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Memórias imorais

  • Abril 21, 2026
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

 

Quase cinco décadas atrás caminhava para me graduar engenheiro. Residia na Casa do Estudante, muito perto dos prédios nos quais assistia as aulas. Estudava dia e noite, entremeando as horas com o carteado e alguma literatura.

Almoçava no centro acadêmico ou no restaurante universitário. Rezava a lenda que o ecônomo do centro aprumara sua vida num golpe da sorte. Dissipava seus parcos recursos no páreo. Viciado, caminhava para o desastre. Num belo dia ganhou uma bolada nas patas de um cavalo e tomou a dura decisão de afastar-se do vício. Montaria o modesto serviço de refeições, que comandava com mau humor.

Dia sim, dia não, comia arroz, ovo e um bife. Este era fino, para mascarar sua dureza. Nada que a juventude não encare com bom humor, com o combustível inexaurível da esperança.

Foi neste centro acadêmico que assisti “O encouraçado Potemkin”, mudo, dramatizado, melodramático, debochado com a religião ortodoxa, tedioso, caricato e escuro. Aos olhos de hoje, um porre. Muitas imagens com braços erguidos, punhos cerrados e protestos violentos. Nítida propaganda revolucionária, foi lançado em 1925, quando a resistência à revolução já havia sido derrotada pelos vermelhos. Lênin desaparecera pouco antes e Stalin assumira a posição de secretário geral do partido.

Vivíamos os últimos anos da década de setenta e a esquerda, que sempre buscou a hegemonia e o controle dos centros acadêmicos, sobretudo de universidades federais, garimpava líderes e títeres. Porque, aos vinte anos, filmes como este eram a cunha para conquistar corações e mentes. Segue sendo assim.

Sergei Eiseinstein, diretor do filme, nascido na Letônia, formou-se em Moscou. Depois andou pela Europa, México e Estados Unidos. Em Paris a apresentação do Potemkin na Sorbonne foi proibida porquanto considerada propaganda soviética. Eisenstein estava no auditório – com gente saindo pelo ladrão,- e daria uma palestra antes da exibição. Falou durante algum tempo, mas o filme não foi exibido. A polícia estava pronta para agir, os presentes estavam indignados e a confusão poderia ter sido ainda maior. Por conta deste episódio as autoridades francesas defenderam a imediata expulsão do diretor.

 

 

Em 1946 ele sofreu um ataque cardíaco: “Pela primeira vez em toda a minha vida eu me vi de repente obrigado a fazer uma pausa, confinado a uma cama”. Diante dos meses necessários para sua recuperação motivou-se a escrever notas autobiográficas, que denominou “Memórias imorais”: “Ao mesmo tempo devo decepcionar aqueles que esperam vê-las recheadas de episódios imorais, detalhes sugestivos ou descrições obscenas. Não se trata disso de modo algum”.

O texto é um testemunho eloquente da cultura de Eisenstein – um apaixonado por livros,- e uma boa descrição de seu tempo. Travou contato com autores, diretores e atores como Chaplin, Meyerhold, que idolatrava, Pirandello, James Joyce, Bernard Shaw, Einstein, Walt Disney, Greta Garbo e outros tantos de extensa lista.

Recolhi algumas passagens originais. Uma delas refere-se a Chaplin, um improvisador de primeira ordem:

“Entre centenas de variações um artista de gênio não consegue deixar de encontrar muitas que são geniais (e é entre essas que opera suas escolhas, sentado em sua famosa cadeirinha forrada com tecido impermeável, na sala de projeção!). E, se tais variações não são suficientes, ele filma ainda mais. E, se não se sente inspirado para filmar, toma seu iate e sai pela vastidão do oceano Pacífico afora. Retorna ao filme, à câmera, aos locais de filmagem e a seus colegas de trabalho, que o aguardam sem o menor questionamento, quando o impulso interior mais uma vez o leva de volta ao estúdio …”.

Em outra passagem Eisenstein defende que os museus deveriam ser visitados à noite, sem a vulgarização das banais e repetitivas explicações dos guias profissionais. Também menciona algo que eu desconhecia: o roubo da Mona Lisa, em 1911, recuperada em 1913. Seria roubada e recuperada ainda uma vez antes de finalmente ser bem protegida.

Quanto à filmografia de Eisenstein, ainda que entenda tanto de cinema quanto da genealogia do abominável homem das neves, se Potemkin é aborrecido, o mesmo já não posso dizer do ótimo “Ivan, o terrível”, a despeito de ter sido encomendado por Stalin. As sombras de Ivan nas paredes são um achado de Eisenstein, que lidou com enormes limitações nas filmagens, transcorridas em Alma-Ata, no Cazaquistão, durante a segunda guerra.

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Assistir Potemkin naquela época era como colocar uma insígnia no peito, um galardão intelectual para os imaturos de plantão. Um suposto privilégio em tempos não muito livres, que reforçava a arrogante autoimagem dos esquerdistas: são superiores, lúcidos e generosos.

Em sua autobiografia Eisenstein menciona Laputa, um dos países das “Viagens de Gulliver”. Segundo uma nota de rodapé, Swift descreve Laputa como “o lugar dos tolos, não dos sábios, embora seus habitantes assim se considerem”.

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No mesmo centro acadêmico assisti a palestra de um cidadão que um dia viria a ser, segundo muitos, um medíocre senador. A mim pouco importa. Se não foi brilhante na política, na música deixou Vento Negro como legado.

Naquela oportunidade Fogaça contou que ele e outros líderes estudantis foram convocados pelo comandante de então do III Exército.

Reunidos, o general Breno Borges Fortes perguntou “Afinal, o que é que vocês querem?”. Para surpresa de todos, creio que até do militar, nenhum deles foi capaz de responder. A imaturidade produz frutos travosos.

Nesta quadra da história em que o povo brasileiro parece mais perdido que cachorro que caiu da mudança, a escutar discursos louvaminheiros de apoio à demagógica tirania, de sustentação de uma ideologia fracassada, fico a pensar que muitos dos pretensos intelectuais e militantes que andam por aí não passam de laputianos.

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