Igreja de São Miguel (Munique)
O toque da natureza opera maravilhas em nossa memória. Dias atrás, depois de um período de muito calor e estiagem, choveu. Saí de casa sem guarda-chuva e disse à minha esposa que o faria para homenagear um casal de iranianos que temos em alta estima. Nos levaram até o Mar Cáspio e uma bomba d´água caiu enquanto tomávamos chá em um estabelecimento. Naquela terra seca a chuva é motivo de festa. De mãos dadas se expuseram à chuva intensa com genuína alegria.
Ontem senti o cheiro de goiabas caídas no gramado. Voltei seis décadas e sentei na mesa do café da tarde de meus avós maternos, na qual jamais faltava a geléia de goiaba. Pequeno, moedas à mão, minha vó pedia que buscasse pão quente na padaria do Seu Conca. Depois, à mesa, abusava da manteigueira e a maculava com geléia. Meus avós toleravam. Mimavam os netos. Ela providenciava, todas as tardes, com a ajuda da empregada Sueli, canudinhos com creme. O avô acarinhava minha orelha e certa feita me convidou para morar com ele. Disse que seus filhos eram adultos e confessou a saudade de um gurizinho à sua volta. Meus pais não deixaram.
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Se muitos filósofos têm dificuldade em transmitir seu conhecimento, seja porque os temas são espinhosos, seja porque não são bons comunicadores, este não era o caso do polonês Leszek Kolakowski. Sua escrita é profunda sem ser maçante e parte de sua obra já foi traduzida para o português. Lendo “Pequenas palestras sobre grandes temas” tropeço no texto “Sobre a igualdade”:
“A partir do fato de que somos iguais dentro desse conceito, é certo que a desigualdade em relação ao direito seja realmente contrária à dignidade humana. Não resulta, contudo, que devamos também exigir a igualdade no sentido de divisão igualitária dos bens. A igualdade assim compreendida, na divisão dos bens, foi obviamente muitas vezes pregada – primeiro por vária seitas na Idade Média, em seguida pela esquerda jacobina durante a Revolução Francesa, no século XIX, e depois por alguns grupos do movimento socialista. A razão é bastante simples: uma vez que as pessoas são iguais, cada uma merece a mesma quantidade de bens na terra. Entretanto, em algumas variantes do igualitarismo, dizia-se que a igualdade é o valor maior, e que, portanto, deve-se buscá-la mesmo quando, como consequência da implantação da igualdade, as coisas pioram para as pessoas, inclusive para as mais pobres. Não importa que os mais pobres se tornem ainda mais pobres, desde que ninguém seja mais rico que o outro. Mas esse não é um bom raciocínio. Nessa ideologia, não importa absolutamente que as pessoas vivam melhor, mas somente que ninguém viva melhor que o outro; portanto, não é uma ideologia inspirada pela justiça, mas pela inveja. Existe uma anedota russa em que Deus diz a um agricultor: “Você terá tudo o que quiser, mas saiba que tudo aquilo que pedir e conseguir o seu vizinho terá em dobro. O que você quer?”. O homem responde: “Senhor Deus, tire-me um olho”. Aí está o verdadeiro igualitarismo.”
Comunista na juventude, tido como promissor e brilhante, Kolakowski foi premiado com uma viagem a Moscou, onde conheceu de perto o stalinismo. Voltou desencantado. Anos depois acabaria expulso do partido e perseguido em sua atividade como professor na Universidade de Varsóvia.
A esquerda, mais perdida “que cusco em procissão” em seus lemas históricos, agarrou-se como tábua de salvação no discurso de tolerância e proteção de minorias. Mais parece um vale-tudo, pouco importando se o resultado será a destruição moral de um país. Tudo, ou quase tudo, pode ser entendido num sentido ou no seu oposto. Em certos momentos o blá-blá-blá de tolerância me faz lembrar que no passado os estabelecimentos de prostituição também eram conhecidos como “casas de tolerância”.
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Recomendo que assistam “Caro Francis” (https://www.youtube.com/watch?v=RiAsIMFosJI), com inúmeros depoimentos sobre o jornalista, que se tornou um personagem televisivo e foi implacável com a burrice.
O documentário é interessante e bem humorado. Um dos pontos altos é o depoimento de Gustavo Krause, que foi chamado por Francis de nordestino caipira quando assumiu funções ministeriais. Instigado a reagir, respondeu que não o faria. Era admirador de Francis que, segundo ele, não dissera nada demais. Krause afirma que pessoas como Francis, Nelson Rodrigues e Stanislaw Ponte Preta fazem falta, porque eram pensadores que não pensavam pela vulgata marxista, eram contrapontos. E foi além: precisamos de homens politicamente incorretos.
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O tema é pouco divulgado entre nós, cidadãos que não prestam a devida reverência à celestial condição de homens livres. Se há algo que me desassossega é o tumor do cerceamento de opinião, que é vendido como proteção para a sociedade, como defesa do estado de direito. Não há nada pior que criminalizar a opinião, forçando trouxas e trouxos a sopitar o que pensam, cuja revelação não causaria mal algum.
As ditaduras, forçosamente intolerantes, atropelam a liberdade religiosa. A Bíblia, por exemplo, sofre fortes restrições em inúmeros países, como Coreia do Norte, Afeganistão, Paquistão, Eritreia, Iêmen, Irã, Arábia Saudita, Maldivas, China, Vietnã, Uzbequistão e Turcomenistão. (https://www.rtmbrasil.org.br/blogs/noticias-rtm/2021/09/levantamento-traz-22-paises-onde-a-biblia-e-proibida). Também integram a lista Turquia, Catar, Tajiquistão, Cazaquistão, Butão e Omã.
Pois também a Nicarágua juntou-se a esta plêiade, a Nicarágua de Ortega, o réprobo ditador tratado como camarada pela esquerda, mantido no poder por meio sobremaneira contestável (https://brasil.elpais.com/internacional/2021-11-08/daniel-ortega-consuma-sua-farsa-eleitoral-na-nicaragua.html).
Como dormir com tamanha intolerância?
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Dias atrás um sacerdote foi denunciado no Ceará porque afirmou na missa que “homem é homem e mulher é mulher”. A acusação é de que sua fala foi transfóbica e abertamente contrária à ideologia de gênero. De chofre, pelas palavras, não pude deixar de lembrar do livro “Um homem é um homem”, de Brecht, e da expressão “O Homem é o Homem e as suas circunstâncias”, de Ortega e Gasset.
Pelo andar da carruagem deste tempo, acho que o padre está em apuros e por isto evoco mais uma vez Kolakowski:
“Temos o direito de insistir em nossas convicções. Um exemplo: nos países civilizados, a prática homossexual não é ilegal (quando, é claro, se trata de pessoas adultas e quando não há violência). A Igreja a considera moralmente errada e proibida, baseando-se no Velho e no Novo Testamento, na própria tradição e na própria interpretação teológica da sexualidade. De fato, caso a Igreja quisesse voltar à proibição legal do homossexualismo, poderia ser acusada de total intolerância. Mas as organizações de homossexuais pedem que a Igreja cancele os ensinamentos sobre homossexualidade, o que é, também, uma grande demonstração de intolerância. Na Inglaterra houve incidentes de demonstrações e ataques contra igrejas em referência a esse assunto. Então, quem é intolerante?”.
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Encerro com a lembrança de uma decisão judicial que condenou o arcebispo Dom Dadeus Grings a pagar um valor elevado a título indenizatório. Tudo começou quando um sacerdote da diocese de Dom Dadeus recusou-se a oficiar o matrimônio de um cidadão porque entendeu que sua situação era irregular sob o Direito Canônico.
Abriu-se um processo judicial, que culminou na condenação do arcebispo. Os que tiverem algum interesse neste assunto podem acessar o link https://www.conjur.com.br/2004-set-21/arcebispo_porto_alegre_reascende_briga_judiciario/.
Do alto de minha ignorância no terreno das leis, tenho uma só dúvida: em que medida o Estado pode determinar algo que só diz respeito à Igreja e seu ordenamento?