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Sofrimento mental e ondas sociais patologizantes

  • Julho 14, 2026
  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Padre Aires Gameiro

Fala-se mais de saúde mental e de estados de espírito em que a saúde parece estar ausente. Esta falta não provoca sempre os mesmos efeitos. Alguns são efeitos de imaginação, de fantasias e sonhos acordados ou mesmo criações de ansiedade doentia.

Os sintomas mais frequentes de problemas de saúde mental, e mais preocupantes e aflitivos, são estados e sofrimentos de ansiedade e depressão que afetam muita gente. A ansiedade associa-se a frustração e conflitos mentais e sociais de traumas e erros pessoais não solucionados. As frustrações e insatisfações persistentes dão sinal perante obstáculos duradoiros difíceis de ultrapassar. Podem ser obstáculos factuais ou gerados por obsessões de mentes ativas imersas em medos pegajosos que se agarram a pessoas que se debatem no vazio e inundam a mente de dificuldades, indecisões, e repetições dos mesmos pensamentos. São labirintos de pensares em que se misturam lembranças de questões antigas, mal resolvidas e sem arrumação clara que se misturam com os emaranhados recentes que vêm à lembrança com aspetos confusos, hesitações, erros e enganos.

Entram a cada passo no vaivêm das nuvens de coisas a resolver. E as ondas de ideias e pormenores dessas questões tornam-se nevoeiro confuso. E se a pessoa acordou e quer adormecer, tudo o que vagueou na sua mente mistura-se de novo com outras lembranças numa espécie de sonho acordado e sonho real em que alguns fragmentos anteriores se misturam como obsessão e contornos de pesadelo. Torna-se difícil avaliar se esse sonho é repousante. Se este nevoeiro ansioso acontece já pela madrugada depois de horas de sono, interromper essas obsessões e passar a uma ocupação real, ouvir as notícias na rádio ou outra atividade, pode ajudar a repousar um pouco. De contrário, pode recomeçar a nuvem caótica obsessiva de contornos alucinados e deliroides.

Conversas ou verbalizações com terapeutas e outras pessoas atentas sobre essas ansiedades, podem ajudar a encontrar-se e a lidar com esse stresse. A conversa escutada por alguém com empatia tem a vantagem de desligar a pessoa da obsessão e chamá-la ao real. Isso não significa que o próprio não possa fazer alguma coisa por si mesmo. A calma, a reflexão e o escrever os pontos da experiência ansiosa podem ajudar.

Passar a uma ação concreta, pôr por escrito as respostas a perguntas a fazer a si mesmo: afinal qual é a coisa pior que me pode acontecer? Que posso fazer para que não aconteça? Se não, posso pedir ajuda? Se descobre que anda a querer o impossível, pode começar por aí. Está convencido que só resolve o seu problema se outra pessoa envolvida na sua ansiedade lhe fizer a vontade e essa pessoa não quiser, o problema torna-se insolúvel e a ansiedade irá continuar a afligi-lo. Se a ansiedade é de um deslize um erro que cometeu, um roubo a outra pessoa e a pessoa exigir restituição, será difícil encontrar a paz. A ansiedade e o medo não irão desaparecer sem fazer alguma coisa.

Alguns jovens de ambos os sexos vivem na ansiedade de “não conseguirem encontrar-se”, como dizia um adulto, e tentam sair da ansiedade de não sentirem pertencer a um grupo social. Para sair da ansiedade e stresse, uns procuram seguir os guiões sociais do momento. E, com ansiedade, agarrar-se a alguma onda social ideológica: “generismo” (tema de ambiguidades),  e identificação com animais (therianismo-teriantropia), incluindo alguns comportamentos de imitação (onda a emergir no presente).

Os antropólogos estudam há séculos estes mitos, lendas e crendices de falsas pertenças; e os psicopatologistas também, mas hesitam entre o uso dos termos da mitologia, do teatralismo (histriónico), psicopatologia, disforia e despersonalização psicótica. É de esperar que sejam ondas sociais de jogo e diversão, que vêm e vão, e passem com ajudas diversificadas.

Os modelos de vida equilibrada da família, escolas, grupos sociais e religiosos, podem ser de grande ajuda em oposição aos estímulos de contágio mimético das redes sociais. Em qualquer caso, o respeito das pessoas e a empatia perante o sofrimento e saúde abalada são ponto assente. E Jesus oferece alivio aos sofredores e ansiosos: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei» (cf. Mt.11,28).

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