Embora já percorremos mais de metade do mês de Maio, mês que a Santa Igreja dedica à Virgem Maria, resolvi fazer um pequeno texto sobre o culto e devoção a Nossa Senhora.
Segundo São Tomás de Aquino, na “Suma contra os Gentios”, o culto cristão é definido como “o ato ou atos pelos quais expressamos o reconhecimento de nossa dependência de Deus e pelos quais elevamos nossas mentes a Deus”.
O culto a Deus começa e termina nEle, enquanto o culto a uma criatura, mesmo a Virgem Maria, não termina com ela, mas a eleva a Deus. Tudo é feito para a glória de Deus; Ele é o fim de cada ato. Assim, as duas formas de culto são essencialmente distintas: o culto a Deus é um ato de adoração, e o culto a uma criatura é um ato de veneração. No entanto, dentro desta última categoria, a veneração de Maria é muito superior e, portanto, tem seu próprio nome: hiperdulia.
Nas Escrituras, especificamente em Lucas, isso é explicitado na maneira como o anjo se dirige a Maria, exclamando: ” Avé, Cheia de Graça!”. Maria permanece impassível diante da presença do anjo, o que nos leva a concluir que, embora a extensão total de sua excelência ainda não fosse perceptível aos olhos humanos, ela já era uma realidade. Maria se comove profundamente com o que lhe é dito, pois, a excelência de Deus também se reflete na sua compreensão das palavras proferidas. É por isso que, mais tarde, ouvimos aquele maravilhoso louvor a Deus no Magnificat; em sua humildade, ela se comoveu com a grande graça que Deus lhe concedeu.
Mais tarde, durante o ministério público de Jesus, uma mulher do povo, ao compreender a grandeza de Jesus, reconheceu a excelência de Aquela que o trouxe ao mundo e daqueles que o criaram.
Como tudo, a veneração de Maria evoluiu ao longo do tempo. Nos primeiros três séculos, a veneração de Maria estava fundamentalmente integrada no culto de seu Filho.
A oração mais antiga conhecida à Virgem Maria é o “Sub tuum præsidium”, que data do final do século III ou início do século IV.
Fontes confiáveis relatam a venerada menção de Maria na Oração Eucarística datada de 225 d.C. e nas festas da Encarnação, Natividade, Epifania, etc. Ele também honrou sua Mãe.
Na Idade Média, no Oriente, a devoção se concentrava na Maternidade Divina de Maria, celebrando sua Imaculada Conceição e Assunção, embora ambos os dogmas tenham surgido muito mais tarde.
São Bernardo de Claraval, por meio de seus escritos, influenciou o auge da veneração e do culto à Virgem Maria.Com sua oração “Lembrai – vos”, São Bernardo enfatiza o papel de Maria como mediadora entre Deus e a humanidade.
No final do século XI, surgiu o hino “Salve Regina”, inicialmente difundido pelos cistercienses e posteriormente pelos dominicanos.
No Concílio Vaticano II, a constituição dogmática Lumen Gentium abordou amplamente a missão de Maria na obra da salvação, refletindo sobre sua relação com a Igreja e sobre a veneração da Virgem Maria, conferindo-lhe uma devoção especial e permanente. Essa devoção se expressa por meio da veneração, do amor, da invocação e da imitação da Mãe de Deus, mas seu único propósito é um conhecimento e um amor mais profundos por Deus.
O Concílio Vaticano II, juntamente com as diretrizes da “Exortação Apostólica Marialis Cultus”, serviu de base para a publicação deste Missal da Virgem Maria, aprovado em 15 de agosto de 1986.
Na Lumen Gentium, podemos reunir os argumentos em favor da excelência na veneração da Santíssima Virgem: A Virgem merece veneração especial “porque ela é a Santíssima Mãe de Deus”. A dignidade de sua maternidade divina e toda a procissão de graças que a acompanham elevam a Virgem a um grau excepcional de excelência “porque ela participou dos mistérios de Cristo”. Ao se unir em solidariedade à missão redentora, Maria adquiriu dignidade excepcional;
“porque ela foi adornada pela graça de Deus, à semelhança de seu Filho, acima de todos os anjos e de todos os homens”. Maria merece ser objecto de uma devoção única porque é Rainha do Reino escatológico conquistado por Cristo Rei.
O mesmo concílio oferece as seguintes diretrizes para a devoção mariana:
Adaptar a doutrina e a devoção mariana às fontes do pensamento cristão. Em outras palavras, a doutrina concernente a Maria deve estar fundamentada na Sagrada Escritura e nos ensinamentos dos Padres da Igreja;
Integrá-la à Eclesiologia e à História da Salvação. Ao examinar os documentos conciliares, a doutrina mariana situa-se num quadro dinâmico da História da Redenção,
Inserir Maria no movimento missionário e litúrgico da Igreja. Maria é um modelo para “todos aqueles que colaboram na missão apostólica da Igreja para gerar vida nova para a humanidade” (Lumen Gentium, n. 65). Além disso, as devoções marianas devem ser organizadas de modo a conformarem-se à sagrada liturgia entre o povo, dela derivarem e a conduzirem;
Assegurar que a devoção mariana promova o progresso do movimento ecuménico. No que diz respeito às práticas devocionais marianas, o Concílio Vaticano II, na Constituição Lumen Gentium, define a verdadeira devoção a Maria, afirmando que:
“Sua origem reside na fé, na adesão ao ensinamento revelado sobre a Mãe de Deus;
Seu propósito principal é reconhecer a excelência da Virgem;
Seu propósito secundário é aumentar o amor por Maria e imitar suas virtudes.
Há três elementos que devem constituir esta devoção:
Reconhecimento da excelência de Maria;
Amor filial, porque este conhecimento conduz naturalmente ao amor, pois “a fé opera pela caridade”;
Imitação de suas virtudes.”
Entre as orações marianas, duas se destacam: o Angelus, que recorda o momento marcante da Anunciação e o “Sim” de Maria, uma resposta sempre repetida, mesmo nos momentos mais dolorosos, como aos pés da Cruz, onde a excelência de Maria em relação a todas as criaturas se torna evidente; e o Santo Rosário, que a Virgem Maria frequentemente nos pede para rezar pela paz e conversão dos pecadores. Esta oração demonstra claramente a íntima relação de Maria com seu Filho, à medida que acompanhamos a vida dEle através dela. Lúcia responde àqueles que acreditam ser incorreto rezar o Rosário diante do Santíssimo Sacramento por diminuir o papel central de Nosso Senhor Jesus Cristo, afirmando que a Ave Maria é uma oração profundamente eucarística porque nos lembra que Maria foi o primeiro tabernáculo na Terra. Em última análise, é uma oração comunitária e bíblica centrada no mistério de Cristo.
Aproveitemos bem este resto do mês de Maio para aumentar o nosso amor à nossa Mãe que nos levará ao seu Divino Filho.

