Clarice Lispector, nascida na República Popular da Ucrânia, em 1920, e falecida no Brasil, no Rio de Janeiro, em 1977, um dia antes de completar 57 anos, foi uma escritora e jornalista ucraniana de origem judaica russa, naturalizada brasileira e radicada em nosso país.
Quanto às suas identidades nacional e regional, declarava-se brasileira e pernambucana. Autora de romances, contos e ensaios, é considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX; sua obra é repleta de cenas cotidianas simples e tramas psicológicas, reputando-se como uma de suas principais características a epifania – ou iluminação – de personagens comuns em momentos do cotidiano.
Estudou Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ingressou precocemente como tradutora, logo se consagrou como escritora, jornalista, filósofa, contista e ensaísta, tornando-se uma das figuras mais influentes da literatura brasileira e do modernismo, e sendo considerada uma das principais influências da nova geração de escritores brasileiros; é incluída pela crítica especializada entre os principais autores brasileiros do século XX.
As principais obras da autora marcam cada período de sua carreira: ‘Perto do Coração Selvagem’ foi seu livro de estreia, publicado quando Clarice tinha 24 anos de idade; ‘Laços de Família’, ‘A Paixão segundo G.H.’, ‘A Hora da Estrela’ e ‘Um Sopro de Vida’ são seus últimos livros publicados.
Deixou dois filhos e uma vasta obra literária composta de romances, novelas, contos, crônicas, literatura infantil e entrevistas. O crítico e professor emérito da Universidade de São Paulo, de 1936 a 2021, Alfredo Bosi, apresenta três características do estilo narrativo de Clarice Lispector: o uso intensivo da metáfora – uma figura de linguagem -, a entrega ao fluxo de consciência e a ruptura com o enredo factual. Mais adiante, esse estilo de escrita estará presente em nosso texto “Amor”.
Como tradutora, sabe-se que Clarice Lispector dominava pelo menos sete idiomas: português, inglês, francês e espanhol, fluentemente; hebraico e iídiche, com alguma fluência, e igualmente em russo, vindo da infância; como intérprete para o português, utilizou somente o inglês, o francês e o espanhol; além de contos e artigos, ela traduziu maios de cinquenta livros de diversos gêneros e escritores.
Quanto às versões do exterior, no total, a obra de Clarice Lispector recebeu mais de duzentas traduções para mais de dez idiomas, sendo mais de cento e setenta e nove integrais de livros e vinte e cinco de contos publicados em periódicos. Seus livros traduzidos em maior número são principalmente romances: ‘A Hora da Estrela’, com vinte e duas traduções, ‘A Paixão segundo G. H.’, também com vinte e duas, ‘Perto do Coração Selvagem’, com dezoito, ‘Laços de Família’, com dezesseis, e ‘Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres’, com quinze versões transladadas. Sua coletânea abarca nove romances, também nove contos, quatro exemplos de literatura infantil, duas crônicas, duas correspondências, muitas entrevista e vários artigos de jornais.
Passamos a nosso conto, ‘Amor’, que é parte do livro ‘Laços de Família’, 1960: “Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher.
O homem com quem casara era homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude parecia-lhe estranha como uma doença de vida.” ‘Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. (…) Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. (…)
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. (…) Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções.
Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. (…) Assim chegaria a noite, com sua tranquila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera. O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher. O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar.
Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego. O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles. (…) O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. (…)
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite — tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca. (…) A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si. (…) Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aleia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pelos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu. (…) Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos.
O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranquila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos. (…) Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo. (…)
Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. (…) Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. (…) De que tinha vergonha? (…) Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água. (…) Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos. (…) Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com seu marido diante do café derramado. — O que foi?! gritou vibrando toda. Ele se assustou com o medo da mulher. (…)
— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela. (…) Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.’ Proponho que leiam na íntegra todo o conto de Clarice Lispector, não é vasto, mas é encantador!