Não sou adepto da idéia de que todos nascem bons, na linha de Rousseau, e nem poderia, porquanto o pecado original marca cada um e todos. Portanto não sigo o mantra do bom selvagem, mas certamente reconheço que os índios têm coisas notáveis.
Aprendi com Orlando Villas Boas, que entrevistei na década de oitenta, que os índios produzem em torno de cem objetos e que todos na tribo sabem produzir cada um deles. O que naturalmente não significa que o resultado seja o mesmo. Há quem seja melhor na fabricação de um arco, ou de uma canoa, mas a capacidade diluída é um bom começo contra a cobiça, contra a inveja. Ser capaz de prover aquilo de que necessitamos, havemos de convir, é um senhor alicerce de sustentabilidade.
Imaginemos, agora, por um só instante, que os chineses de hoje acessassem uma comunidade indígena de outrora, quando desconheciam o que são camiseta e tênis, oferecendo todo o tipo de tralhas a preço aviltado. Os índios, praticando inicialmente o escambo, logo seriam absolutamente desmotivados a produzir fosse lá o que fosse.
Soube que o preço de bicicletas fabricadas na Dinamarca é altíssimo. País plano, propício para pedaladas, não seria natural que escancarasse seu mercado para produtos asiáticos? Numa visão de curto prazo, sem dúvida, mas a gestão pública, que deve sempre perseguir o bem comum e lembrar de sua responsabilidade intergeracional, deve estimar o custo a médio e longo prazo de decisões apressadas.
A busca do bem comum, que resume as atribuições de governos, sejam lá quais forem, implicita o respeito à subsidiariedade, princípio basilar da organização social segundo o qual problemas devem ser solucionados o mais perto possível da comunidade que deles padece.
Raiz da descentralização, a subsidiariedade valoriza as instâncias menores e represa possíveis ataques à soberania de uma região, de um estado, de um país.
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Quando viajo gosto de conversar com os locais e vadiar pelas ruas, tentando haurir o espírito, a alma de uma gente que desconheço. Tão logo me instale num hotel saio a caminhar, seja no Mato Grosso do Sul, seja na Noruega.
Na cidade de Bergen, jóia remanescente da Liga Hanseática, conversei com o recepcionista do hotel. Economista formado, ganhava sua vida num balcão. Me disse que por conta da excelente situação de seu país, visível no Fundo Soberano, criado para utilizar da melhor forma a riqueza gerada pela exploração do petróleo no Mar do Norte, cada norueguês é subsidiado para estudar tanto quanto desejar.
Pátria dos notáveis Roald Amundsen, Thor Heyerdahl e Fritjof Nansen, a Noruega cuida do futuro dos seus, num território inóspito, em que a sobrevivência é desafiada permanentemente, formando bravos e planejadores. Donos de identidade, de que não abrem mão, remam em conjunto e no mesmo sentido.
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Tendo pisado em tantos lugares, privilégio que a vida me regalou, temos a felicidade de residir num município no qual em meia hora é possível fazer muita coisa. Pra quem morou muitos anos em São Paulo, é uma bênção andar de bicicleta e conhecer os vizinhos.
Dias atrás fui ao centro para adquirir baterias que abastecem equipamentos eletrônicos. Fui de bicicleta. A senhora que me atendeu no bazar perguntou se eu desejava que as mesmas fossem colocadas num pacote. Acedi e ela as colocou num pacotinho feito com anúncio publicitário. Foi de lavar a alma neste tempo em que tanto se papagueia ESG para demonstrar preocupação com o meio ambiente, a responsabilidade social e uma coisa chamada governança, cujo significado me soa alienígena.
O que pode ser mais sustentável que a racionalidade de reaproveitar um anúncio, de dispensar o automóvel e entrar num comércio de rua que nos reconhece e de pronto estampa um sorriso de bonomia? Viver pode ser simples.
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Leão XIV, em sua encíclica “Magnifica Humanitas”, dá prosseguimento ao magistério da Igreja ao abordar um tema que a todos deve preocupar: a expansão acelerada da Inteligência Artificial. Por óbvio que não a condena, como líder da Barca de Pedro, que cruzou o tempo incentivando a arte, o estudo, a ciência, a beleza. Antes alerta para os riscos de que seja utilizada sobretudo para benefício de poucos.
O documento papal começa por um resumo da evolução da Doutrina Social da Igreja, realçando como valor inegociável o empenho pelo bem comum: “Quando a política renuncia a uma visão a longo prazo, reduzindo-se a cálculos de curto alcance ou a estéreis polarizações, os discursos sobre o bem comum perdem credibilidade e crescem, ao mesmo tempo, desigualdades e fraturas sociais”.
Volta a denunciar a “tendência de deixar que a lógica da eficiência, do domínio e do lucro governe por si só as escolhas pessoais, sociais e econômicas. Assim, torna-se mais evidente que a técnica não é um mero instrumento e que, quando se torna critério, acaba por determinar o que é importante e o que pode ser descartado, reduzindo a criação a objeto de exploração e as pessoas a engrenagens dum sistema que quer ser sempre mais eficiente”.
Além do risco inerente a algo que não julga o bem e o mal, que não compreende o que produz, não assume as consequências, não passa pela alegria e pela dor, desconhece o significado de amor, trabalho, amizade e responsabilidade, o processo subentende o descarte dos fracos ao eliminar do horizonte a compaixão, a misericórdia e o perdão: “o ponto crítico, à luz da Doutrina Social da Igreja, não é o uso da tecnologia em si, mas a visão que lhe está subjacente: se o ser humano é tratado como matéria a aperfeiçoar ou a ultrapassar, é então mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, desejáveis e dignos. Em nome do progresso, pode chegar-se a imaginar `sacrifícios necessários´ e a fazer com que os mais frágeis paguem o preço de uma suposta otimização da espécie”.
O desafio para humanidade é, no que pode ser um abismo entre o hoje e o amanhã, preservar o humano numa transformação quiçá jamais vista.
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Parodiando Geraldo Vandré, pra não dizer que não falei de futebol, depois da desclassificação da nossa seleção no mundial, gostaria de abordar a importância da transição entre gerações no esporte. Messi reconhece, para tomar um exemplo contemporâneo, que teve no Barcelona um mestre chamado Ronaldinho Gaúcho.
Quantos jovens jogadores brasileiros tiveram esta oportunidade com seus ídolos, no dia a dia, nos treinamentos, nas concentrações? Por óbvio isto é impossível quando europeus contratam nossos melhores mal saídos dos cueiros.
Não se pode mais falar de uma escola do futebol brasileiro sem mestres.