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Cortesia desambicionada

  • Janeiro 25, 2023
  • Cultura
  • José Rogério Licks

A universitária mais bonita no navio se chama Isa e me fez lembrar um comentário do Rui Gaitonde, sobre os últimos vestígios da belle époque borrachal, que ainda se veem em mulheres da classe alta paraense.

Ela tem toda uma pose aristocrática nos gestos, no olhar e na voz. E não se mistura.

Se mantém numa reserva só compartilhada e cortejada por um pequeno séquito de três rapazes, que estão sempre atentos ao que ela diz ou faz. Apelidei ela de condessa, quando a contemplo vejo também o Theatro da Paz.

Dei uma descida na terceira classe e de cara vi a mulher com quem tinha conversado antes do navio zarpar, dona Alzira. Ela vai desembarcar em Juriti e quando entrou trazia uma galinha.

– E a sua galinha, saiu voando por aí?

– Já comi – ela respondeu. E me explicou que sempre faz isso. Ela tem um conhecido na cozinha, ele prepara a galinha, mais o feijão com arroz.

Sonhei que descia por um redemoinho no estreito de Breves. Foi um sonho longo, mas esqueci o resto. Deve ter sido por causa da conversa que tive com o amigo do Bocomoco. Ele viu que eu estava lendo o Proust e por coincidência, a revista que ele tinha acabado de ler trazia uma biografia do escritor.

– A essência do que Proust escreve é o tempo -, ele falou. Tempo perdido das nossas vidas, tempo recuperado das nossas memórias.

– E tem dois tipos de memória – apartou Bocomoco, que se chama Lindomar e não é nada do lerdo e monótono que o pessoal crê.

– Sim, tem  a memória que acionamos por um esforço voluntário, procurando no desvão das experiências vividas – continuou o outro. E tem aquela que nos aciona, ou seja nos assalta vinda de fora.

Ao cheirar um perfume, comer um doce ou ouvir uma música, e de repente somos transportados como num tapete voador para um momento passado da nossa vida.

– A existência é como um redemoinho, devido à essa memória involuntária, que está sempre pronta a se manifestar e se misturar ao que estamos vivendo, criando um vórtice que nos arrasta – ensinou o Bocomoco.

Na verdade, o redemoinho está em tudo, em cada momento da vida a silenciosa atividade dos órgãos internos se contrapõe à atividade mental, que por sua vez se mistura ao sangue, que a transporta  aos órgãos, que… É estranho como essa ideia tem me procurado, nos últimos tempos…

Teve o redemoinho do Procópio em São Luís. E em Imperatriz Lena me mostrou a representação taoísta da origem do universo e de tudo o que vive, onde dois impulsos antagônicos se contrapõem e se completam.

Vi ali um redemoinho.

Tem gente nas cartas, outros estão fazendo palavras cruzadas.

A moça francesa está aprendendo um ponto de tricô de uma brasileira.

O Bocomoco está lendo um livro.

Alguém está organizando uma rifa e vieram me pedir a flauta, para tocar lá no telhado do barco.

A Simone – uma cearense bonitinha de 17 anos – está me secando, como de costume, mas a mãe dela está sempre na patrulha. Uma menina da operação, estudante de química, fica sempre na dela, sozinha, contemplando as águas que fluem. Acho ela muito sedutora, tem um ar de fruta azedinha.

Estamos na metade da tarde, com uma brisa amiga bafejando o convés, nos aproximando de Juriti. Do barco já se vê uma ladeira e uma construção humilde sobre pilares, onde na fachada se lê: Mercado Municipal. Outra ladeira leva para lugares mais altos, onde desponta uma igrejinha de uma torre só. As partes mais baixas junto ao mercado estão alagadas. (Não demoramos mais do que dez minutos em Juriti, já estamos navegando com velocidade novamente.)
No fundo da nave uma bandeira verde-amarela desbotada e esfiapada tremula ao vento.

Hoje acordei inexplicavelmente cansado.

Foi a noite em que mais dormi desde que estou a bordo, e a única em que não bebi…

Tem uma passageira que usa os cabelos tingidos de azul e cujas feições e o longo pescoço, somados ao fato de ela usar óculos muito sugestivos, me evocam imediatamente uma avestruz. Nós – ela e eu – temos um acordo tácito, secreto, que fizemos sem nunca trocar uma palavra. Ela está sempre sentada, conversando e eu vivo andando de um lado a outro do convés. Cada vez que vou passar, esteja em qualquer situação ou bate-papo, ela volta a cabeça triangular de grandes olhos redondos na minha direção e espera naquela imobilidade passeriforme. Aí eu cumprimento com a cabeça, cortês, e ela responde da mesma maneira, com um sorriso de lábios fechados esticando a boca fina a ponto de tomar toda a largura do rosto. E é só. Não nos falamos, vivemos apenas para esse momento de cortesia desambicionada.

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