Nunca mais o vi nos últimos trinta anos, mas não esqueci o que disse num jantar promovido pelo seu chefe no instituto de pesquisas. Era um técnico medíocre, destes nada raros que seguem a carreira acadêmica mais por inércia do que por aptidão, mais por comodismo do que por vocação. Jactava-se de ter logrado a paternidade de um menino, feito que garantia a transmissão do nome da família por pelo menos mais uma geração. Como se o seu sobrenome compusesse uma linhagem digna de um trono.
Há não muito tempo um querido amigo paulistano lastimou a decisão de suas filhas de não se tornarem mães. Não o fez pelo sobrenome, mas porque seu rastro biológico não avançaria gerações. Seu legado DNAzístico chegará ao fim da linha em poucas décadas.
Estas curtas histórias me fizeram recordar do que lera em “A vida de Galileu”, de Zsolt Harsanyi. Em suas páginas o grande cientista é descrito, a par de seu brilho, como impetuoso, um tanto desregrado, obcecado por comprovar que Copérnico estava certo e um pai, por vezes omisso, outro tanto digno do personagem Goriot, de Balzac.
Quando seu filho homem, Vincenzo, um encostado no pai e depois no serviço público, anunciou que casaria, Galileu Galilei teria dito a ele “lembra-te, meu primeiro neto deve ser um menino”. Logo depois um parágrafo marcante da obra, quando Vincenzo “anunciou ao pai que já podia esperar um neto … estava tão orgulhoso como se tivesse construído uma catedral só com suas mãos, ou derrotado sozinho o exército dinamarquês”.
Nada a acrescentar. Exceto a observação de que há poucas coisas mais aborrecidas que as conversas acerca da semelhança de uma criança com seus antepassados. Por certo que há casos na linha do velho e inconveniente ditado “escarrado e cuspido”, mas em boa parte dos casos a criança é parecida com ela mesma, como costumava dizer meu pai.
Por fim, solapando uma vez mais o “nada a acrescentar”, andam na moda os testes de ancestralidade. Recentemente um conhecido me disse que tem 12% de judeu, um tanto de africano, tantos por cento de europeu e o restante de outras partes … Justificou sua curiosidade pela possibilidade de encontrar parentes mundo afora.
Particularmente, satisfeito em saber que descendo dos recrimináveis Adão e Eva, creio que o uso corrente destas investigações trai uma boa dose de fantasia eugênica.
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A rede social virou um tiroteio. Sem mortos, mas muitos feridos em seu orgulho, em sua autoestima. De um lado muitos idiotas. E o que é pior, do outro também. Dizer que a história traiu nossos melhores sonhos é tão redundante quanto inútil no momento em que a sopa, fria e rala que nos servem, não passa de um caldo nojento, apimentado com corrupção e farpas de perda de identidade. Deixamos de ser um povo. Suspeito que não passamos de um rebanho de manipulados, manietados, omissos, covardes e trouxas.
A corrupção corre solta, os privilégios dos poderes são pra lá de indecentes, o endividamento público compromete gerações e o descaramento de altos dignitários nos permite supor que muitos são psicopatas não diagnosticados.
Toda vez que cruzo por um catador arrastando atrás de si um carrinho, como a senhora que alta madrugada passa em nossa rua para coletar em primeira mão o que seus irmãos sobejam em descartáveis, sinto um pingo de ira santa e amaldiçôo os canalhas que tomaram conta do país e não querem largar o osso.
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Achava que a solução partiria das pequenas localidades, dos municípios. Até que frequentasse inúmeras sessões de câmaras municipais. Fui forçado a reavaliar a convicção.
Sou de um tempo em que os edis não eram remunerados. Hoje pagamos seus assistentes e seus discursos, em grande parte vazios e despudoradamente demagógicos. Esta geração de renda extra não constrói democracia. Sem contar as negociatas para contratação de apaniguados em cargos de confiança.
Quando, anos atrás, propusemos que seria digno que um vereador tivesse como pagamento mensal o mesmo valor pago a um educador de entrância, desfrutamos de olhares pouco amistosos. A bem da verdade penso que não deveriam receber coisa alguma. A vereança deveria ser um posto de benemerência em prol da comunidade e não um bico de rendimento extra.
Dos municípios aos estados e à federação, a coisa só escala. A tolinha Maria Antonieta não poderia sonhar que aqui mesmo, nos trópicos, ladrões vulgares investidos nas funções públicas só não recrutariam brioches porque estes não fazem parte de nossa cultura.
Entre picaretas, traidores, chupins e sua versão mais danosa, os vampíricos banqueiros, seguimos nossa sina, vertendo suor e lágrimas numa guerra em que a única certeza é a derrota.
Mas a democracia nos salvará! Afinal, temos eleições! Com tecnologia de ponta e fundo eleitoral, que permite a qualquer Mané bancar sua candidatura.
Tive a oportunidade, num veículo de comunicação, de assistir a gravação da propaganda eleitoral de candidatos. Foi constrangedor. A escancarada falta de qualificação da maioria denunciava o uso indecente de uns pobres coitados, buchas de canhão, para arrebanhar algumas dúzias de votos para a legenda, comandada por um cacique local, sem cocar, sem penas. E muito menos pena dos seus correligionários.
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Não, não pensem que pretenda diminuir os méritos de Galileu Galilei, um dos tantos gênios que volta e meia passam pela humanidade, como cometas que não voltam. Mas também ele se valeu de suas relações para a prática do nepotismo. Teve o privilégio de audiências com dois Papas e não teve pejo em pedir cargos para um sobrinho e depois para seu filho, o medíocre Vincenzo.
Deve ser difícil renunciar à possibilidade de cavar uma sinecura, mas Galileu pelo menos legou à humanidade algumas invenções e aos italianos uma herança cultural da qual não fazem pouco.
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Enquanto podemos nos manifestar – ainda que com a certeza de que somos ouvidos, mas não considerados,- creio que podemos promover mudanças pontuais para deflagrar transformações de longo e profundo alcance. Uma delas seria a previdência única no país. Não importa o poder ou cargo: todos, sem exceção de qualquer espécie, no mesmo regime previdenciário. Não creio que haja um jeito mais efetivo de mostrar que ninguém é mais do que ninguém numa república.
O problema é que abrir a boca no Brasil, cada vez mais, é como fazê-lo num dentista, onde nem mesmo um ventríloquo pode ser ouvido.
Assim que voltarmos à percepção de pertencimento poderemos atacar o tripé da nossa desgraça: câmbio, juros e tributos. Precisaremos padecer, mas com uma luz no fim do túnel.
Salvo engano, a rede social transformou-se numa arena de indignações tão eficiente quanto pólvora molhada. Ainda assim, não perco a esperança, aquela que nunca morre.
Afinal, “tantas vezes vai o cão ao moinho que um dia lá deixa o focinho“.