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Ah! O Sol!

  • Agosto 24, 2026
  • Religião
  • José Maria C. da Silva André

Fotografia tirada por Judah Ruah, em Fátima, a 13 de Outubro de 1917

 

Na semana passada registou-se um eclipse do Sol em várias regiões da Europa, nomeadamente no Norte de Portugal. A sul, foi apenas parcial, mas mesmo assim teve a sua graça. Observei-o, equipado com óculos e outros instrumentos de observação, do alto de umas falésias perto do Cabo da Roca, na companhia de um amigo, prof. da Universidade de Madrid. Interessante, mas nada que se compare com o que aconteceu em 1917 na Serra d’Aire.

Desde tempos imemoriais se prevê cada eclipse com séculos de antecedência e não se esperava que acontecesse nada ao meio-dia daquele preciso dia 17 de Outubro de 1917. Excepto que três pastorinhos da serra tinham dito que haveria um milagre, sem especificar mais.

Conservam-se muitos relatos, porque umas 50 ou 70 mil pessoas o presenciaram. Eu próprio ouvi testemunhos de gente que viu tudo —na altura, adolescentes ou crianças levadas pelos pais— e conheci testemunhos em segunda mão —de quem ouviu o relato detalhado, contado por pais, tios, ou avós, que estavam presentes.

Ficou célebre a reportagem do jornalista Avelino Almeida, mação exaltado, autor de páginas blasfemas contra Deus e a Igreja. Na véspera, deixou na redacção do jornal um artigo a troçar das aparições de Fátima, para ser publicado no próprio dia 13, e tomou o comboio para Chão de Maçãs, disposto a desmascarar o anunciado milagre. Esta etapa demorou muito (o comboio era muito lento!) e no apeadeiro de Chão de Maçãs desembarcou uma multidão que esgotou todas as carroças e diligências. A maioria subiu a pé os 20 km até Fátima, descalços, levando o farnel e os sapatos à cabeça, dispostos a passar a noite ao relento. Avelino Almeida conseguiu uma cama em Ourém, a meio caminho.

Na alvorada de dia 13, nuvens negras para o lado de Fátima ameaçavam tormenta, mas a mole imensa continuava a avançar pelos caminhos de terra, ultrapassada por carroças, burros, cavalos, bicicletas e alguns automóveis luxuosos tocando as buzinas. Pelas 10 horas da manhã desatou a chover torrencialmente. A roupa colava-se ao corpo, como se as pessoas tivessem saído do banho.

À chegada, a charneca de Fátima era um lamaçal inundado de gente. Na orla, mais de cem automóveis e outras tantas bicicletas e uma vastidão de carroças impossível de contar. O povo, a maioria descalço, enterrava os pés na argila empapada para chegar ao centro. Uma lebre, espavorida, corre por ali fora até ser apanhada à cacetada. A chuva cai incessante. Ao meio-dia solar, corre de boca em boca que iam começar a rezar o terço e fechassem os guarda-chuvas. Pouco depois, aparece o sol. A multidão olha para o sol a pino, que se consegue fitar perfeitamente, e vê-o movimentar-se, girar sobre si mesmo como uma roda de fogo de artifício, baixar quase a ponto de queimar a terra com os seus raios, mudar de cor. A paisagem fica também iluminada de cores estranhas. As pessoas perguntam umas às outras o que vêem. Há quem proteste por algum homem conservar o chapéu na cabeça, apesar de tão extraordinária demonstração do poder de Deus.

As descrições pormenorizadas que o jornalista Avelino Almeida publicou nos dias seguintes, ainda estupefacto, são interessantes, assim como os testemunhos de outros ateus convictos que tinham ido a Fátima para demonstrar a fraude. E ainda mais notáveis as de alguns professores universitários, que registaram os acontecimentos com espírito metódico.

Quando o milagre acabou, a multidão encharcada, que tinha fechado os guarda-chuvas e ajoelhado na lama, estava completamente seca e alguns, que tinham preferido manter-se abrigados, escorriam água. No fim, quando tudo voltou ao normal, já ninguém conseguia encarar o sol.

Outras pessoas que se encontravam a dezenas de quilómetros —como o poeta Afonso Lopes Vieira, indiferente à religião e esquecido de Fátima— viram, à mesma hora, a mesma dança do sol e os mesmos coloridos. Essa experiência levou Afonso Lopes Vieira à conversão e a escrever o célebre hino de Fátima.

Há dias, as autoridades avisaram-nos de que jamais olhássemos para o sol, nem sequer para a orla fina de luz, no momento mais escuro e frio do eclipse, porque a retina não sente dor mas fica irreversivelmente queimada. Ora, no dia 13 de Outubro de 1917, em Fátima, ao meio-dia, com o sol a pino, dezenas de milhar de pessoas fitaram directamente o sol durante bastante tempo, sem sequer a sombra protectora de um eclipse, sentiram o calor, e nenhuma ficou cega.

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