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Cientismo

  • Julho 21, 2026
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Depois de uma semana dura, acordei no sábado com a possibilidade de degustar o dia. Concluí a releitura de “O mito moderno da ciência”, de Sertillanges, enquanto lá fora o vento se fazia ouvir. Milhares de folhas de plátano revolviam-se, de vez em quando formando literalmente uma onda.

Galhos secos e grimpas de pinheiros pelo chão, loucos para abastecer a lareira que já na próxima semana voltará a trabalhar. Vento oportuno, que põe pelo chão o que morreu, o que caducou. Vento na medida da força, que não ameaça as árvores, que dormirão até a primavera.

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Recebemos na semana passada a visita adorável de minha segunda filha, do genro e do neto. Convivemos bem menos do que gostaríamos, porquanto residem a mil quilômetros de distância, mas aproveitamos o tempo. Minha esposa deu ao neto um singelo e estridente brinquedo: um apito. Pra quê …

Foram horas de tirania daquele adorável pedaço de gente, que inúmeras vezes comandou adultos com silvos. Num destes momentos, enquanto eu cozinhava, fui o único circunstante que não fez o que ele determinava: o vô não obedece, contestei. Então aquele pequenino, de três anos e meio, apitou e disse aos demais: “Peguem ele!”.

Um dia entenderá que o vento do tempo castigou, embranqueceu e derribou cabelos, mas seu vô seguia sendo árvore.

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Sempre me fustiga a perda coletiva de valores humanidade afora. Anão cultural, tento por breves momentos ocupar o ombro de pensadores de escol, como Sertillanges e Huizinga.

Este último, na obra “Nas sombras do amanhã”, publicada no Brasil em 1946, busca decifrar aquela quadra conforme o subtítulo da obra, “Diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo”:

“Por toda a parte há dúvidas quanto à solidez da nossa estrutura social, vagos receios do futuro iminente, um presságio de que a nossa civilização trilha o caminho da ruína. Não são simples ansiedades informes as que nos perturbam as curtas horas da noite, quando já a chama da vida é apenas uma luz mortiça. Não; consideram-se expectativas fundadas na observação e apreciação, duma quantidade de factos esmagadora! Como evitar a constatação de que quase tudo o que outrora parecia sagrado e imutável, a verdade e a humanidade, a justiça e a razão. se tornou agora incerto? que vemos nós agora? formas de governo incapazes de continuar a exercer a sua função, sistemas de produção à beira do colapso, forças sociais embriagadas de poder. A máquina atroadora destes espantosos tempos parece precipitar-se para um desastre. Mas logo surge a antítese a apoderar-se do nosso espírito. Em época alguma os homens estiveram tão claramente cônscios do imperioso dever de cooperar na tarefa de preservação e aperfeiçoamento do bem-estar do mundo e da civilização humana. Em tempo algum o trabalho foi mais venerado. Jamais. o homem se atirou com tanta coragem, sem poupar as forças, ao serviço da causa comum. Pelo menos ainda se não perdeu a esperança. Se queremos, pois, salvar esta civilização, se a não queremos ver submersa em séculos de barbarismo, mas antes consolidar os tesouros da sua herança em alicerces novos e mais estáveis, torna-se sem dúvida necessário que todos os viventes compreendam bem até que ponto a decadência já avançou.”

A obra foi lançada em 1936 e portanto é impossível ignorar que este holandês pressentia o espírito decadente que varreria a Europa, pela desrazão e desmedido uso da força. Qual a raiz de tantos males em sociedades que se pretendiam racionais, promotoras da ciência?

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Busquemos socorro no livro acima mencionado, do monge dominicano francês, Antonin Sertillanges. A raiz encontra-se no cientismo, ou cientificismo, no espírito crítico que duvida de tudo, que acredita que a verdade de hoje será a mentira de amanhã, que tudo é relativo e que, portanto, nada é definitivo.

Esta árvore da análise desenfreada, cujos frutos não incluem a síntese, representa o dogma de que o “método científico é a única forma válida de obter conhecimento, desvalorizando outras áreas como a filosofia, a arte e a religião. Ele supervaloriza a ciência, tratando-a como uma verdade absoluta e universal para resolver todos os problemas humanos”. “É uma postura ideológica. A visão de que a ciência pode responder a questões de moralidade, ética e espiritualidade — áreas onde o método científico não se aplica — é o que o caracteriza”.

https://www.google.com/search?q=cientismo+significado&sca_esv=983bceb9591bece9&sxsrf=APpeQnvdp1MDtS15mW3fBft5kjsmcGa6zQ%3A1784383065292&source=hp&ei=WYZbapPZDv7A5OUP-Kq-4QY&iflsig=ABILxe8AAAAAaluUaQIw11wIrDCEqMCYMbO-Z2HxjVVs&oq=cientismo&gs_lp=Egdnd3Mtd2l6IgljaWVudGlzbW8qAggBMggQABiABBjLATIIEAAYgAQYywEyCBAAGIAEGMsBMgQQABgeMgQQABgeMgQQABgeMgYQABgFGB4yBBAAGB4yBhAAGB4YCjIEEAAYHkjwLFAAWNsKcAB4AJABAJgBpgGgAagJqgEDMC45uAEByAEA-AEBmAIJoALTCcICBBAjGCfCAgoQABiABBiKBRhDwgILEC4YgAQYxwEY0QPCAgUQLhiABMICBRAAGIAEwgILEAAYgAQYigUYkQLCAgkQABiABBgKGAuYAwCSBwMwLjmgB_Y2sgcDMC45uAfTCcIHBTAuNS40yAcegAgB&sclient=gws-wiz

Sertillanges afirma que o abuso do pensamento é alguma coisa essencialmente francesa, que os franceses são cartesianos, que mesmo sem terem lido Descartes conhecem o “eu penso, logo existo”. Enganam-se, porém, no significado do “eu penso”: desconhecem o abismo entre “um ser pensante” e, como gostariam, “sou pensador”.

Um dos “sacerdotes” da religião da ciência foi Renan, um ex-seminarista, segundo o qual “a ciência perfeita do todo não será possível senão por meio da exploração paciente e analítica das partes”. Em 1886 dirigiu à mocidade um discurso quando a aconselhou à libertinagem, à embriaguez, às mulheres, ao álcool e à morfina: “Nós, que temos a arte, a ciência e a filosofia, não precisamos de Igrejas”.

Sertillanges afirma que entre os espíritos ditos modernos, que rejeitam todas as convenções, sistemas e categorias que imponham forma ao pensamento, também rejeitam as autoridades sociais, morais, nacionais e religiosas. O sinal típico de certos modernos é seu ódio votado ao padre e ao militar. O espírito crítico tem a obsessão pela negação de tudo.

O espírito crítico, que rompeu as fronteiras da França, minou as virtudes permanentes da religião, da pátria, da arte, da moral e mesmo da inteligência.

Renan, que negou a divindade de Cristo e preconizou paciência, morreu em 1892. Paciência de todo inútil quando se despreza a vida interior, a espiritualidade e a meditação.

A religião da ciência tem um elo com o marxismo e seu fracasso para demonstrar suas virtudes. Não há quem defenda que o comunismo também dará certo se de fato for instalado? Só é preciso paciência …

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Os ventos que ajudam a humanidade, fazendo cair erros, como galhos secos, e eliminando modismos, como folhas mortas, é muito diverso dos furacões, que arrancam a própria árvore, como pretendem o wokismo, o comunismo e os gnósticos em geral.

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