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Vara de medir

  • Março 14, 2026
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Escrevo no sábado, antecedendo em horas a premiação “Academy Award of Merit”, popularizada como Oscar. Pensava que o nome popular fosse um acrônimo. Algo como Official Scene Cinema Artistic Reward. Nada disto. A explicação para o nome é candidata ao Top Five do prosaico. A mais corrente é a de que uma funcionária teria olhado para a estatueta da premiação e afirmado que tinha a cara de seu tio, o Oscar. Virou meme e chegou aos nossos dias. Havemos de convir: se non é vero, é ben trovato.

Seja lá como for, uma premiação por mérito, num plano acima do inferno, deveria contemplar o que podemos denominar de melhor, de mais belo, de mais tocante.

Ainda que não tenha qualidades de crítico, procurei assistir os candidatos ao prêmio anual. Tanto por admirar a arte quanto para auscultar, na condição de amador, o coração artístico do mundo, ou pelo menos do lado ocidental. O cinema, como a música e a literatura, retrata o seu tempo, esboça o que anda a ser disseminado pela elite ou pelos protegidos dela ou, quem sabe, pelos poucos que comandam o mundo por trás da cena. Esta última possibilidade não é de todo desprezível quando se percebe que em quase tudo há menções ou mesmo protagonismo de pautas polêmicas, que no estilo devagar-se-vai-ao-longe são disseminadas pelos poderosos veículos audiovisuais.

Tirando desenho animado, assisti todos os candidatos deste ano. Muita mediocridade, como Pecadores, F1 e Uma batalha após a outra. Também incluo a forçação de barra intitulada O Agente Secreto, filme arrastado, chato, com passagens de muito mau gosto, mas aclamado com entusiasmo pelos discípulos, ainda que nem suspeitem disto, da Escola de Frankfurt.

Vivemos um tempo próximo do ápice da Hegemonia Cultural, a forma ideológica sutil de dominação da sociedade, sobretudo pela educação, com o reforço indormido das mídias, inoculando valores para construção do que poderíamos chamar de senso comum.

O outro afluente, caudaloso, da Hegemonia Cultural é a Teoria Crítica, este conglomerado de idéias que bombardeia tudo, vai reduzindo culturas a escombros com o objetivo bem dissimulado de oxigenar o marxismo. Adorno, Horkheimer, Fromm, Reich, Marcuse e Gramsci estão muito vivos. E de mãos dadas.

O Agente Secreto é um grão de areia nesta desconstrução que leva nossa frágil embarcação para a queda, no abismo de uma cachoeira ideológica. Certamente o sucesso deste viés em nossa sociedade tem a cumplicidade, por omissão, de uma direita medíocre, incapaz de contestar versões frágeis. Ou a direita promoveu algum filme que denunciasse a influência de Moscou e de Cuba em partidos políticos e movimentos ditos revolucionários no Brasil? Sei que é difícil perseguir o equilíbrio, mas quando só um lado grita, o outro implicitamente consente.

Receio que caminhamos a passos largos para um regime que lembrará, apesar da caótica esculhambação que somos, a piada que encontrei no texto “Sobre o riso”, de Kolakowski:

“Um membro do partido, que está sendo criticado por algo que fez, explica-se: ‘Sim, companheiros, eu tenho muitas opiniões, mas absolutamente não concordo com elas!’ “.

Num país em que chamar alguém de feio, de bobo, ou recusar-se a admitir uma clara falsidade bizarra pode gerar um processo e colocar um infeliz na cadeia, o alarme está piscando. Perseguir jornalistas – se liguem enquanto é tempo!,- é já sinal de alarme gritando.

Cânon tem origem no grego antigo e designava uma vara utilizada em medição. No tempo atual evoca um conjunto de regras e normas. Quando a produção cultural apresenta-se degradada, seu cânon deixa de ser vara para assemelhar-se a um palito.

Quanto ao Oscar(ito) 2026, se “Valor sentimental” não for o grande premiado o evento da Academy Awards terá o mesmo valor do Nobel da Paz concedido a Obama, no início de seu mandato.

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Ontem abasteci o carro num posto de combustível. A frentista disse mal entender o movimento acima da média no estabelecimento. Repliquei que o preço do litro estava convidativo neste momento em que os postos majoraram os valores a pretexto da guerra EUA-Israel-Irã e da ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz.

Ela então lembrou da corrida aos mercados no pavor insuflado pelo coronavírus: “As pessoas compravam até o que não precisavam e faltou até papel higiênico!”. É vero.

Lembrei então de uma conhecida que, quando estourou a primeira guerra contra o Iraque e as imagens de mísseis riscando a noite de Bagdá percorriam o mundo, assustada pela previsão de que teríamos falta de gás, adquiriu seis botijões … O último deve ter acabado há não muito.

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Recebi pela rede um link extraordinário (https://www.youtube.com/watch?v=dDTuQ3ACizw). Uma menina de três anos, acompanhada por orquestra, executa ao piano a Valsa número 2 de Shostakovich.

De cabeça não lembrava, mas a obra faz parte da trilha do ótimo “De olhos bem fechados”, do genial Kubrick, que morreu pouco depois do lançamento do filme. Há quem arrisque que foi eliminado pelo que seu filme sugere, mais ou menos como a morte de Mozart poderia ter ligações com sua ópera “Don Giovanni”. Suspeitas deste tipo são areia movediça e quem quiser a verdade terá de esperar pelo Céu. Se lá chegar.

A menina toca sem partitura, por óbvio, o que aumenta a perplexidade, que entretanto seria ainda maior se fosse capaz, aos três anos, de ler uma partitura …

Como explicar este fenômeno? Há quem recorra a vidas passadas. Do baixo de minha burrice prefiro denominar isto apenas como um dom divino, que Baby Joelle talvez sequer transforme em algo maior na vida adulta, como Mozart o fez.

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