IA pra cá, IA pra lá, a humanidade está ingressando num tempo de aceleradas incertezas. Ninguém sabe onde isto pode chegar, seja pela eliminação massiva de postos de trabalho, seja pela geração de erros dignos de uma Caixa de Pandora cibernética.
Nestes tempos de IA, tenho amigos que brincam com a sigla e a interpretam como Intervenção Alienígena. O mote decorre da desesperança de que a canalhice no Brasil seja, longe de eliminada, pelo menos mitigada, com a exemplar punição dos escroques tantos, com o arresto de bens e valores cuja origem é podre.
Segundo a mais desbragada fantasia, a improvável Intervenção Alienígena significaria o endireitamento moral da humanidade e portanto a imediata solução de problemas primários no Brasil, como o cerceamento do compadrio nas esferas de poder, esferas estas que são vistas, hoje, como mais sujas que pau de galinheiro.
A sensação que vigora é a de que seria necessário recomeçar da estaca zero. Extinguindo privilégios e imunidades, que por aqui se conta aos milhares.
Como nada acontece, seguimos caminhando, bovinamente, como num brete para abate. Um rebanho de milhões, que protestam e ironizam nas redes sociais, não raro com muita criatividade. E ficam por aí. Por vezes se irritam ao redescobrirem que tudo resulta em zero, que nada acontece a despeito dos escândalos que pululam, sobejam, mas não mais escandalizam.
Nos habituamos pela impotência, que nos foi recentemente inoculada pelas pesadas multas aos movimentos paredistas do setor de transporte. Tenho na memória os piquetes nas estradas e a extraordinária adesão país afora. Como o sistema reagiu? Ameaçando e aplicando multas pesadíssimas, que dissuadiram movimentos futuros.
Quem arquitetou a reação conhecia bem como educar elefantes: pesada corrente na tenra idade para mais tarde cercear movimentos com um simples barbante. Assim, com penas pecuniárias absurdas matou-se no ninho o ovo do real poder popular.
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Tão triste quanto observar os descaminhos do Brasil é constatar que o engajamento de supostos intelectuais seja massivo e a reação seja tímida, burra ou covarde. É observar a pobreza das soluções imaginadas. Tomemos dois exemplos.
A busca ofegante do apoio norte-americano é como colocar nossos ovos no ninho da águia, aquela mesma que cuida do primeiro ao quinto de seus interesses e nunca deixa de alimentar em seus vôos pelas alturas, ainda que discretamente, a crença no destino manifesto (https://pt.wikipedia.org/wiki/Doutrina_do_destino_manifesto).
As vitórias eleitorais da direita no Peru e na Colômbia e as mudanças que o presidente cubano anunciou (https://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/cuba-entre-a-escassez-e-o-colapso-do-socialismo/) enchem de oxigênio alugado os pulmões conservadores.
O que há de comum nas linhas acima? Que sonhamos com intervenções, abdicando da luta que é intransferível. Na química política, como bons caudatários, aguardamos reações exógenas.
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Nobel de Literatura em 1970, Alexander Solzhenitsyn não compareceu à cerimônia em Oslo. A honraria foi justificada pelo instituto “pela força ética com que perseguiu as indispensáveis tradições da literatura russa“. Há quem defenda que foi escolhido mais pela sua vida do que propriamente por sua obra. O escritor participou da segunda guerra mundial com bravura. Em 1945 uma carta dirigida à sua esposa com críticas a Stalin foi interceptada e ele foi condenado a oito anos de trabalhos forçados.
Cumprindo a pena, descobriu-se com câncer, que superaria. A experiência gestou “O pavilhão dos cancerosos”. Após o período na prisão ainda permaneceria desterrado por quatro anos na Sibéria, até ser reabilitado por Kruschev.
Sua redenção seria breve. Em 1969 recomeçou a perseguição às suas idéias e a obra “Um dia na vida de Iván Denisovich“ converteu-se em testemunho da miséria e da injustiça que ele e centenas de outros escritores padeceram. Gato escaldado, Solzhenitsyn não foi a Estocolmo por medo das represálias que poderia sofrer.
Ausente na cerimônia de premiação, seu discurso foi lido na íntegra e por aqui foi publicado sob o título “Uma palavra de verdade …”. Lembra que os arqueólogos não descobriram “entre as mais primárias fases da existência humana uma sequer que fosse desprovida de arte” recebida “à luz da primeira alvorada da humanidade, doada por Mãos que, pela nossa lentidão, não conseguimos vislumbrar” e relembra que, segundo Dostoievski, a Beleza salvará o mundo.
Solzhenitsyn fala das diferentes escalas de valores no mundo, que entravam o entendimento. Menciona que um pequeno acidente local pode atrair a atenção muito mais que uma tragédia com milhares a milhares de quilômetros. Ou seja, a solidariedade é inversamente proporcional à distância.
Indaga quem poderá explicar à humanidade o que é realmente pesado e intolerável e o que simplesmente roça a pele. Quem “conseguiria impressionar uma criatura humana, teimosa e fanática, com as alegrias e as dores distantes dos outros, e fazê-la compreender as dimensões e as imposturas que ele mesmo nunca provou? A propaganda, a imposição, as provas científicas – tudo isso é inútil. Felizmente porém, temos um meio em nosso mundo! Esse meio é a arte. Esse meio é a literatura”.
Reflete sobre o século XX que “já provou ser o mais cruel dos séculos que o precederam, e em seus primeiros cinquenta anos não apagou todos os seus horrores. Nosso mundo está rasgado em pedaços pelas mesmas velhas emoções da idade das cavernas, a ganância, a inveja, a falta de controle, a hostilidade recíproca, que simplesmente se ocultam atrás de apelidos respeitáveis, tais como lutas de classe, conflitos raciais, lutas de massas, reivindicações sindicais”.
Quanto aos que poderiam se opor, por vivência e compreensão, às idéias tolas, juvenis, erradas, o escritor afirma que muitos não ousam e fazem de tudo para não parecerem conservadores: “Trata-se de mais um fenômeno russo do século XIX, o mesmo que Dostoievski chamava escravidão da evasiva progressista”.
Ler Solzhenitsyn convida a refletir sobre os males da humanidade e suas virtuais soluções. Nos leva a acreditar que às vítimas do persistente autoengano, aos tantos que fantasiam regimes políticos fracassados onde lograram instalar-se, aos nefelibatas que pensam utopias e cegam diante das distopias, parecem faltar leitura e perspectiva histórica.
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Perguntar não ofende: o tribunal que condenou uma empresa a uma pesada multa porque esta não tinha uma mulher em seu quadro gerencial respeita esta receita?
Os preceitos da engenharia social, que negligenciam o mérito e garroteiam a livre iniciativa, não seriam na outra ponta tão odiosos quanto a eugenia?