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Não foi por acaso

  • Maio 3, 2026
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Monumento na Praça General Osório em Livramento (RS)

 

Havia algum tempo que pensávamos em voltar à fronteira e a hora chegou. Preferimos a rota pelo coração do estado. Passamos por Santa Cruz, Vera Cruz, Santa Maria e Rosário do Sul até chegarmos em Santana do Livramento. Todas estas cidades têm denominação religiosa, o que por si só denota nossas origens e expõe nossas raízes espirituais.

Visitamos a bela catedral de Santa Maria, com afrescos do grande Aldo Locatelli. Antes conversara com um taxista. Antigamente se dizia chauffeur de praça. Me disse que a cidade, a despeito de possuir uma grande universidade, só piora. Porque não tem indústrias, que agregariam valor, e só comércio e serviços não descortinam um grande futuro.

Desde pequeno escutava que Santa Maria era um poderoso centro ferroviário. O senhor então me disse que resta uma só linha, cuja utilização é modesta, aumentando apenas em tempo de safra. Passageiros? Nem pensar. Para arrematar, relatou que parte do que restava das linhas férreas foi levado pela última enxurrada. A decadência, retrato de nosso atraso, é sempre triste.

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Triste também o quadro uruguaio. Povo que segue gentil, mas nitidamente empobrecido. O que esperar de um país cuja presidência foi ocupada por Pepe Mujica? Homem de coração humilde, mas ideológico e simplório.

Estive na recepção do hotel Uruguay Brasil, em Rivera, onde me hospedei com meus pais há mais de cinquenta anos. Tinha um ótimo restaurante, no qual meu pai deleitou-se com bons vinhos. Minha mãe divertiu-se comprando algumas roupas e mantas, aquelas tradicionais, xadrezadas. Filhos gostam de ver os pais contentes, situação que nosotros, os três filhos, não vivemos com saudável frequência. Em tempo: o restaurante fechou por conta da pandemia. Nunca saberemos o quão exageradas foram as medidas, mas sabemos que causaram enormes prejuízos e que a diferença entre remédio e veneno pode ser a dose.

Lembro que visitei dois pontos em Santana do Livramento com meu pai, ele sempre curioso pelas coisas da cultura. Primeiro uma praça com um busto de José Hernandez, autor do poema Martin Fierro, que viveu nesta cidade por algum tempo na condição de exilado. Voltando ao passado, evoco Hernandez: “Pido a los Santos del Cielo que ayuden mi pensamiento, me refresquen la memoria, y aclaren mi entendimento”.

Depois estivemos no que restou da vila de operários do Frigorífico Armour, onde seus padrinhos residiram. Avesso a fotos, naquele dia me pediu que o registrasse com pouco mais que ruínas às costas, sem que pudesse identificar onde ficava exatamente a casa em que se hospedara. Apenas os plátanos lhe davam alguma certeza. Foi como um preito ao passado.

Visitara a terra distante, acompanhando seu pai, por pelo menos duas vezes. Vinham de trem. Me contou que, pequeno, encantara-se com uma menina, de nome Márcia, se a memória não me trai, coisa que ora vive a tentar.

Em outra oportunidade, mal chegados em Livramento, meu avô recebeu um telegrama emitido pelo Dr.Amaury Lampert, que o orientava a retornar com urgência a Montenegro porquanto falira um comerciante do qual Jeronymo Teixeira era fiador. Traído pelo amigo em que tanto confiara, quase perdeu os poucos bens que conquistara. Foram anos de sacrifício, aos quais aquela família respondeu com laboriosidade.

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Antes de deixarmos Santana do Livramento revisitei a praça General Osório. O busto deste herói da pátria não tem uma inscrição sequer, o que já se constitui num absurdo.

Meu intento maior era fotografar o busto de José Hernandez. Perguntei a três idosos, que mateavam num banco da praça, onde se encontrava a escultura. Um deles respondeu que a peça, em bronze, doada pela Argentina, fora roubada.

Diante de minha expressão de surpresa e indignação, o cidadão disse que jamais seremos um país de primeiro mundo.

Este Brasil dos parceiros de Mujica anda pra lá de decepcionante. É pateticamente vergonhoso. Os sul americanos são vítimas de péssimos governantes, que se alternam entre incompetentes e ladrões. Ou ambos.

Evoquemos a conclusão de “El gaucho Martin Fierro”:

“Mas ponha sua esperança no Deus que o formou; e aqui me despeço eu, que referi assim ao meu modo males que todos conhecem mas que ninguém contou”.

Tudo isto não pode ser nosso epitáfio. Ainda mantenho esperanças para os pósteros. Afinal, já conhecemos nossos males.

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Antes de encerrar nosso giro pernoitamos em Bagé. Na manhã seguinte visitamos o Museu Dom Diogo de Souza, com bom acervo, a começar pela sala dedicada a Santa Tecla. A santa empresta seu nome à rua de entrada da cidade  e confesso que nunca ouvira falar dela.

Nascida na atual Turquia, decidiu-se pela castidade e dedicação a Deus depois de escutar Paulo. Sua história é edificante (https://www.instagram.com/reels/DO9X3o7ERft/).

Episódios de combates e do cerco de Bagé na revolução de 93 são ilustrados com preciosa documentação. A última sala que visitamos contempla o filho mais famoso da história recente de  Bagé, Emílio Garrastazu Médici, que ocupou a presidência do país.

Algumas bancadas apresentam honrarias recebidas por Médici em sua vida pública, numa quadra sabidamente difícil do Brasil. Interno no Colégio Militar de Porto Alegre, num fim de tarde, perto do portão principal, escutei o toque de corneta que indica a presença de um general. A poucos metros estava ele, de perfil. Os presentes batemos todos continência. Nunca esqueci daquele momento. Meses após ele comporia a junta militar que substituiu Costa e Silva, para tempo depois assumir o cargo máximo da nação.

Avesso ao revisionismo deletério – que denuncia maus feitos sem honestidade intelectual, vociferando contra a supressão de liberdades sem admitir o terrorismo que a ensejou,- imagino sempre que é preciso unir a nação. Não para colocar pedras sobre a história, mas tampouco para permitir que sejam usadas para lapidar figuras históricas.

Na última bancada envidraçada daquela sala dedicada a Médici detectei um estranho no ninho: o livro “Brasil: nunca mais”. Por óbvio não contesto a existência da obra, mas a impropriedade de sua presença ao lado de honrarias me pareceu mais que um cochilo, senão um ataque à figura ali homenageada. Fiz a observação a uma das senhoras que recebe os visitantes e ela me garantiu que levaria o caso à curadoria do museu. Oxalá o tenha feito.

Antes de deixarmos Bagé visitamos a Catedral de São Sebastião, que foi palco de refregas revolucionárias e teve sua fachada crivada de balas. Então uma surpresa: à direita encontra-se o túmulo de Gaspar Silveira Martins, filho de Aceguá, falecido no exílio em Montevidéu (https://cidadebage.blogspot.com/2011/08/historia-dos-restos-mortais-de-gaspar.html).

A gesta federalista deu-se em 1893 e a paz foi celebrada em Pelotas, em 1895. O coração de Silveira Martins parou em 1901. Monarquista, fiel à sua máxima “Idéias não são metais que se fundem” e temido pelo governo brasileiro, articulou contra este até o fim.

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