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A vingança do Papa

  • Junho 26, 2026
  • Religião
  • José Maria C. da Silva André

O sol reflecte-se na torre de Berlim em forma de cruz

 

É difícil habituar-se à política norte-americana, tão diferente do estilo europeu no que toca à religião. Os católicos são uma minoria nos EUA, embora suficientemente expressiva para merecer a atenção de quem disputa eleições. Além disso, a Igreja católica tem um prestígio destacado como instituição, mesmo entre muitos não seguidores.
Isto explica a frequência com que os políticos se associam a devoções católicas.

Recordo o discurso de Ronald Reagan, na Assembleia da República portuguesa, sobre a devoção a Nossa Senhora e as aparições em Fátima. Os assessores que lhe escreveram o discurso estavam convencidos de que conquistavam o coração dos portugueses e o facto é que todos os deputados o aplaudiram, comunistas incluídos.

No passado 11 de Junho, em que os bispos dos EUA consagraram o país ao Sagrado Coração de Jesus, o Presidente Donald Trump uniu-se à iniciativa com uma mensagem: «A Melania e eu unimo-nos hoje em oração aos bispos católicos (…) na consagração dos EUA ao Sagrado Coração de Jesus».

Recorda a anterior consagração dos EUA a Nossa Senhora e insiste, uma vez e outra, na importância da fé: «o amor a Jesus Cristo é o pilar da nossa identidade e da nossa forma de vida». Segundo Trump, depois daquela consagração a Nossa Senhora, a consagração ao Sagrado Coração de Jesus «é outro marco histórico, deste grandioso legado de fé (…), celebrando em oração os abundantes dons que Deus concedeu a esta nação (…)».

Os eleitores norte-americanos sabem que Trump não faz muito caso de Deus, nem seria capaz de escrever aquele texto, mas ainda assim gostam.

Na Europa, por se ter mais respeito pela religião, ou por falta de interesse por ela, esta colagem é menos frequente. Em contrapartida, muitos políticos europeus discutem futebol. É célebre a confusão de Gordon Brown, antigo Primeiro-ministro do Reino Unido, que declarou o seu entusiasmo pelos resultados de um clube e, confrontado com declarações suas anteriores, teve que admitir que se tinha enganado e que afinal era adepto de outro clube: desculpou-se com uma falha de memória devida ao cansaço.

Liz Truss, também Primeira-ministra, disse na cidade de Leeds que apoiava o Norwich City e, noutras cidades disse que tinha mudado para o clube de lá. Boris Johnson, outro Primeiro-ministro, evitou nomear um clube específico porque apoiava «todos os clubes de Londres».

Em Portugal, e noutros países da Europa, as filiações futebolísticas são por vezes cuidadosamente escolhidas para cativar o eleitorado. Ninguém leva a mal. Marcelo Rebelo de Sousa, inspirado talvez em Boris Johnson, declarou-se adepto do Braga, resultante da fusão do Benfica com o Sporting.

O pormenor interessante da mensagem de Trump não é a sua ardente devoção ao Sagrado Coração de Jesus, mas ter citado um discurso de Reagan em Berlim, em 1987, antes da queda do Muro de Berlim (no mesmo 12 de Junho, mas sem invocar a festa do Sagrado Coração). Nesse discurso, de grande efeito retórico, Reagan chamou a atenção para a cruz que brilhava na esfera no cimo da torre da televisão. Por mais que tentassem, as autoridades comunistas não conseguiram eliminar esse reflexo em forma de cruz. A moral da história, concluiu Reagan, é que «os símbolos do amor, os símbolos da devoção, não podem ser reprimidos».

Aquela torre, com um restaurante giratório a 200 metros de altura, com capacidade para 400 pessoas, pretendia ser uma afirmação grandiosa do poder comunista. Durante a refeição, o restaurante ia rodando, mostrando a paisagem a toda a volta. O regime não admitia obviamente críticas a esta operação de propaganda, mas o humor encarregou-se de uma oposição mais corrosiva que qualquer argumentação.

Os berlinenses chamaram ao reflexo a «Rache des Papstes» (a vingança do Papa) e o esforço dos líderes comunistas por anular a piada, mais o empenho da polícia à procura dos traidores que teriam sabotado a torre para produzir aquele reflexo, reforçou o ridículo e alimentou outra denominação subversiva, a de torre «Sankt Walter» (São Walter), do nome do chefe do Governo, Walter Ulbricht.

No meio da loucura do mundo, temos de rir de alguma coisa.

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