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Ciranda da Vida – Revolução de 1923

  • Novembro 19, 2023
  • Cultura
  • Ernesto Lauer

 

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate

(Carlos Drummond de Andrade).

 

Por esquinas imaginárias dobrei, para novamente por linha reta seguir; tudo um jogo de palavras, a desafiar o destino da caminhada. A palavra sempre nos desafia; através dela podemos manifestar amor e ódio ao mesmo tempo. Esgrimir por palavras significa aceitar o combate de algum interlocutor ou alhures escrevente. A luta armada começa ante o fracasso do embate das palavras.

Reconheço que um dos maiores expoentes políticos do Rio Grande do Sul, por todo o tempo, foi JÚLIO PRATES DE CASTILHOS. Político positivista, duas vezes presidente (governador) do Estado. Em 14 de julho de 1891 promulgou a chamada Constituição Estadual de Júlio de Castilhos, por sua autoria e influência.

O art.9º assim dispunha: “(…) o exercício da presidência por cinco anos, não podendo ser reeleito para o período seguinte, salvo se merecer o sufrágio de três quartas partes do eleitorado.”

Júlio de Castilhos morreu em 1903, mas possibilitou, com tal dispositivo, que Borges de Medeiros permanecesse como Presidente de 1898 a 1928, com um interregno entre 1908 a 1913, quando elegeu Carlos Barbosa Gonçalves. Mesmo fora do governo, Borges controlava o Partido Republicano Rio Grandense, com mãos de ferro.

Em Montenegro, o PRR monopolizava a política; Todos os Intendentes dessa fase republicana pertenceram ao partido; praticamente não havia lugar para a oposição (poucos montenegrinos ligavam-se às hostes de Assis Brasil). A grande verdade histórica é que Júlio de Castilhos soube construir uma estrutura político-administrativa no Estado. A sua Constituição garantia ao Presidente do Estado a intervenção direta nos municípios, com suporte da Brigada Militar.

Nos Municípios, os candidatos ao cargo de Interventor/ Vice e a nominata para os cargos de Conselheiros Municipais (Câmara vereadores) só eram homologados depois de aprovados pelo Presidente do Estado. Em 1923 o nosso Intendente era Aurélio Porto (1920/1923); antes da eleição ele morava em Porto Alegre e veio a ser candidato por expressa determinação de Borges de Medeiros. Todas as autoridades municipais eram partidárias de Borges.

No meu tempo de guri falavam sobre Borges de Medeiros e Júlio de Castilhos – observem que o nome da nossa melhor escola primária: o Grupo Escolar 14 de Julho, foi assim denominado em homenagem à Constituição Estadual, promulgada em 14.07.1891. Diziam que Borges se perpetuava no poder, por sempre atingir um número de votos equivalente a 3/4 partes do eleitorado.

Os votos para Presidente do Estado eram contados pela Assembleia Estadual, de maioria Borgista, proclamando o resultado, que depois era sacramentado pelo Presidente do Estado. Diziam que no trajeto entre a Assembleia e o Palácio do Governo os votos se acomodavam e sempre refletiam a vitória de Borges de Medeiros.

Na eleição de novembro de 1922, disputada entre Borges de Medeiros e Assis Brasil, o computo dos votos apresentou o seguinte resultado: Borges 106.360 sufrágios e Assis Brasil 32.216 votos. Com este número de votos, Borges atingiu 3/4 partes do total de votos (34.644 x 3= 103.932 mil). Então, sua votação superou o marco legal em mais de 2.400 votos.

Para a eleição, formaram uma aliança entre vários segmentos da sociedade gaúcha, para estimular uma oposição organizada. O ódio guardado da revolução de 1893/1895, entre Ximangos (Borgistas) e Maragatos (Assisistas) ainda permanecia latente. A campanha eleitoral ocorreu em clima de repressão e violência. Opositores ao governo eram presos, espancados e até mortos.

Quando anunciaram o resultado das urnas, com a previsível vitória de Borges de Medeiros, a revolta foi geral. Ocorre que Assis Brasil recebeu expressiva votação na região da campanha e em Porto Alegre, onde a fraude era mais difícil.  A comissão apuradora de votos, formada por pessoas fiéis ao governo, foi acusada de fraude eleitoral pela oposição. A disputa nas urnas transformou-se em disputa pelas armas. A oposição, liderada por Assis Brasil, aderiu à revolta armada para derrubar Borges de Medeiros, que tomou posse para um novo mandato, em 25 de janeiro de 1923. Assim iniciou a revolução.

 

 

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