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A natureza humana

  • Maio 31, 2026
  • Política

 

Leão XIV publicou a sua primeira encíclica, ainda só disponível em 8 línguas no «site» do Vaticano, embora mais traduções estejam em curso.

As primeiras palavras da versão latina, «magnifica humanitas», remetem para uma das ideias mais fortes do texto: a grandeza da natureza humana é um dom de Deus que precede tudo o mais. A primeira linha é «A magnífica humanidade criada por Deus…». A tal ponto Deus é importante, que, sem Ele, a vida humana é incompreensível. O número 22 da «Gaudium et spes» do Concílio Vaticano II é citado duas vezes:

— «O mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente».

E a citação do número 24 da «Gaudium et spes» aprofunda o conceito:

— «O ser humano é chamado à comunhão com Deus e “não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo”».

O fio condutor que inspira os comentários da encíclica relativos a diversas circunstâncias da vida pessoal e comunitária é esta visão da natureza humana, entendida como dom e como vocação à comunhão com Deus com os outros.

A defesa muito firme dos direitos humanos radica no desígnio sublime de Deus em relação a nós. A natureza humana é grandiosa por vontade de Deus. Por exemplo, introduzindo a exposição dos direitos humanos, Leão XIV escreve:

— «No centro da visão cristã do ser humano está a grande afirmação segundo a qual o homem e a mulher são criados à imagem e semelhança do Deus trinitário (cf. Gn 1, 26-27). Cada pessoa, constitutivamente feita para a relação, é pensada e desejada por Deus para entrar numa história de comunhão com Ele, com os outros e com a criação».

Nada pode destruir a grandeza desta relação fundacional, nem sequer os nossos próprios pecados:

— «A dignidade [do ser humano] não depende das capacidades que possui, das riquezas ou da função que desempenha, de escolhas certas ou erradas, mas é um dom que a precede e a ultrapassa, concedido por Deus como expressão do seu amor que nunca falha».

Em consequência desta dignidade infinita (o Papa explica, citando João Paulo II, por que é que ela é infinita), «os direitos humanos são invioláveis, por serem “inerentes à pessoa humana e à sua dignidade”. Por conseguinte, são universais e inalienáveis. (…) Entre estes, o primeiro direito humano é o direito à vida, desde a concepção ao seu fim natural, sem o qual é impossível exercer qualquer outro direito. Quando este direito fundamental é negado, como acontece no aborto provocado, no assassinato de inocentes e na eutanásia, deparamo-nos com escolhas que a Igreja considera gravemente ilícitas».

As instituições públicas, nomeadamente internacionais, são exigências da dignidade humana. Escreve o Papa: «A história não se apresenta apenas como o catálogo das nossas violências, mas como a prova de que o ser humano é capaz de criar instituições capazes de proteger a vida em comum. Vemos isso (…) na Cruz Vermelha, (…) na Organização das Nações Unidas, na Declaração Universal dos Direitos Humanos (…)».

É significativa a referência à escravatura: «(…) não podemos negar ou minimizar o atraso com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo da escravatura. (…) Trata-se duma ferida na memória cristã, à qual não podemos ficar alheios. É impossível não sentir profunda dor, ao considerar o enorme sofrimento e humilhação que a escravatura significou para tantas pessoas, em contraste com a sua ilimitada dignidade, amada infinitamente pelo Senhor. Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão».

É impossível espelhar aqui a delicadeza e convicção com que Leão XIV fala do respeito pela liberdade e pela consciência das pessoas, da força com que condena as manipulações e a mentira, as guerras e outras violências, a sua insistência no destino universal dos bens, o seu apelo à cooperação.

Esta encíclica não se lê rapidamente, não tanto por ser extensa, mas por ser profunda e merecer ser lida com atenção, sublinhando-a e tirando apontamentos.

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