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A ilusão americana

  • Maio 26, 2025
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Progresso Americano, 1872, de John Gast é uma representação alegórica do Destino Manifesto: uma mulher angelical, segurando um livro escolar, leva a civilização para o oeste, com colonos americanos prendendo cabos telegráficos enquanto, por outro lado, povos nativos e animais selvagens são afugentados. (Fonte: Wikipedia)

 

Terminava o ano de 1893 e o livro de Eduardo Prado – cujo nome encima esta crônica,- seria lançado com sucesso instantâneo. Um dia após o lançamento uma autoridade policial confiscou a tiragem. Uma carroça puxada por um burro levou embora os exemplares que ainda estavam na gráfica e os portadores que já tinham a obra correram o risco de serem conduzidos à polícia.

O presidente era Floriano Peixoto, que assumira após a renúncia de Deodoro da Fonseca. Floriano entraria na história como um sujeito autoritário e o episódio tem o dom de lembrar que a liberdade de expressão nem sempre foi respeitada no Brasil, como neste momento, quando as pessoas revelam receio de se posicionar, de serem perseguidas, denunciadas e punidas por conta de suas manifestações.

Notadamente culto, Prado enriquece sua obra com citações preciosas: “Dizia Stendhal que quando se começa a falar muito no princípio de alguma coisa é porque essa coisa já não existe. Fala-se muito hoje no Brasil em princípio de autoridade. É porque já não existe a autoridade, que foi substituída pela opressão”. Fala-se muito nos dias que correm na defesa da democracia. Discurso frequente e aborrecido. Será que se aplica a assertiva de Stendhal?

Em “A ilusão americana” Prado critica, com substancial apoio em documentos e fatos, a ingenuidade de muitos na crença de que os Estados Unidos defenderiam direitos e liberdades nos países americanos, praticando ciosamente os preceitos da Doutrina Monroe, resumida na expressão “América para os americanos”.

Prado enumera ações, planos e omissões da política externa norte-americana em países como Peru, Honduras e Nicarágua que lançam por terra a flâmula de defensores mundo afora da democracia que os Estados Unidos ostentam. Deixaram muitos povos pendurados no pincel. Isto sem falarmos no tal destino manifesto, crença dos norte-americanos de que possuem o divino direito de expandir seu território. Prado, porém, enaltece a liberdade de imprensa naquele país, “imprensa que atravessou mais de um século sem a menor coerção, imprensa que, mesmo durante a tremenda guerra civil, não sofreu grandes peias nem restrições”.

Testemunha de como se deu a derrubada de D.Pedro II e a ascensão da república, menciona que “não é uma simples banalidade a velha proposição do Montesquieu de que as repúblicas precisam ter como fundamento a virtude. Esse foi o fundamento da república norte-americana. Será inviável e uma fonte perene de males qualquer outra república que não tiver o seu berço banhado na atmosfera da virtude cívica. As sociedades políticas e as formas do governo precisam nascer puras para ter a vida longa e próspera. Os organismos políticos são como os organismos animais e vegetais; quanto mais perfeitos nascem e quanto mais robusta é a sua infância, mais garantias apresentam de duração. Nunca se viu uma república nascer disforme para a vida da violência, do crime, da discórdia, da corrupção e do erro para daí se adiantar até a virtude, à paz e à verdade. (…) A podridão é própria dos túmulos e não dos berços”.

Monarquista atuante, naturalmente não contou com as graças da república, cujas mazelas denunciaria por várias formas: “A história demonstra que as repúblicas, uma vez falseadas, nunca se regeneram”.

Havemos de convir que, no estado em que se encontra o Brasil, a serem verdadeiras tais afirmações, jogam um tonel de água gelada em nosso futuro. Segundo amigo já falecido, a solução seria parar o jogo e recomeçá-lo do zero, com novas regras.

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Li “A ilusão americana” num momento particularmente curioso, quando muitos parecem colocar nas mãos da administração Trump desmedidas esperanças de que ela punirá algumas figuras brasileiras, como se estas fossem submetidas a um tribunal internacional ou nossos problemas internos demandassem uma arbitragem.

Imaginar a solução de nossos problemas pela via da terceirização não passa de melancólica demonstração de nosso despreparo. E de que segue viva no Brasil a ilusão americana.

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