Criamos galinhas, que nos regalam com ovos extraordinários. Não damos ração e o resultado fica estampado nas gemas: alaranjadas, com consistência cremosa. Liberam seus ovos por todo lado, até mesmo nos nichos existentes no galinheiro. Sentimos falta dos netos, que moram longe, para encontrar estas preciosidades no vasto terreno.
Vez por outra encontro um ovo com a casca ligeiramente danificada, não porque alguma galinha o tenha bicado, mas como indício de que tenha sofrido algum choque enquanto a casca ainda se encontrava frágil. O fato me remete à lenda do ovo de Colombo.
O pioneiro navegador, cujos feitos haviam sido menosprezados por alguns circunstantes, foi desafiado a colocar um ovo cozido em pé. Cozido, ou não, é tarefa impossível e todos falharam, até que Cristóvão Colombo o batesse na mesa para achatar sua base. Contestado por conta da simplicidade da solução, do truque, rebateu as críticas afirmando que tudo parece fácil depois que alguém mostra o caminho.
Há controvérsias a respeito da história, tanto de sua autoria quanto do tempo em que foi gerada. Pura perda de tempo. Afinal, se lendas fossem devassáveis, deixariam de ser lendas, dissipando sua névoa protetora e a poesia das grandes mensagens.
Colombo poderia ter ido além. Se o ovo estava cozido, bastaria remover integralmente sua casca e novamente o colocaria na vertical. Aprendi o motivo com um expert em chocadeiras, nas quais os ovos são dispostos com a “ponta” para baixo. Por quê? Porque os ovos têm uma película interna, presente na extremidade maior, propiciando uma câmara de ar. Ao nascer, o pinto rompe a película, respira e quebra a casca.
Quando escutei isto, tão logo recoloquei o queixo no lugar, mentalmente me pus de joelhos diante da perfeição da Criação. E lastimei a cegueira dos tantos que atribuem tais maravilhas ao desenvolvimento sem propósito, ao capricho de absurda loteria, sem o toque da divindade.
O esplendor de um só ovo deveria romper a casca que aprisiona os ateus.
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Dias atrás meu fiel escudeiro me enganou. Ao abrir o portão lateral que separa nossa casa do terreno onde se encontra o galinheiro, ele insinuou-se para capturar uma das galinhas que estavam na proximidade. Tentou uma, que escapou. Indiferente aos meus gritos, enveredou para outra e teve sucesso. Começava a remover as penas quando, em seu encalço, levei um tombo cinematográfico, daqueles de dublê. A aterrissagem foi tal que raspei o rosto no gramado.
Duplamente enfurecido, o alcancei e ordenei que soltasse a pobre galinha. Nada. Então tive a infeliz idéia de tentar abrir sua boca. Impossível. A cerrou ainda mais e matou sua vítima. Erguer as patas de trás do animal pode interromper uma briga, mas não era este o caso.
Certa feita escutei que tapar as narinas de um cão faz com que abra a boca. É provável, mas naquela hora, emburrecido pela premência, não lembrei da recomendação e vi, em brevíssimos segundos, a pobre galinha cerrar os olhos e deixar despencar sua cabeça.
Não adestrado, mas no geral muito obediente, nosso cachorro, surdo aos reclamos vociferados, escutou seu instinto. Levei alguns dias para perdoá-lo.
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Estou a concluir a autobiografia de Ingrid Betancourt. Páginas de crueldade contra a dignidade humana, pouco conhecidas entre nós. Lamentável, porque desnudam as FARCs, revelam suas práticas e denunciam os maus tratos que aqueles comunistas impunham aos sequestrados.
Num momento de desespero, Ingrid disse a um guerrilheiro que eles praticavam um crime contra a humanidade. “A noção de crime contra a humanidade é uma noção burguesa” foi a resposta.
Maldito comunismo!
