(Blog do Ari Cunha / Correio Braziliense)
O apresentador revelou sua indignação com mais um crime bárbaro e soltou os cachorros: é preciso que as instituições do Estado atuem ou mesmo outras sejam criadas para coibir os atentados à civilização, cada vez mais frequentes no Brasil. O sujeito não usou exatamente estas palavras, mas o sentido foi este: “Alô conselho tutelar, ministério público, braços da justiça e torcida do Corinthians! Precisamos fazer algo. Não dá para continuarmos assim!”.
No passado os apresentadores de telejornais limitavam-se às notícias. Agora manifestam posições pessoais. Como poucos têm autoridade e sabedoria pra isto, o resultado é um pastiche de opiniões caolhas, que em nada contribuem. Sobretudo quando o veículo de comunicação em que trabalham se notabiliza pela notória parcialidade de sua linha editorial. Quando o pau que bateu em Chico não alcança Francisco.
A conversa de criação de novos mecanismos cai no mesmo desvão do discurso por novas leis. Tudo papo furado. Leis demais, instituições demais, pouco eficazes e nada eficientes. O que nos falta é fazer com que funcionem. Já perdemos a esperança de que isto aconteça, neste circo de faz-de-conta. Pelo menos antes que fechemos os olhos.
Aumentar os gastos com instituições notoriamente inúteis é como acrescentar bolas de sorvete para que derretam sob o calor de apetites corporativos, nos deixando sempre com a casquinha na mão. Quando deixam. Verbas públicas pagam tantos pedágios até o seu destino final que na ponta de real interesse o que chega é tão somente fração do que foi aportado na origem.
Em meio aos protestos contra a ineficiência das estruturas existentes – e não são poucas,- reina um silêncio patético sobre a família. Como se já houvéssemos capitulado diante de um Estado a quem tudo cabe. Como se devêssemos entregar tudo ao Estado: da educação de valores à formação espiritual. Claro que tudo sob um agnóstico laicismo, que relega ao nada a formação cristã que nos foi regalada.
A família é a chave. Enquanto a ignorarmos seguiremos na barbárie.
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Volta e meia fico sem a palavra certa para dar o devido relevo ao cristianismo na tarefa de evangelizar, da qual não podemos nos eximir. Semanas atrás a segunda leitura na Missa era a carta de Paulo aos colossenses, submetidos a falsas pregações que negavam a divindade de Cristo.
O apóstolo dos gentios endereçou sua epístola para reforçar a fé naquela comunidade:
“Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. E sede agradecidos. A palavra de Cristo permaneça entre vós em toda a sua riqueza, de sorte que com toda a sabedoria vos possais instruir e exortar mutuamente. Sob a inspiração da graça cantai a Deus de todo o coração salmos, hinos e cânticos espirituais”.
Paulo exorta o tesouro que recebemos e que seguimos desprezando.
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O lema do atual governo é União e Reconstrução. É difícil levá-lo a sério diante de recentes manifestações e fatos registrados desde o início do mandato.
A pregação da cizânia, que caracteriza o atual mandatário, reduz a pó a bandeira União. Em recente discurso, produziu uma pérola da conciliação: “O pobre fala assim ‘eu vou votar no prefeito que é rico porque ele não vai roubar porque já é rico’. Ora, ele só é rico porque já roubou, porra”, “E aí, o pobre fica com preconceito contra o pobre”.
No passado eram comuns as charges encimadas pela expressão “Sem palavras”, porquanto a representação gráfica as tornava simplesmente desnecessárias. Se a política é arte de prometer e tergiversar, cabe aos que raciocinam contrapor-se aos absurdos paridos pelo descaramento. União? Sem palavras.
Quanto à outra bandeira, a publicidade não resiste à mais simples indagação. Reconstrução do quê? De ministérios a rodo, de práticas demagógicas que nos remetem ao passado, do rombo nas contas públicas, da nomeação de apaniguados, no mais das vezes incompetentes, da falta de transparência dos gastos com cartões corporativos, da instituição de sigilos, do aparelhamento de estatais?
Enquanto vivemos dias intranquilos por conta do contencioso com os Estados Unidos, ainda temos de aguentar bravatas que mencionam jabuticabas e se excedem em besteiras acacianas.
Como se sabe, é falsa a afirmação de que a jabuticaba só existe no Brasil. Ainda que imprecisa, valho-me dela para sugerir que a mediocridade deste governo brasileiro é uma jabuticaba.
Como também é uma jabuticaba a falácia de união sem perdão, sem caridade.
E sem exemplo.

