… à tua prudência uma pitada de loucura” recomendou o poeta Horácio, segundo citação que encontrei em “O último tenente”, título do livro-depoimento de Juracy Magalhães a J.A.Gueiros que me foi presenteado por generoso colega dos bancos ginasiais.
A obra é uma aula de história do Brasil do século XX, sobretudo de sua primeira metade, e traz à luz fatos e personalidades sepultadas na curta memória brasileira. Militar e político, Juracy tinha cultura muito acima da média de seus pares, tanto na caserna quanto na vida política. O livro tem do inicio ao fim muita informação e sobretudo lealdade à provocação que uma entrevistadora lhe dirigira em 1981:
“Por favor, não me ofereça uma história muito bem-arrumada. Todo homem político como o senhor, que viveu acontecimentos relevantes, os chamados fatos históricos, tem um discurso pronto, tanto sobre sua vida profissional como sobre sua vida pessoal. O papel do jornalista, entrevistador ou pesquisador é, neste caso, o de tentar, de alguma forma, desorganizar essa memória para que aflorem outras lembranças que não fazem parte do todo estruturado”.
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Comparar homens e épocas é uma aventura perigosa, com o risco sempre à espreita de uma eventual identificação com personagens, que pode ser mitigado por sólido conhecimento e fidelidade aos fatos. Ainda assim, com alguma prudência, vale o risco.
Assinalei alguns trechos notáveis do depoimento do nonagenário Juracy. Começo pela mudança entre o estopim ambulante e a maturidade. Caluniado por um ex-correligionário, perdera uma eleição para o governo bahiano que tinha como favas contadas. Quando morreu o caluniador, ele foi convidado a comparecer no enterro, mas respondeu com a acidez dos verdes anos:
– Compadre, deixa o fulano ganhar o inferno sozinho!
Decorridas décadas, Juracy declarou rezar todo dia “o credo, as ave-marias, os padre-nossos que a Igreja recomenda. Rezo pelas almas dos amigos mortos. Vejo-me como um pecador interessado em receber o perdão na hora certa. Não sou místico mas respeito o mistério da fé ..”.
Confessa que seguiu a carreira militar não como vocação, “mas como uma maneira de instruir-me sem onerar meus pais. Mais tarde, descobri o gosto pelos livros, o que me levou a desvendar horizontes mais amplos na vida civil”.
Fez parte da turma de 1926 da escola do Realengo e revela que, a despeito da camaradagem entre os cadetes, havia entre eles comunistas, integralistas, liberais, trotskistas e anarquistas.
Refere-se ao tenentismo como um movimento que se propôs a “combater a injustiça e ao mesmo tempo confrontar as altas patentes do Exército que vinham sustentando” a opressão. Segundo ele o Exército, à época, suportava regimes corruptos:
“O verdadeiro estadista ama sua pátria, ama sua família, ama seu povo, ama sua História. E faz grandes coisas. Mas, em baixo nível, a política não passa de um Kama Sutra, concebido por um Mallanaga Vâtsyâyana qualquer, um manual de posições de prazer que, apesar de bem engendrado, é obsceno do começo ao fim”.
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Iniciado na política por Oswaldo Aranha, acedeu ao convite deste para visitar o Rio Grande do Sul. Foi recebido por Flores da Cunha e Aranha o obrigou a discursar onde quer que fosse:
– Por que você fazia isto, Oswaldo?
– É que no Sul pensava-se que todo tenente fosse burro. Quis mostrar aos amigos que tu eras uma águia.
– E seus amigos gostaram mesmo dos meus discursos?
– Sim. Gostaram tanto que logo vieram me perguntar se tinham sido escritos por mim.
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Juracy apresenta Oswaldo Aranha como um estadista preparado, leal, corajoso:
“Revendo hoje meus conceitos, penso que Oswaldo teria sido o nome ideal para substituir Getúlio no poder. Muitos de nós, tenentes, nos penitenciaríamos mais tarde por não havermos pensado nessa hipótese no momento adequado”.
Um dia Oswaldo Aranha lhe faria um desabafo:
“Você sabe, Juracy, eu tenho trabalhado a vida inteira por Getúlio, mas ele é um grande egoísta, só pensa em si mesmo. Nunca deixará que eu seja governador do Rio Grande e muito menos candidato à presidência da República”.
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Ao recomendar o livro – marcado pela prudência no relato histórico, com episódios de grande pitada de loucura, como os 18 do Forte e a revolução de 30, que teria finalmente colocado a bola no chão depois dos tantos desatinos da república,- antecipo que há momentos de poesia.
Ao convocar os jovens para que não percam tempo, porque o Brasil tem pressa, Juracy cita uma frase de Oscar Wilde:
“A tristeza da idade avançada não vem apenas do fato de nos sentirmos velhos, mas, sobretudo, de nos sentirmos jovens.”
E encerra o depoimento: “O Brasil só precisa de mais brasileiros que acreditem no Brasil. Sejamos estes”.
A exortação segue atual. Talvez mais que nunca.