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Dezinformatsiya

  • Setembro 13, 2026
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Ilustração extraída de Oyina (https://oyina.uz/uz/teahause/951)

 

Visitamos Moscou e São Petersburgo em 2004. Tomamos táxi, vôo interno, metrô e trem por nossa conta.

O maior desafio foi a leitura do cirílico, mas conhecemos um pouco de como são e como vivem os russos destas duas grandes cidades e seus arredores. Quem sabe um dia voltaremos, mas não é um turismo dos mais fáceis, a começar pela retenção de passaportes na recepção de hotéis e da pouca confiança que sentimos em alguns momentos.

Dito isto, não há como menoscabar a extraordinária cultura dos russos em todos os campos, da literatura à ciência, da música à dança. Décadas debaixo do comunismo e de seu intrínseco materialismo, o cristianismo não morreu.

Mal entrado na universidade li “Os irmãos Karamazov”, obra maiúscula que antecipou em muito o que sucederia à pátria de Pushkin. Logo no início do livro um dos irmãos, Alieksiéi, lastima a morte de seu mentor espiritual, o monge Zózima. Desde então imaginava um mosteiro russo e aproveitamos a oportunidade.

Visitamos Sergiev Possad, com seus ícones e monges ortodoxos. Fomos de trem, balouçante, correndo em meio a dachas pobres, matas e por vezes o nada. No retorno, vagões lotados até o teto. Voltamos de pé. Mesmo que o comboio freasse bruscamente ninguém cairia, nem mesmo o bêbado que suportamos à curta distância por setenta quilômetros.

À época já era Putin o todo poderoso, o duro ex-chefe da KGB que, mercê de sua inteligência e astúcia, posa de crítico do Ocidente e revela um conhecimento acerca do cristianismo muito acima de seus pares que comandam o mundo. Putin é uma esfinge, mas está muito mais para Stalin do que para Gorbatchev.

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A polícia secreta da União Soviética, a KGB, foi substituída em 1991 pela FSB, principal serviço de segurança interna da Rússia, que herdou a maior parte das funções do órgão extinto, compondo o aparato de monitoramento de ameaças, contraterrorismo e contrainteligência.

O histórico recente da política russa não nos convida a acreditar que aquela nação tenha deixado pra trás algumas das piores práticas para silenciar opositores. Uma busca na rede mundial refresca na memória o caso de Alexander Litvinenko. Ex-agente de KGB/FSB, passou a criticar o Kremlin e foi envenenado, em um hotel luxuoso, pela ingestão de um chá com substância radioativa.

Outro caso foi o de um ex-oficial de inteligência militar russo, Sergei Skripal, que colaborou com o serviço secreto do Reino Unido. Como em filmes criativos de espionagem, a vida imitou a arte. Aplicaram um agente químico, de natureza militar, na maçaneta de sua residência.

Completando a breve lista, lembremos de Alexei Navalny, o maior opositor de Putin. Preso em 2021, ao retornar da Alemanha, onde buscara tratamento para envenenamento, era um preso político, que morreu aos 47 anos numa prisão no Círculo Ártico depois de sentir-se mal numa caminhada.

Quando pergunto se o comunismo morreu, alguns conhecidos fazem chacota. Porque não mais existe o Politburo. Porque o Pravda, editado pela primeira vez por Lênin, em Viena, não é mais o órgão do Comitê Central do Partido Comunista. Mas o jornal segue com o mesmo nome e tem o controle do Partido Comunista da Federação Russa. Aliás, não é curioso que este partido subsista após a ruína da União Soviética, após o fracasso da Cortina de Ferro?

Todas as pulgas de todas as orelhas sabem que a preservação da brutalidade na condução politica da Rússia se vale de uma democracia eufemística. Como ignorar as ligações da Rússia com Coréia do Norte e China?

Está morto o comunismo? Na China, com capitalismo de estado e onipresente controle repressivo, segue firme. E em boa parte do mundo, como no Brasil,  o lobo se esconde na pele lanosa do gramscismo e seu mantra da hegemonia cultural, que já imbecilizou multidões.

Aliás, traçando um paralelo, assim como no terreno espiritual o diabo convenceu muita gente de que ele não existe, com o consequente crescimento explosivo do relativismo, a estratégia gramscista fez com que as idéias comunistas, em nome da “justiça social”, permeassem a sociedade sem que nefelibatas de todos os quadrantes identificassem que se trata novamente do comunismo, com nova embalagem.

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Dias atrás o Brasil recebeu a visita de Nikolai Patrushev, ex-chefe da KGB e assessor político de Putin. Recebido por autoridades brasileiras, sua presença foi alvo de apreensões por parte da diplomacia ucraniana. Outros receiam que a “dezinformatsiya”, famosa política russa de falsas informações com o propósito de controle político, possa entrar em cena nas próximas eleições.

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A sensação de impotência contra os desmandos no país tem gerado algo muito pior que a desilusão: os brasileiros estão atirando a toalha, convictos de que toda a indignação é inútil e que o sistema não pode ser combatido, porque se protege na fortaleza inexpugnável do conluio.

O crescente interesse do povo pelos rumos do país – aquecido pela rede social, que tanto une quanto desune, que pulveriza e acirra os debates, mas informa mais do que desinforma,- chamou a atenção do sistema, que passou a ameaçar a livre manifestação em nome da democracia.

Como nossa representação política é pífia, porque corrupta, ou incompetente, ou covarde, o sistema deu-se conta de que era necessário concentrar esforços no constrangimento do povo, como fazem com elefantes jovens, com pesada corrente. Para que o elefante adulto possa ser coibido com um barbante.

Assim deu-se com o povo brasileiro, mal iniciado em seus arroubos juvenis por liberdade, que agora anda com medo da sombra. As punições foram extrapoladas e as ameaças multiplicadas para amedrontar a massa. Cá entre nós, lograram êxito.

A esperança que resta para os que sequer nasceram é a absoluta perda de senso dos maus. Que tripudiam sobre qualquer limite, interpretam as leis a seu talante, disputam o butim e se protegem tacitamente. Mas um dia a casa cai e os desanimados de hoje devem buscar inspiração nos que plantam araucárias, mesmo sabendo que não comerão um pinhão sequer.

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