Por conta da proximidade da família de meu pai com o meio jornalístico, me formei engenheiro mas sempre arrastei uma asa para as letras. Morando em São Paulo decidi entrevistar pessoas nacionalmente conhecidas para publicação em O Progresso.
Comecei por Orlando Villas Boas e acertei na escolha. Munido de um daqueles gravadores de repórter da época, chucro na lida, a espontaneidade do indigenista foi a ajuda de que necessitava. Como vento de través e constante para um navegador em sua primeira travessia.
Satisfeito pelo resultado, decidi tentar Luiz Carlos Prestes. Lera “Cavaleiro da Esperança” e avaliei que o tempo se esgotava para o líder comunista. Como contactá-lo? Não havia muito concluíra a leitura de “Olga”, de Fernando Morais. Procurei o escritor, à época deputado estadual paulista. Conversei com ele em seu gabinete na Assembléia Legislativa. Muito atencioso, simples e cordial, me forneceu o endereço de Prestes no Rio de Janeiro. Dispondo de poucos recursos, fiz a tentativa por carta. Nenhuma resposta. Tentei uma segunda vez, com o mesmo resultado. Menos mal. Algum tempo depois assisti um embate entre Prestes e Roberto Campos, promovido pela Cultura de São Paulo. Campos era brilhante, coisa que à época mal admitia, mas foi o suficiente para que perdesse o interesse pelo líder da Coluna que celebrizou seu nome. Como admirar um admirador de Stálin?
Dias atrás Fernando Morais voltou à minha mesa através da biografia de Casimiro Montenegro, o militar que sonhou e liderou a criação do Centro Tecnológico da Aeronáutica e do ITA, duas instituições de ponta que prepararam excelentes engenheiros e colocaram o Brasil no caminho da vanguarda.
Mas desde o início as coisas foram muito difíceis, num país que até hoje se contenta em andar a reboque do mundo. O primeiro corpo docente foi constituído por muitos estrangeiros. Um deles, Richard Smith, “o homem do MIT”, proferiu uma palestra em 1945 intitulada “Brasil, futura potência aérea”. Profético, afirmou que o “Brasil não deve adquirir aviões lá fora. Mesmo que estes lhes sejam oferecidos de graça”. A Embraer é o testemunho grandioso do que podemos ser se cortarmos as amarras que nos mantêm no cais da mediocridade.
Como não praticamos políticas de estado, tudo sempre depende do poder de plantão, o que é historicamente agravado pela pobreza de recursos destinados ao desenvolvimento tecnológico.
Fernando Morais, de cuja pena também lera “Chatô”, prestou um grande serviço ao biografar Montenegro, um dos grandes brasileiros que merecem ser enaltecidos. Meses atrás Morais, inegavelmente identificado com a esquerda política, lançou o segundo volume da biografia do atual presidente do país. Peço vênia a este bom biógrafo, mas esta sua obra não habitará minha biblioteca.
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Nunca podemos imaginar que os dias correrão sob céu de brigadeiro. Há dias nos quais basta colocar os pés fora da cama para sermos surpreendidos. Ou abrir a porta de casa para descobrir que seus cachorros andaram às voltas com um ouriço, que os agraciou com dezenas de espinhos. Toca buscar um alicate e munir-se de paciência para convencer os cães de que podemos aliviá-los. Com o perdão do trocadilho, trata-se de tarefa espinhosa, cujo resultado depende sobretudo da confiança do animal.
Esbarrar em ouriços, sequer sonhando em atacá-los, é já um infortúnio. Sua defesa é ditada pela natureza e nada podemos fazer contra seus milhares de espinhos. Espero que os cachorros tenham aprendido que se trata de uma refrega de resultado sempre negativo. Se esquecerem, pagarão o preço. O mesmo vale na política, onde há pedras e ouriços no caminho.
Que nas eleições que se aproximam a maioria escolha homens capazes de nos arrancar da areia movediça da mediocridade.
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Na lista de possíveis entrevistados havia três filósofos. Pondé acedeu ao convite e cativou minha admiração. Os outros dois, também famosos, deitam falação país afora e, mercê de sua oratória, faturam muito. Um de seus truques é não propor solução alguma pra coisa nenhuma. Bombardeiam suas platéias com um misto de cultura e brincadeiras que, ao fim e ao cabo, deixam muito mais dúvidas que pobres certezas, deixam quase nada. Mais ou menos como fazem os falsários das profecias todo início de ano. Oráculos do caos, da indefinição e da inutilidade, como prever que um artista famoso morrerá …
Fiz contato com ambos. Me encaminharam para seus respectivos assessores. Como se tratava de entrevistas sem remuneração, a resposta era curta e grossa: os famosos não tinham agenda até a véspera do Apocalipse.
A vaidade é um vício pernicioso.
Bem diferentes destes dois faladores, cito dois dos maiores brasileiros do nosso tempo, Amyr Klink e Torben Grael, que prontamente se dispuseram. Nos fará bem depurar os medalhões que dominam o horizonte, atribuindo a eles o devido prestígio, que entretanto fica bem aquém do que imaginam merecer.
