Quem vai a férias e viaja por países distantes terá algumas surpresas. As saídas de férias, e peregrinações oferecem expectativas e experiências diferentes do viver dos povos. Cenas mais comuns do que se pode encontrar constituem camadas históricas de passados distantes (a Turquia é um exemplo) e cenários sociais e familiares do presente. Não convém perder as oportunidades. Nas minhas viagens por diversos países vivi algumas surpresas mais fortes.
Na Bolívia, por exemplo, impressiona a estatura baixa das pessoas, e as mães com criança às costas amarrada com manta e outra criança pela mão. Na visita ao mercado de Cochabamba foi ver sacos de folhas de coca à venda livremente, e, no aeroporto de La Paz, caixinhas destas folhas para os visitantes levarem de lembrança. Em Cuscos (Perú) quase me impuseram um (chá) de coca para a falta de ar à altitude de 3.400 metros.
Na Índia recordo o choque de pequenas multidões em bulício pela uma da noite à beira da estrada do aeroporto de Santa Cruz (sic em português) para a cidade de Bombaim com pequenas fogueiras aqui e ali, a cozinhar. Que faziam? Responderam-me: passam a noite, é a sua casa. Não têm outra. E no dia seguinte, ao almoço, numa comunidade religiosa o choque de surpresa de um sacerdote, ao meu lado, muito naturalmente, a comer do prato com as mãos. Gesto semelhante já me surpreendeu menos, mais tarde, no Sri-Lanka. Ainda em Nova Delhi, Índia, por quase um dia, com táxi à minha disposição, tive a surpresa agradável de me pedirem o que em Lisboa seria um serviço de meia hora. E também não é todos os dias que numa cidade do triângulo dourado, em tempo livre para compras, na cidade de Jaipur, a surpresa na visita casual à “Igreja das Almas” encontro um grupo de Alcoólicos Anónimos reunido que logo nas saudações me convidam a falar e a ficar com eles na reunião.
Na África do Sul era o tempo do Apartheid, as surpresas sucederam-se: carruagens de comboio para brancos e para não brancos, restaurantes para brancos (mas servido por não brancos), bancos de jardim…,autocarros… Ridículo, mas levado a sério. Na missa da catedral católica de Joanesburgo não vi esses avisos.
No Vietnam, em passagem pelo meio dos arrozais a caminho do Delta Mekong, lá estavam um túmulo aqui, outro além, ao passo que em Chuncheon na Coreia do Sul o cemitério espalhava-se pela colina e o meu acompanhante indicou alguns familiares a deixarem pratos de comida para os seus familiares na sua vida no Além.
Na visita ao Vale dos Reis, no Egito, semeado de mausoléus de faraós, onde foi descoberto o de Tutankhamon, o guia explicava os hieróglifos da passagem do defunto para o Além da sua nova vida e o exame judicial estrito a que era sujeito: se tinha feito isto e aquilo que facilitasse a passagem ou a impedisse; e até se tinha poluído o Rio Nilo.
Surpresas, de certo modo horripilantes, são a que vivi na Península do Iucatã, México, sujeita a secas prolongadas que levavam o Mayas a suplicar aos deuses que fizessem chover, oferecendo-lhes sacrifícios humanos. O guia pintava a cena de forma surpreendente e cruel. Eram dezenas, centenas de reféns de guerra ou outros forçados a subir às pirâmides e ali serem sacrificados por decapitação e as cabeças rolarem pelos muitos degraus abaixo.
Passemos a outras surpresas mais agradáveis. Ainda na Índia, fica-se surpreendido com a saudação que nos dirigem: mãos erguidas, inclinação e dizer namasté (o sagrado em mim saúda o sagrado em ti). Para os católicos a impressão é ainda mais bem-vinda por se assemelhar ao gesto de dar a paz.
Outra surpresa espantosa, no Japão, foi a de ouvir o meu guia em Nagasaki: aqui ninguém rouba nada. Pode deixar o carro ou o táxi aberto, com dinheiro e joias, lá dentro ninguém rouba. Procuram o dono para entregar tudo. Nas férias, cá dentro, também se ouvia: dê-me a sua bênção, Deus te abençoe.
Atualmente é raro, mas em Timor ainda impressiona ouvir: sua bênção ou algo parecido e beijar as mãos do recém-chegado.
Fico por aqui. Convém ir a férias preparado para observações, surpresas de gestos de amizade, paz, agrado e gratidão pelos encontros e com mais calma que é habitual em tempo de trabalho.