Skip to content

Acabou o tempo

  • Março 30, 2026
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

 

Enquanto aguardava no balcão de um fornecedor em Caxias do Sul a vendedora comentava que o mês de abril terá vários feriados. Disse a ela que dias parados são ruins para as empresas, porquanto os salários não diminuem de forma concomitante. Prontamente replicou: Seu João, o tempo da escravidão acabou!

Por uma fração de segundo tentei identificar um elo entre feriados, horas trabalhadas e escravidão, mas logo desisti. Sua reação me lembrou a pregação do sindicalismo mais tacanho e rancoroso. Facilmente resisti à tentação de contestar e apenas desejei a ela que num dia não muito distante tenha sua própria empresa, para experimentar outra visão ou sacramentar a que sustenta hoje.

————– x ————–

São massivas as imagens da destruição causada pela guerra entre o Irã e a dupla Israel-EUA. Há vídeos falsos, mas predominam os reais. Quanta crueldade, quanto desperdício de vidas e de recursos. Num tempo em que tanto se fala em proteger a natureza, semeia-se morte e ruínas. Talvez seja apenas a versão mais violenta da hipocrisia do século XXI, a mesma que proclama  a proteção da natureza, mas defende atos antinaturais e nítidas perversões contra ela.

Tenho escutado um pouco de tudo e colimado opiniões alheias sobre  eventuais erros cristalizados no Oriente Médio. O primeiro erro teria sido a própria criação do Estado de Israel. Segundo alguns, trata-se de uma decisão teocrática, mal disfarçada por um regime democrático. Os que pensam assim apoiam-se, segundo eles, na falta de unanimidade entre os próprios judeus, haja vista que alguns rabinos teriam sido contrários à criação.

O segundo grande erro teria sido a recusa do outro lado de aceitar a divisão territorial planejada pela ONU. Sucessivas guerras apenas resultaram na ampliação do território de Israel.

Por fim, há os que acreditam que o grande erro foi ameaçar Israel de extinção, permitindo antever que a região jamais terá paz. Que pena!

Diante das abundantes imagens, que implicam a morte de inocentes, seja com mísseis ou drones, misturando tecnologia e guerra assimétrica, confesso que chego a desacreditar da humanidade.

————– x ————–

Com seus quatro meses, Cacau, filhote de pastor alemão, corre em minha direção e me “abraça” … Seria encantador se não estivesse encharcada. No dia anterior sopitou sua desabalada exatamente numa poça d´água à minha frente, gerando copiosos respingos. Como reclamar? Como não reconhecer tal deferência?

————– x ————–

Antes de abordar o tema, registre-se que escravidão e racismo são abominações que clamam aos céus, ainda que em alguma época o tráfico não fosse ilegal. Só este ponto já serviria para uma boa conversa: o que é legal pode ser profundamente imoral.

Feitas as ressalvas, vamos aos fatos.

Dias atrás li que a Assembléia Geral da ONU aprovou resolução segundo a qual o tráfico de africanos escravizados foi o mais grave crime da história contra a humanidade. Além disto a resolução sugere que os países emitam pedido de desculpas e contribuam para um fundo para reparação. Houve inúmeras e distintas manifestações. O representante norte-americano disse que seu país não reconhece “um direito legal a reparações por injustiças históricas que não eram ilegais sob o direito internacional no momento em que ocorreram”.

Isto dá muito pano pra manga e não porei minha colher neste angu. Apenas contextualizo a escolha do título de mais grave crime num campeonato com fortíssimos competidores. Será que o aborto legalizado, esta morte monstruosa de vulneráveis, que a ONU defende, poderia tomar o cinturão?

Ou poder-se-ia propor a candidatura do Holocausto ou dos genocídios stalinista, maoísta e polpotista? Sem citar os crimes da Segunda Guerra Mundial, o genocídio dos Tutsis em Ruanda ou o genocídio armênio. Vale lembrar, aliás, que os conflitos étnicos na República Democrática do Congo seguem vivos. Como se vê, não é nada difícil elencar uma dúzia de candidatos ao topo da desumanidade demencial.

Quanto às reparações, o tema é de alta complexidade. Seja porque a criação de um fundo como o sugerido pela resolução da ONU terá de enfrentar a corrupção sistêmica da África, seja porque conflitos tribais alimentavam o tráfico.

Referindo-se ao caso brasileiro, encontrei o texto abaixo na rede mundial:

“Os escravos eram vendidos aos portugueses principalmente por elites, chefes locais e reis africanos. Esses líderes guerreiros aprisionavam membros de tribos inimigas ou prisioneiros de guerra e os trocavam no litoral por produtos europeus, como armas, tecidos e álcool. O comércio era estruturado e negociado por reinos como o Congo”.

Por estas e outras penso que é preciso olhar para a frente, pacificando o passado e trabalhando para um futuro sem guerras, por mais utópico que isto seja.

————– x ————–

Perdemos recentemente um colega com menos de setenta anos. Participativo na rede social, sua morte fulminante a todos surpreendeu. E nos privou de sua inteligência, de suas opiniões frequentemente originais, não raro polêmicas. Era seu estilo: longe do morno. Sorte dele, porque não será vomitado, segundo advertência do Apocalipse.

Ao lastimarmos sua morte, as reações são as mais diversas, mas todas traem um ponto comum: estamos na fila de desembarque … Como paraquedistas no primeiro e último salto para a eternidade. Quem sabe um ou outro indague “Serei o próximo?”.

Não há o que temer se tivermos um pingo da fé de São Francisco, que tratava a morte como irmã.

Há quem se apresse, a título de consolação, e arrisque a imagem do colega junto a Deus e até mesmo a interceder por nós.

Tanto quanto sei, era católico. Podemos, portanto, lançar mão do Catecismo da Igreja (1022):

“Ao morrer, cada homem recebe na sua alma imortal a retribuição eterna, num juízo particular que põe a sua vida em referência a Cristo, quer através duma purificação (611), quer para entrar imediatamente na felicidade do céu (612), quer para se condenar imediatamente para sempre (613). «Ao entardecer desta vida, examinar-te-ão no amor» (614)”.

Porque conhecemos seu caráter, podemos acreditar que seu juízo particular foi bom.

————– x ————–

Ao entrarmos na Semana Santa, a caminho do  maior evento da história humana, sob a promessa da Ressurreição, sem menoscabo dos sofrimentos tantos de todos os tempos, individuais ou coletivos, é tempo de lembrar que a maior escravidão é a do pecado.

Feliz Páscoa!

Categorias

  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Cultura
  • História
  • Política
  • Religião
  • Social

Colunistas

A.Manuel dos Santos

Abigail Vilanova

Adilson Constâncio

Adriano Fiaschi

Afonso Licks

Agostinho dos Santos

Alexandra Sousa Duarte

Alexandre Esteves

Ana Esteves

Ana Maria Figueiredo

Ana Tápia

Artur Pereira dos Santos

Augusto Licks

Cecília Rezende

Cláudia Neves

Conceição Amaral de Castro Ramos

Conceição Castro Ramos

Conceição Gigante

Cristina Berrucho

Cristina Viana

Editoria

Editoria GPC

Emanuel do Carmo Oliveira

Enrique Villanueva

Ernesto Lauer

Fátima Fonseca

Flora Costa

Helena Atalaia

Isabel Alexandre

Isabel Carmo Pedro

Isabel Maria Vasco Costa

João Baptista Teixeira

João Marcelino

José Maria C. da Silva...

José Rogério Licks

Julie Machado

Luís Lynce de Faria

Luísa Loureiro

Manuel Matias

Manuela Figueiredo Martins

Maria Amália Abreu Rocha

Maria Caetano Conceição

Maria de Oliveira Esteves

Maria Guimarães

Maria Helena Guerra Pratas

Maria Helena Paes

Maria Romano

Maria Susana Mexia

Maria Teresa Conceição

Mariano Romeiro

Michele Bonheur

Miguel Ataíde

Notícias

Olavo de Carvalho

Padre Aires Gameiro

Padre Paulo Ricardo

Pedro Vaz Patto

Rita Gonçalves

Rosa Ventura

Rosário Martins

Rosarita dos Santos

Sérgio Alves de Oliveira

Sergio Manzione

Sofia Guedes e Graça Varão

Suzana Maria de Jesus

Vânia Figueiredo

Vera Luza

Verónica Teodósio

Virgínia Magriço

Grupo Progresso de Comunicação | Todos os direitos reservados

Desenvolvido por I9