagem das horas, mas podemos concluir que, apesar das angústias, o poema se encerra de uma maneira solar.

Apesar das dicotomias apresentadas em “Fragmento”, terminamos a leitura apaziguados pela presença da brisa agradável que entra pela janela porque o tom da lírica é otimista, positivo. Entretanto, uma passagem bizarra na obra de Adélia Prado aconteceu: é que a autora marcou um período de “silêncio poético”, durante cinco anos, a partir de 1994; durante esse período, ela não publicou nenhum novo título e, ao ser questionada por que, ela afirmou que fora “um período de desolação. São estados psíquicos que acontecem, trazendo o bloqueio, a aridez, o deserto”. Felizmente, passado esse tempo, a autora voltou com “Oráculos de Maio”, uma coletânea de poemas, e “Manuscritos de Felipa”, uma prosa curta, ambos em 1999. Fiquemos com o que nos oferece Adélia Prado: ela faz poesia com o bom tempo e o retrato cotidiano da perplexidade e do encanto, ela recria o fenômeno poético da natureza iluminada, ela nos permite ser melhores e até alegres.

Não contém vírus.www.avast.com

Categorias

  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Cultura
  • História
  • Política
  • Religião
  • Social

Colunistas

A.Manuel dos Santos

Abigail Vilanova

Adilson Constâncio

Adriano Fiaschi

Afonso Licks

Agostinho dos Santos

Alexandra Sousa Duarte

Alexandre Esteves

Ana Esteves

Ana Maria Figueiredo

Ana Tápia

Artur Pereira dos Santos

Augusto Licks

Cecília Rezende

Cláudia Neves

Conceição Amaral de Castro Ramos

Conceição Castro Ramos

Conceição Gigante

Cristina Berrucho

Cristina Viana

Editoria

Editoria GPC

Emanuel do Carmo Oliveira

Enrique Villanueva

Ernesto Lauer

Fátima Fonseca

Flora Costa

Helena Atalaia

Isabel Alexandre

Isabel Carmo Pedro

Isabel Maria Vasco Costa

João Baptista Teixeira

João Marcelino

José Maria C. da Silva...

José Rogério Licks

Julie Machado

Luís Lynce de Faria

Luísa Loureiro

Manuel Matias

Manuela Figueiredo Martins

Maria Amália Abreu Rocha

Maria Caetano Conceição

Maria de Oliveira Esteves

Maria Guimarães

Maria Helena Guerra Pratas

Maria Helena Paes

Maria Romano

Maria Susana Mexia

Maria Teresa Conceição

Mariano Romeiro

Michele Bonheur

Miguel Ataíde

Notícias

Olavo de Carvalho

Padre Aires Gameiro

Padre Paulo Ricardo

Pedro Vaz Patto

Rita Gonçalves

Rosa Ventura

Rosário Martins

Rosarita dos Santos

Sérgio Alves de Oliveira

Sergio Manzione

Sofia Guedes e Graça Varão

Suzana Maria de Jesus

Vânia Figueiredo

Vera Luza

Verónica Teodósio

Virgínia Magriço

Grupo Progresso de Comunicação | Todos os direitos reservados

Desenvolvido por I9