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“As Crises e os Homens”

  • Julho 11, 2025
  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Maria Susana Mexia

 

«Em torno de Portugal, e atacando os seus interesses vitais, actuam sempre as mesmas forças estrangeiras e internacionais; estas aparecem sob coberturas ideológicas diversas e consoante as épocas; mas os seus objectivos não se alteram, e são permanentes; as coordenadas que têm delimitado historicamente a nação portuguesa nunca são novas e apresentam idênticas características profundas; e a conjunctura da forças que procuram atingir Portugal ou em que este se apoia é sempre igual na sua essência. (…) nas épocas de grande crise, o escol português, na sua generalidade, tomou historicamente uma posição ideológica e política contrária aos interesses nacionais permanentes e apenas o povo soube ter consciência dos mesmos e defendê-los. Mas não estou a escrever qualquer coisa de novo.

Leio em Artur Ribeiro Lopes: “A falta de personalidade das elites portuguesas constitui um perigo nacional permanente”.

Leio em Vitorino Magalhães Godinho: “O escol, da nossa pátria, tem sido com demasiada frequência ineficaz socialmente, porque vive muitas vezes mais os problemas lá de fora do que os nossos”. (…)

Leio em António José Saraiva: “É confrangedor assistir entre os intelectuais portugueses à falta de confiança nas próprias raízes, ao complexo que os faz humilharem-se perante qualquer mirabolância insignificante vinda lá de fora”. (…)

Em todas as épocas as gerações novas esquecem situações e factos passados, e por isso acreditam que estão em face de épocas inteiramente novas e desprendidas do que lhes está para trás, sem antecedentes e sem raízes; e o seu comportamento traça-se como se as realidades permanentes se houvessem desvanecido e como se os interesses básicos e os objectivos de outros povos se tivessem modificado.

Em todas as épocas houve mitos, e os de hoje são a “civilização nova em marcha”, o “mundo novo em gestação”, a “época da tecnologia”, o “diálogo”, a “conjuntura”, as “estruturas”. Tudo é erigido em conceito sagrado, cuja aceitação denota espírito rasgado, moderno, progressivo e cuja rejeição denuncia espírito retrógrado, conservador, imobilista.

Não se repara, todavia, que estas inovações são meramente vocabulares, e que são lançadas por outros para esconder ou mascarar os seus propósitos reais; e nisto também não é nova nem original a nossa época, porque em todas sempre os homens sofreram, lutaram, e morreram por frases e vocábulos».

(…) “Por motivos talvez misteriosos a percepção instintiva de tudo isto aparece mais clara no povo do que no escol; este sempre teve tendência a encarar o interesse nacional ao sabor dos princípios formulados fora da nação; e é o povo que efectivamente serve e defende aqueles interesses”».

Este livro de Franco Nogueira é um verdadeiro manual para compreender a importância da História como ciência humana e humanística. Sem recurso a estratégias de manipulação dos factos o autor aborda as grandes crises que abalaram e ensombraram a subsistência de Portugal como nação independente.

O presente não é um verso solto ao sabor dos ventos e das estratégias cerzidas por quem ousa querer ser “senhor do mundo”, importa em tempos de crises saber posicionar-se no contexto do enquadramento histórico que nos antecede, define e delineia a evolução futura.

O livro “As Crises e os Homens” de Franco Nogueira explora as crises enfrentadas pela sociedade e o papel dos homens nessas situações. Publicado em 1971, o autor reflete sobre eventos históricos e suas implicações.

 

 

Alberto Franco Nogueira nasceu em 1918, em Vila Franca de Xira. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, foi figura política de relevo durante o Estado Novo, tendo-se notabilizado na carreira diplomática. Em 1946, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, é enviado para o Japão, onde permaneceu até 1950 e onde viria a desempenhar as funções de representante português junto do Alto Comando Aliado que ocupava o arquipélago. No final desse ano, requer autorização para casar com a luso-chinesa Vera Machado Wang, tendo a permissão chegado em julho de 1947 e o matrimónio sido realizado poucos meses depois. Mais tarde, foi cônsul-geral em Londres, onde esteve até 1958. Torna-se ministro dos Negócios Estrangeiros em 1961, cargo que desempenha até 1969.

Em 1963, é distinguido com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo e, em 1966, com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Representou Portugal nas sessões da NATO, na Assembleia-Geral da ONU e no Conselho de Segurança. Visitou oficialmente, entre outros países, o Brasil, os Estados Unidos, a Inglaterra, a Alemanha, a Áustria, a Espanha e a África do Sul. Em 1969, abandonou a pasta ministerial e, até 1973, foi deputado na Assembleia Nacional.

Após o 28 de setembro de 1974, foi preso pelo Copcon e enviado para a prisão de Caxias, tendo sido libertado em 1975. Partiu então para o exílio, em Londres, onde esteve até 1981. Foi nesta cidade que redigiu, entre outros livros, a maior parte da biografia de Oliveira Salazar, publicada em seis volumes. Franco Nogueira regressa a Portugal em 1981, e morre em Lisboa, em 1993.

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