Havia meses não vínhamos ao litoral. Gosto de dormir com a janela aberta, no verão, escutando o marulho, ou apenas com o vidro nas noites mais frias para que a luz da manhã invada minha vida e a convide a uma nova aurora.
Capotamos cedo. Acordei por volta das seis da manhã, ainda escuro. Dei de mão num livro e já saí entreverado entre a poeira do tempo e a fumaça da imaginação, parafraseando Jayme Caetano Braun. A quietude da manhã foi puro deleite e avancei em “Santa Joana D´Arc”, de V.Sackville-West. O pano de fundo é a Guerra dos Cem Anos, encerrada em 1453.
O conflito começou por conta da reivindicação de Eduardo III, rei da Inglaterra, à coroa da França. Os ingleses a invadiram e suas rápidas vitórias marcaram o início do conflito. Apenas em 1429 a sorte passaria a favorecer a França, com a ajuda de Joana D´Arc.
Vale lembrar que naquele tempo a nobreza, além de possuir riqueza e poder, deveria demonstrar bravura no campo de batalha. Vivia do trabalho dos camponeses, mas lhes devia lealdade e tinha a obrigação de protegê-los. O simples emprego massivo de buchas humanas de canhão não era o modelo de então. Reis morriam em combates, como foi o caso de D.Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos.
D.Sebastião levara consigo o escudo e a espada do primeiro monarca, D.Afonso Henriques. Seu corpo nunca foi encontrado, o que gerou a expectativa de que retornaria, conhecida como Sebastianismo. Sua morte gerou uma profunda crise sucessória, que resultou no domínio espanhol por longos sessenta anos.
Retornemos porém à França, invadida pelos ingleses, cuja padroeira viria a ser muito depois a humilde camponesa que libertaria seu país. Muito, entretanto, muito antes de Rouen, onde Joana DÁrc será martirizada, pulo da cama e deixo a leitura pra trás.
Tomo um café generoso e ganho a praia para uma longa caminhada. Venta muito e a areia fina, que pinica as canelas, me remete à lâmina d´água, da qual não me afasto por quilômetros. O mar está recuado, quase sem ondas. Tem marolas, tal a ventania, que gaivotas, biguás, piru-pirus e outras aves vencem com visível dificuldade.
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Aquela caminhada contra o vento, cabeça inclinada, buscando proteção para os olhos na aba do boné, me pareceu uma metáfora do tempo que vivemos. Tempo de apreensões, quando o sujeito pode duvidar até da existência de Deus, mas será condenado se duvidar das instituições.
Se o ceticismo exagerado é até sinônimo de burrice, condenar a livre contestação é poderosa máquina de acovardado emburrecimento. Se pensadores e filósofos se notabilizam por formular perguntas e buscar suas respostas, impor a um povo o silêncio diante de absurdos é o rastilho de uma ditadura. Mesmo que nas aparências tudo pareça funcionar. Só porque votamos.
Como avançar com dezenas de partidos? Como respeitar legendas de aluguel? Como engolir o faustoso fundo partidário? Como tolerar partidos que deveriam ter sido extintos por conta de escândalos? Como admitir siglas que defendem a extinção da propriedade privada, direito fundamental previsto no Artigo 5º, inciso XXII, da Constituição Federal?
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Em meio à escassez de bons políticos, o entusiasmo popular pelo pleito é nenhum, ainda que entre os que vivem da política a fervura mal tenha começado. É tempo de garantir benesses. Já há quem pense que a democracia, como a imaginava a patuléia, é página virada.
Salvo exceções, há muito votamos nos menos ruins. Ou no mal menor, como pregou Santo Tomás de Aquino. Este Doutor da Igreja partiu da idéia de que o mal não é uma coisa real, mas a ausência de um bem. Assim, quando nos deparamos com escolhas que, todas elas, causarão prejuízo, deve-se optar por aquela que implicará no menor dano. Portanto não há como votar nos que já se provaram rematados canalhas. A menos que sejamos estúpidos.
Será que somos?