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Confiança e honestidade

  • Julho 14, 2026
  • Cultura
  • Ernesto Lauer

 

Crepúsculo, hora da nostalgia;

De varrer os dissabores de um dia;

De avaliar o quanto valeu a pena

O simples existir de hoje.

 

Dia desses, num supermercado da cidade, ao passar pelo Caixa, constatei ter deixado a carteira em casa. Como moro perto, pedi para deixar as compras num lugar em separado, por alguns minutos, enquanto iria buscar minha carteira. A mocinha gentilmente disse que NÃO PODIA… Ordens da direção. Ela faria o estorno das compras; na volta deveria buscar os produtos e passar pelo Caixa novamente. De minha parte fui embora e não voltei.

No caminho para casa comentei comigo mesmo: “Minha terra cresceu; os Armazéns, com atendimento direto e personalizado, desapareceram”. Hoje os estabelecimentos comerciais integram grandes redes e ninguém mais conhece ninguém, ante a grande rotatividade entre os funcionários.  Mesmo que conheças o gerente, ao teu pedido certamente responderá: “Tu até mereces, mas o sistema não permite”.

Antigamente todo mundo era reputado como “honesto”, até prova em contrário – até porque todos se conheciam. Hoje nos despersonalizamos; somos simplesmente números: do CPF, da senha, do cartão e da agência bancária.

Nos anos passados, lá na Casa Lauer, as vendas “no fiado”, eram anotadas em uma espécie de “borrador/índice”. Certa feita, uma senhora entrou na loja e a mãe atendeu: vendeu determinado produto, empacotou e entregou para a freguesa. Ela, ao invés de pagar, saiu da loja, dando “tchau”. A mãe nada falou; apanhou o borrador e anotou na folha/índice, letra “E”: “Eu conheço esta senhora – deve Cr$20,00”. Anos depois, achei o borrador e a anotação de débito devidamente riscada, com a observação: PAGO. Atualmente, confiança e honestidade, ao que parece, pertencem ao passado.

Anos depois, já estudante do 1º ano de Direito, junto com Tamir Orth, Mário do Canto e Luiz Laranjeira, já cansados de morar em pensão familiar, resolvemos alugar um apartamento. Colegas do Tamir indicaram uma quitinete, no edifício “Galeria Nação” (Rua Dr. Flores).  Os andares superiores pertenciam aos padres salesianos.  Fomos ao escritório da Congregação.

Explicamos que éramos do interior, estudantes universitários e bancários. Foi-nos oferecido o apartamento 1818, constituído de um quarto grande, com uma pequena cozinha, num espaço lateral, banheiro e uma pequena área externa, a um preço acessível. Pediram simplesmente o nome e endereço familiar dos quatro estudantes/moradores. Nada de contrato, fiador, caução ou outras exigências burocráticas. Simplesmente porque éramos estudantes universitários, do interior e filhos de pessoas honradas, comerciantes e ferroviários. Como eles ficaram sabendo, até hoje eu não sei.

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