Espanha concentrou o olhar da Igreja ao longo de toda esta semana. Leão XIV viajou seis dias por esse país, acolhido por multidões vibrantes. O lema, «levantai o olhar» —«alzad la mirada (Jn 4, 35)»—, repete o desafio de Jesus aos apóstolos para assumirem a missão de anunciar o Evangelho. Parecia que os tempos não estavam maduros, mas Jesus diz-lhes que não, que já está na hora. O versículo completo, citado no lema da viagem papal, é: «Não dizeis vós que ainda faltam quatro meses para a ceifa? Pois bem, digo-vos Eu, levantai o olhar e vede os campos brancos para a ceifa».
De várias maneiras, o Papa leu esta referência evangélica como convite a descobrir a grandeza da vocação cristã. O hino da viagem, gravado por 1700 vozes em várias catedrais de Espanha, interpela directamente: «Levanto o olhar, meus olhos em Jesus, levanto os olhos cravados na Cruz». A imagem é poderosa: «Não estou feito para olhar o chão, ao olhar-Te sei por que nasci. Criaste-me para olhar o Céu».
O discurso no Parlamento, no dia 8, chamou a atenção de muitos intelectuais, dentro e fora de Espanha. Leão XIV distinguiu a Igreja e o Estado, reconheceu «a legítima responsabilidade de quem recebeu o mandato de legislar». Mas sublinhou «a pergunta decisiva: que concepção da pessoa humana inspira as leis e que tipo de sociedade constroem essas leis».
Recordou que os mestres de Salamanca de há 500 anos «compreenderam que a razão não podia ser invocada para revestir de legitimidade o que a força ou o interesse apresentavam como conveniente. Introduziram assim no discernimento histórico a pergunta pelo valor irredutível de todos os seres humanos e os limites morais do poder. Esta é uma das grandes heranças de Espanha: unir a acção histórica com a lucidez da razão moral».
Leão XIV defendeu essa herança, que «começa por uma afirmação primeira: toda a sociedade autenticamente justa edifica-se sobre o reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana».
«(…) Sobre este fundamento, compete-me pronunciar hoje uma palavra serena e firme perante quem tem a grave responsabilidade de ordenar juridicamente a convivência social. Esta convivência pode ver-se ameaçada pela cultura do descarte, como tantas vezes advertiu o Papa Francisco. (…) Pode chamar-se plenamente justa uma comunidade que deixa na sombra a criança ainda não nascida, o idoso, o doente, quem sofre em silêncio ou quem depende inteiramente do cuidado dos outros? A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse confessional: é uma meta de civilização. Toda a vida humana deve ser reconhecida e guardada desde a sua concepção até ao seu ocaso natural, em cada circunstância da sua existência. (…) A grandeza moral de uma nação manifesta-se, acima de tudo, na sua capacidade de acompanhar, proteger e amar aquelas vidas que atravessam maior fragilidade».
«Neste contexto, reveste particular importância a família, (…) que será sempre a primeira escola (…) da gramática elementar da convivência: receber a vida, cuidar do outro, perdoar, servir e pertencer. (…) É preciso respeitar sempre o “direito fundamental e inalienável” dos pais a “escolher o tipo de instrução e formação a transmitir aos filhos, em conformidade com as suas convicções morais, culturais e religiosas”».
«(…) A fé não pretende impor-se mediante privilégios nem coerções; todavia, também não pode ser relegada ao silêncio como se fosse irrelevante para a vida pública. (… ) A liberdade moderna foi preparada também por uma longa educação da consciência, profundamente marcada pela tradição cristã. Nessa escola interior, os povos aprenderam que o direito deve servir o bem, que a justiça impõe limites à força, que o poder necessita de legitimidade, que os pobres pertencem plenamente à comunidade, que o estrangeiro deve ser acolhido de acordo com a sua dignidade e que a vida humana nunca pode ser tratada como mercadoria».
«Convido-vos, pois, a elevar o olhar: (…) precisamente para ver com mais profundidade aquilo que está em jogo em cada decisão pública. A par das respostas técnicas e das reformas legais, é necessária uma renovação moral».
Os deputados de todos os partidos aplaudiram de pé o Papa durante 7 minutos.
Como aperitivo desta semana tão intensa, a diocese de Madrid terminou a sua parte no processo de beatificação de Carmen Hernández, que continuará agora em Roma. Vários cardeais, bispos e muitas personalidades participaram na cerimónia. Carmen Hernández, cofundadora do Caminho Neocatecumenal juntamente com Kiko Argüello, foi um exemplo inspirador de pessoa santa e por isso convém que seja beatificada quanto antes. Deus abençoou a sua vida com frutos exuberantes em todo o mundo. A abundância de graça do Caminho Neocatecumenal fala por si.

