Skip to content

Qui circa, trova

  • Junho 11, 2023
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Tinha exames marcados a partir do meio-dia. Coisas da vida e da idade. Como me escreveu dias atrás uma de nossas colunistas portuguesas, às voltas com problemas de saúde, Deus nos fez com muitas peças e lá pelas tantas algumas delas precisam de manutenção.

Chegara cedo na capital, me desincumbira de algumas tarefas e restava uma hora para me divertir antes de ir ao hospital. Fui ao sebo de sempre. Ainda não abrira … Cruzei a rua e entrei num outro livreiro, que anos atrás irritou-se comigo porque questionei uma figura de esquerda. Deve ter esquecido, pensei.

Lá estava ele, praguejando contra o prefeito porque privatizou a companhia municipal de transporte coletivo. Um fascista, repetia a cada três ou quatro palavras. Os ônibus andam lotados! Fascista! E ele deu de mão beijada a companhia! Fascista! O povo que se dane! Cuspindo marimbondos, saiu dizendo que voltaria em minutos. Enquanto isto, em silêncio eu garimpava biografias.

Quando voltou disse à sua colega que começara a ler Bauman. Vinha gostando do estilo, mas deixou o livro de lado quando percebeu que Bauman era antimarxista … Não dá! O cara é bom, mas é antimarxista!

Sua reação lembra a de adeptos de uma seita. Teme ter seu alicerce ideológico balançado e põe de lado o que o contraria. Enquanto atacava os fascistas, uma funcionária assentia com a cabeça. Óculos dependurados na ponta do nariz, cadastrava livros recém chegados com a boca aberta e um pigarro de fumante.

Quando visitamos o Irã conhecemos um fotógrafo que também atuava como guia para estrangeiros. Era um gentleman, que infelizmente morreu poucos anos depois. Nos contou que tivera uma livraria e certa feita expulsara um cliente que exsudava alho. Fora!, disse ele, pouco se importando em perder um possível comprador. Pois o livreiro não está longe disto no que diz respeito à ideologia. Seu mundo está dividido entre marxistas e fascistas. Não há intermediários.

Apressei a escolha e paguei os livros. Bons, por sinal, dentre os quais uma biografia de Mao, um ensaio sobre Dostoievski e uma biografia de Rubem Braga. Precisava me dirigir ao hospital.

Nos períodos de espera entre os exames continuei lendo “Meus fantasmas”, que reúne dez episódios de uma entrevista concedida por Ernesto Sábato.

Partindo da premissa de que o mundo anda mal, que subscrevo, Sábato dá uma das melhores explicações que já encontrei sobre crentes marxistas, como o livreiro:

“É compreensível que a juventude queira mudar este mundo apodrecido. Os motivos são inúmeros: guerras atrozes por causas ignóbeis, injustiças sociais, fome … povos oprimidos. Os motivos variam muito e certamente a criação não é sempre consciente. Há, sem dúvida, uma minoria de jovens que tem plena consciência daquilo em que se engajou, e são estes jovens em geral que conduzem a maioria. Porém, o negócio que existe e que cresce cada vez mais é um sombrio e formidável sentimento doentio, uma revolta aparentemente absurda, voltada para destruir os valores de uma sociedade que eles vêem baseada amplamente sobre o privilégio, a mentira e a corrupção. Quando um rapazola adere ao comunismo, não é por ter lido atentamente O Capital. Nem atentamente nem na diagonal. Geralmente, em noventa por cento dos casos, ele jamais o leu. Talvez tenha percorrido aquelas páginas que constituem o Manifesto Comunista. Alguns destes jovens não se perguntarão se a ditadura dita “do proletariado” pretende realmente dar fim aos males que os revoltam, e bem poucos serão aqueles que abrirão os olhos sobre a gigantesca prisão em que se transformou um Estado comunista. Não, eles imaginam que tal regime abolirá a maldade, sem perceber que existem do outro lado maldades equivalentes. No melhor dos casos, substituíram a servidão econômica pela tirania do aparelho político, sem se darem conta de que a escravidão do espírito é ainda pior do que aquela do corpo.”

Reza o ditado que quem procura, acha. Na típica ironia italiana, qui circa, trova. Encontrei esta boa explicação. Agora espero encontrar qual das minhas peças precisa ser reparada.

Categorias

  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Cultura
  • História
  • Política
  • Religião
  • Social

Colunistas

A.Manuel dos Santos

Abigail Vilanova

Adilson Constâncio

Adriano Fiaschi

Afonso Licks

Agostinho dos Santos

Alexandra Sousa Duarte

Alexandre Esteves

Ana Esteves

Ana Maria Figueiredo

Ana Tápia

Artur Pereira dos Santos

Augusto Licks

Cecília Rezende

Cláudia Neves

Conceição Amaral de Castro Ramos

Conceição Castro Ramos

Conceição Gigante

Cristina Berrucho

Cristina Viana

Editoria

Editoria GPC

Emanuel do Carmo Oliveira

Enrique Villanueva

Ernesto Lauer

Fátima Fonseca

Flora Costa

Helena Atalaia

Isabel Alexandre

Isabel Carmo Pedro

Isabel Maria Vasco Costa

João Baptista Teixeira

João Marcelino

José Maria C. da Silva...

José Rogério Licks

Julie Machado

Luís Lynce de Faria

Luísa Loureiro

Manuel Matias

Manuela Figueiredo Martins

Maria Amália Abreu Rocha

Maria Caetano Conceição

Maria de Oliveira Esteves

Maria Guimarães

Maria Helena Guerra Pratas

Maria Helena Paes

Maria Romano

Maria Susana Mexia

Maria Teresa Conceição

Mariano Romeiro

Michele Bonheur

Miguel Ataíde

Notícias

Olavo de Carvalho

Padre Aires Gameiro

Padre Paulo Ricardo

Pedro Vaz Patto

Rita Gonçalves

Rosa Ventura

Rosário Martins

Rosarita dos Santos

Sérgio Alves de Oliveira

Sergio Manzione

Sofia Guedes e Graça Varão

Suzana Maria de Jesus

Vânia Figueiredo

Vera Luza

Verónica Teodósio

Virgínia Magriço

Grupo Progresso de Comunicação | Todos os direitos reservados

Desenvolvido por I9