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Vida, insopitável mistério

  • Novembro 23, 2022
  • Cultura
  • José Rogério Licks

No outro dia a Nô veio pela tarde e continuamos o trabalho, eu cada vez mais fissurado pela ideia.

A coluna foi atacada, nas proximidades do rio Araguaia, ela conta. Bicho-grilo foi ferido e  gritou aos companheiros, que não sabiam o que fazer:

– Não se detenham por mim, a nossa causa é o que importa! Joguem-me nas águas do Araguaia!

Mas ninguém teve coragem de jogá-lo barranca abaixo, deixaram ele ali e seguiram adiante, depois de um último olhar angustiado e confuso.

– Cê tá sacando? O Bicho-grilo, que era um ninguém sem rosto, encarou o Nada do seu interior e este lhe abriu a trilha da liberdade – ela explica. Não no plano figurado, filosófico, e sim na vida real, imerso no seu coletivo e sem nada mais a ver com o indivíduo isolado e angustiado do passado. E o medo da morte se transformou em resolvida serenidade, ele sabe que morrendo pela causa geral nada se perde e ele entra no bardo com o karma purificado…

Ela ainda quer incluir uma cena no final, em que o capitão resolve provocar o prisioneiro, que está no chão respirando com dificuldade e meditando.

– Pensando na tua fama e na imortalidade?

– Não. Penso que tudo neste mundo é vazio e feito de ilusão. A vida é sonho, a morte é o despertar.

Na trilha da liberdade
Ele encontra a sua paz
Aniquilando a vontade
Deixando o mundo pra trás

– Nô, acho que estou começando a entender melhor a sua visão – falei, sentindo em mim um inopinado borbulhar. E na minha cabeça foi se desenhando a sigla CPVR… Centro de Preparação dos Viajantes Resolvidos. Imagina o magro arribando lá no sul, vindo de um estágio em Imperatriz… Mostrando a carteirinha do CPVR… Imagina o reboliço…    Nisso daí também entra o tudo vale a pena, se a alma não é pequena, pensei, mas por timidez não falei…

– Vou começar a desenhar os cenários. E vou combinar com o pessoal, pra fazer um primeiro ensaio. Ah, o Júnior me pediu pra te entregar isso daqui. E Nô me passou um envelope, me deu dois beijinhos e se mandou, prometendo voltar em três dias. O envelope trazia uma cartinha  do Júnior dizendo „Pras tuas despesas“, e dentro uma grana amiga.

Ainda trabalhei nas músicas um pouco, depois fui dar uma voltinha, ver se descolava uma baia de comida, mas acabei indo pegar a xepa do Anápolis. No caminho de  volta para a boate vejo vários cartazes: – Atenção!Terroristas!           

– Devem ter sido colocados hoje mesmo, ontem não estavam, pensei. E num deles reconheço a foto do João Carlos… Pode ser que Imperatriz esteja agora infestada de agentes camuflados de civil, soldados não vi. E me veio à lembrança o aviso do delegado Silvio, em Chapadinha…

Chego na boate, abro a porta e tem um papel dobrado no chão: „Surgiu um imprevisto, venha passar um tempinho em Buriti, rua Novo Horizonte, 12. Passagem baratinha, barco parte nove da manhã. Abraço, Nô“                         Opa, começo a adivinhar o que está rolando. Dou um tempo, Nelson vai chegar daqui a pouco, aí ele esclarece tudo… E vou recolhendo meus badulaques, talvez a gente tenha que ir pra outro lado.   Mas as horas passam e não aparece ninguém… Caminho à toa no salão, matutando.

Com a breca… Não pode mais um sujeito ficar quieto no seu canto, logo aparecem uns cricris da vida pra incomodar. Aqui estou, sozinho neste salão vazio… A qualquer momento podem vir bater na porta, querendo saber quem é o dono da boate Doce Oriente... O que é que eu faço… Não abro, me escondo no armário? Brincadeira…

De Imperatriz eu não tinha a menor informação e estava preparado até para ver uma onça passeando pelas ruas, mas a fauna do Bicho-grilo não estava no meu horizonte. A minha trilha é outra, só que sem querer, e por intrincados atalhos acabei me juntando aos reféns da turvação… Mas ainda podemos picar a mula para Belém, pensei me reanimando.           Se Deus quiser e o Diabo permitir… O ônibus parte às nove da manhã…

Praticamente não dormi, e quando clareou o dia caminhei para o ponto do ônibus, com o cu na mão, mas não pintou sujeira. Lá chegando me sentei num canto, ainda tinha um bom tempo de espera.

O tempo foi passando, ali pertinho era o atracadouro do rio Tocantins. E de onde estava eu podia observar um grupo de pessoas, na certa esperando para embarcar.  Se eu quisesse, também podia pegar o barco… Para o novo horizonte… A Nô é uma mulher incrível, e o Viajante Resolvido é uma grande sacada, fui pensando. E afundei de cabeça no trabalho, a música dos Caçadores de gente já está pronta… De repente me assalta a dúvida.

– E se estou exagerando meu cagaço? Pode ser que a coisa nem seja tão feia. Pode ser que um tempinho em Buriti seja uma boa. A Nô é uma mulher bonita, pode rolar muita coisa entre a gente. É de se jogar fora um lance desses, tão especial? Fiquei cada vez mais na disjuntiva, e resolvi consultar o oráculo de Biage. E estava procurando na mochila os coquinhos que trouxe de Salvador, quando estaciona o ônibus para Belém. As pessoas foram subindo e tomando assento.

E de repente aparece no atracadouro uma viatura militar, saltam dois uniformados, um deles com estrelas no ombro. E abordam aquele pessoal, barrando a entrada deles no barco, que já havia atracado, começam a revistar um por um… Opa… Aí me abalei pro ônibus, lembrando uns conselhos que me deu o João Policarpo em Macau. Entrei, sentei, o motorista ligou o motor. E avançou contra uns moleques que brincavam por ali, eles saltaram para todos os lados. O mentecapto caiu na gargalhada e partimos, rumo à cerração avermelhada da Belém-Brasilia.

Ainda olhei uma última vez para trás, a tempo de ver a viatura militar assomando na parada do ônibus.

É, pensei… É a vida, insopitável mistério.

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