O conviva de uma festa infantil afirmou que tudo decorre de dinheiro, que os homens perseguem como estrela guia. Objetei. Os homens buscam o poder, do qual tudo decorrerá. Afinal, no Eden não havia dinheiro, mas havia o poder. As tribos mais primitivas, nas quais todos sabem produzir quaisquer objetos que sua cultura desenvolveu, também elas têm cacique, ao qual se deve obediência em troca de organização e presumível segurança.
Do cacique aos monarcas parece haver uma linha histórica, ainda que tortuosa. A monarquia constitucional inglesa decorreu da Revolução Gloriosa, por meio da qual a realeza britânica logrou perdurar, poucas décadas depois de Carlos I ter sido decapitado. Com sua cabeça também caíra por terra a autoridade incontestável dos reis. Não teriam mais o salvo conduto da suposta nomeação divina.
Um século depois a revolução francesa cravaria no peito da humanidade o republicanismo ateu. Se Deus já fora removido da representação que sustentava o poder dos soberanos, agora Ele fora defenestrado da vida pública. Chegara o tempo dos Napoleões e seus canhões.
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A idéia que temos de monarcas – ainda que conheçamos um pouco da história dos czares, dos Habsburgos e dos Bourbon,- está óbvia e naturalmente associada à Casa de Bragança, que assumiu o poder na restauração da independência portuguesa, livrando-se do jugo espanhol. D.João VI e Pedro I têm seus feitos gravados em nossa história, mas foi Pedro II, nascido no Brasil, culto, isento de escândalos, longevo, tolerante e modesto, quem melhor nos legou o retrato da monarquia.
A despeito de quase meio século à testa do país, não se pode imputar a ele o apego desmesurado pelo poder. Ao contrário, parece mesmo que o desdenhou nos últimos anos. Seu primeiro filho, Dom Afonso, nomeado Príncipe Imperial do Brasil, morreu em 1847, aos dois anos, em meio a convulsões. Um ano depois nasceria Pedro Afonso, saudado com fogos e tiros. Não completaria dois anos. Restaram Isabel e Leopoldina. Esta, casada com um alemão, mãe de cinco filhos, morreu na Alemanha aos vinte e três anos, vítima de tifo, e está sepultada na cripta da Igreja de Santo Agostinho, em Coburgo.
Isabel sucederia Pedro II. Promulgou a Lei Áurea – pondo tardio termo à escravidão,- atraindo ódios de uns tantos contra ela. Sua condição de mulher, casada com um francês aos dezoito anos, pesaram em seu desfavor. Aos vinte e dois anos ainda não concebera. Prometeu então à Nossa Senhora Aparecida um manto se alcançasse a maternidade. Depois do terceiro filho ofereceu à Virgem Maria uma coroa de ouro com diamantes e a declarou Rainha e Padroeira dos corações brasileiros. Além disto, prometeu que Nossa Senhora ocuparia o trono se ela não o fizesse. Era demais para os iluministas.
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Passado dos sessenta, na soleira dos setenta, devo confessar a enorme frustração pela realidade brasileira e seu visível destino. A mediocridade campeia e a pregação ideológica já vai altissonante, apregoando igualdade e justiça. O conluio entre os poderes e o naufrágio da imprensa condenam nossa democracia à condição de fachada. E pior, tudo leva a crer que os canalhas tantos que ocupam posições de poder não pagarão seus pecados em vida.
O poder exercido em nome do povo e em seu proveito não passa de uma miragem no deserto da sociedade brasileira. Tomo emprestada uma frase de Bertrand de Jouvenel que retrata o que temos vivido: “Mas eis que o Poder assumiu uma face terrível, fazendo o mal com todas as forças a ele confiadas para o bem!”. Ao percebermos a tendência para a completa ausência do bem, parece-nos mesmo navegar nas águas do mal absoluto.
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Órfão de mãe quando tinha um ano, deixado pelo pai no Brasil quando contava cinco anos, D.Pedro II colecionou memórias tristes, calcinadas pelo exílio, que transmudou em versos:
“Perdida é para mim toda a esperança / De volver ao Brasil; / de lá me veio Um pugillo de terra: e nesta creio / Brando será meu sono e sem tardança … / Qual o infante a dormir em peito amigo, Tristes sombras varrendo da memória, / Ó doce Patria, sonharei contigo! E entre visões de paz, de luz, de glória, / Sereno aguardarei no meu jazigo / A justiça de Deus na voz da história!”. (Terra do Brasil / Sonetos do Exílio)
