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Avós e netos de ontem e de amanhã

  • Julho 24, 2026
  • Cultura
  • Padre Aires Gameiro

Clama-se à vezes que a natalidade não compensa a mortalidade e que muitos avós não chegarão a conviver com netos. Já no passado muitos não puderam conviver com avós, por razões diferentes. Por experiência, não conheci nenhum dos meus avós. A razão é simples. Das famílias numerosas os filhos mais velhos têm mais probabilidades de se relacionarem com os avós. No meu caso, filho mais novo de sete, já não cheguei a tempo de me relacionar com nenhum dos avós.

O Papa Leão XIV, na sua mensagem (15.06.2026) para o dia dos avós e idosos, insiste com os jovens para visitarem os avós e idosos da família e lhes levarem mensagens de proximidade e carinho.  Pede que não se tenha medo da fragilidade. Não é fácil, numa cultura apressada, individualista e tecnicizada, ter em conta a vulnerabilidade dos idosos. A sua plurifragilidade requere bastante disponibilidade, coração e treino. Basta pensar que grande parte dos idosos é frágil na mobilidade, na visão, na audição, na memória e noutras capacidades. Os netos e os mais novos, normalmente, não estão afetados dessas fragilidades e não são treinados para se relacionar com quem as têm. Vivem relações com os da sua idade e nem sequer se apercebem que não adianta muito falarem normalmente com os seus avós e outros mais idosos e muito idosos. Eles simplesmente não ouvem o que eles lhes dizem, não os podem acompanhar no andar, podem não os ver bem. Daí que os idosos e os jovens e adultos vivam na incomunicação, isolamento e solidão, mesmo quando vivem lado a lado.

O ritmo do tempo, para uns e outros, também abre um fosso entre grupos. Uns vivem em ritmo apressado, sem paciência para acertar o ritmo e esperar por eles. Quem é que não observou a criança a caminhar de mão dada com a à mãe ou o pai. Tem que ir sempre a correr, ao lado deles em passo normal. Agora imaginemos que em quase tudo as posições se invertem: o idoso ocupa o lugar da criança, ao lado de jovens e adultos. Mas há outros obstáculos. Um deles é a maquinaria moderna de todas as tecnologias com a qual os técnicos interagem com relativa facilidade e os idosos cada vez com mais quebra-cabeças, exasperados, cansados para as usar e elas a tornarem-se obstáculos no seu viver.

Na minha experiência de computador, ainda participei num curso nos anos 1980, do tempo do MS-DOS. Desanimei por falta de tempo como acontecia a outros. Mais tarde, recorri a o apoio de utilizadores doutros programas; e há 25 anos, casualmente, iniciei-me a usar o PC como máquina de escrever para abrir e responder ao correio. E depois? Hoje, irrito-me com os fragmentos da Inteligência Artificial a reclamar: abra mais uma conta, mais outra. Recorra a mais uma rede, a outra, mais outra. Nunca mais acabam. Mais um passe, mais outro. E tenho que usar tudo? E que tempo fica para mim?

Imagino os idosos avançados, a ficarem mais emaranhados e stressados nestas teias da Inteligência Artificial (IA)! Sugiro uma leitura que poderá dar uma ideia da teia, abençoada ou diabolizada, do que quero dizer, e a precisar de um 112 de socorro. Falo do artigo de Juvenal Rodrigues a comparar o livro de bruxaria negra de um falso S. Cipriano à Inteligência Artificial (cf. DN Funchal, 24.07.2026). E os engenheiros informáticos, quando atingirem os oitenta anos e mais, e começarem a ficar afetados de fragilidades, (que desejo não aconteça) , ainda conseguirão safar-se e dialogar com as máquinas? A julgar pelos ritmos de enovelamentos mais complexos e confusos, não é provável. E os avós e idosos, eternos principiantes da leitura do livro de S. Cipriano, que segundo algumas lendas nunca conseguem acabar, “por enlouquecerem”?

Será que a Inteligência Artificial e a sua maquinaria poderão tornar-se diabólicas?

O Papa Leão XIV na Mensagem deixa a questão: «Neste tempo, marcado de forma tão dura pela violência bélica e social, muitos questionam-se sobre como será o mundo em que crescerão os próprios netos».

Será a “profunda insídia” da Torre de Babel de que ele fala na Magnífica Humanidade (nº 7)?

Esperemos que não.

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