Ao cabo de poucos dias tropecei duas vezes na palavra húbris, cujo significado desconhecia: “orgulho excessivo, arrogância extrema, prepotência ou um comportamento desmedido que desafia os limites humanos e as leis divinas”.
O segundo tropeção deu-se na leitura de “O diabo na história”, do romeno Vladimir Tismaneanu, autor calejado pelo comunismo de Ceaucescu e estudioso tanto daquele quanto do fascismo, estes quase gêmeos, por assim dizer, de pais diferentes.
No início de sua obra Tismaneanu cita Daniel Chirot, segundo o qual “lidamos com dois tipos de regimes despóticos: tiranias de corrupção (as tradicionais) e tiranias de certezas, baseadas na húbris ideológica. Foi o pretexto ideológico, a convicção de que ele estava cumprindo uma missão histórica grandiosa que fez Lênin envolver-se em sua tentativa incessante de transformar radicalmente a sociedade. Em suas pegadas, Stálin perseguiu a mesma agenda de transformar tudo: a natureza, a ciência, a linguagem, tudo tinha de ser subordinado ao fim sacrossanto. O mesmo ardor ideológico, impérvio à dúvida e ao autoquestionamento, motivou as visões alucinantes de Hitler acerca da guerra racial global”.
Receio que no Brasil estejamos vivendo a combinação da tirania de corrupção e da tirania de certezas. A tirania de corrupção era endêmica e só faz crescer com o fermento da impunidade. A tirania de certezas foi ampliada em décadas e agora, tragicamente, aproxima-se da hegemonia.
Assim, ora divisamos com nitidez a tirania de corrupção, ora a tirania de certezas. E às vezes ambas, de mãos dadas, a passos largos de se tornarem xipófagas.
O que nos permite pensar desta forma? Uma farta coletânea de fatos que infelicitam a nação: a sucessão de escândalos impunes, o aplauso dos esquerdistas para as maiores barbaridades de seus governos e do judiciário, mentiras descaradas e demagogias baratas, sobretudo no período eleitoral. Tudo na linha de os fins justificam os meios, é de causar engulhos em consciências ainda despertas.
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Duas guerras ficaram na história designadas por numerais: a dos Trinta Anos, deflagrada por disputas religiosas, e a dos Cem Anos, entre a França e a Inglaterra.
Do que lembrava a respeito? De nada, seja pela memória curta ou seja porque as respectivas aulas foram pobres. Ou mesmo, quem sabe, porque sempre detestei decorebas. A biologia, como então ensinada, e a química orgânica que o digam.
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A exemplo do que aconteceria muito mais tarde, quando Portugal ficaria sob o tacão espanhol por conta de uma lacuna dinástica na linha de sucessão, a morte do rei francês Carlos IV, em 1328, sem sucessores, ensejou a reivindicação da coroa francesa pelo rei inglês, Eduardo III. Carlos IV era o último da linha direta da Casa dos Capetos e Eduardo III era sobrinho de Felipe IV, pai de Carlos. Pronto. A guerra começaria.
A Inglaterra largou bem, vencendo em Crécy e Azincourt. Pesquisando um pouco sobre o tema, três coisas me chamaram a atenção. Primeiramente o colaboracionismo dos Bourguignons com os invasores ingleses, que dominaram inclusive Paris. Em segundo, a luta em meio à guerra, entre os Armagnacs e os Bourguignons, luta esta que debilitou a já enfraquecida França. Por fim, é acachapante saber que houve tréguas em razão do alastramento da Peste Negra, também conhecida como peste bubônica.
Me inteirei um pouco a respeito deste período da história enquanto lia “Santa Joana D´Arc”, da inglesa Vita Sackville-West. A jovem camponesa teve a visão de uma nuvem luminosa, que lhe disse “Joana, você está destinada a levar um tipo de vida diferente, e a realizar coisas miraculosas, pois foi escolhida pelo Rei dos Céus para restaurar o reino da França e para ajudar e proteger o rei Carlos, que foi afastado de seus domínios. Você vestirá roupas masculinas; usará armas e se tornará comandante do exército; todas as coisas serão orientadas pelo seu conselho”. O resto é história.
Aquele a quem ajudou a ser entronizado em Reims, após a retomada de Orleans, não retribuiria à altura. Um rei tão pobre que até um sapateiro recusara-lhe crédito para um par de chinelas, “que ele se havia calçado, e como não a podia pagar, descalçou a dita chinela, e teve que recolocar suas botas velhas. Se ao menos Joana tivesse compreendido desde o começo, não teria confiado em Carlos mais do que em qualquer homem capaz de encomendar um par de chinelas novas sabendo que não podia pagá-las”.
Na tentativa de retomar Choisy, Joana e seus soldados foram surpreendidos pelo inimigo e, em pânico, buscaram refugiar-se em Compiègne. Perseguidos, já estavam muito próximos do portão da cidade mas, por receio de que os inimigos a invadissem, alguém deu a ordem de levantar a ponte levadiça. Joana ficou de fora com alguns poucos. E foi presa.
Julgada por um tribunal eclesiástico, fortemente dominado pelos ingleses, foi acusada de feitiçaria, heresia, idolatria e apostasia. Aos 19 anos, morreria queimada na praça do mercado de Rouen.
A pedido da mãe de Joana e do inquisidor-geral da França, o Papa Calisto II autorizou, vinte anos depois, a revisão do caso. Foram ouvidas mais de cem testemunhas, que conheceram e conviveram com Joana D´Arc. O veredito invalidou o julgamento original, declarando-o ilegal.
Inocente e mártir, Joana foi canonizada em 1920 e nomeada padroeira da França.
Quase seis séculos depois da morte da santa, a secularizada França, solo de indiferentismo religioso, chamada de “filha mais velha da Igreja” em alusão ao batismo do rei Clóvis I, no final do século V, não é sequer sombra do que foi, a ponto de São João Paulo II indagar, em Paris, no ano de 1980, “França, filha predileta (ou primogênita) da Igreja, que fizeste de teu batismo?“.
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A Catedral de Saint Denis, a partir do sepultamento do rei Dagoberto I, em 639, passou a abrigar os túmulos dos reis franceses das mais diversas dinastias.
A propósito, em 1793, os destrambelhados gnósticos da revolução francesa profanaram os túmulos, saquearam os corpos reais e lançaram os restos em valas comuns. Em 1817 os ossos, misturados e sem identificação, foram dispostos em um ossário comunitário na cripta.
Aqueles que não nos instruíram de forma competente, com verdadeiro conhecimento acerca de momentos cruciais da humanidade, são os mesmos que enalteceram a revolução francesa, mãe de grandes disparates.