… mergulhar de poncho e nadar de guarda-sol. De repente lembrei deste chiste que escutei adolescência afora e minha esposa, bem humorada, de pronto disse à nossa caçula “teu pai de vez em quando inventa umas”.
A filha se diverte e então busco outras palavras e expressões soterradas pelo tempo, como maria-vai-com-as-outras, deixa-comigo-que-eu-sou-canhoto, bulhufas, mocorongo, xexelento, não-bota-prego-sem-estopa, cacareco, Ariri Pistola, …
Constatar que todas elas caíram em desuso acende o alerta de que a juventude já vai distante …
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Celebra-se hoje o dia dos pais, estes faroletes de cada um de nós, com os quais desenvolvemos semelhanças muito além dos traços ou da genética. Que se traem no olhar, no jeito de andar, no humor e sobretudo na forma de reagir às pedras do caminho. Levo na alma duas recomendações paternas: o que não tem solução, resolvido está, e dai a cada dia a preocupação de cada dia.
Depois de formado trabalhei quatro anos no Rio Grande do Sul e me fui pra São Paulo, onde residiria por mais de duas décadas. Meu pai me visitou inúmeras vezes. Ia e retornava de ônibus. Em sua bagagem incluía frutos da terra, recortes de jornais, erva-mate e muita bonomia.
Gostava de passar o dia no centro da capital paulista. Tomava um ônibus, almoçava, tomava seus tragos e sempre visitava os sebos, tropeçando em obras, muitas das quais herdei. Assim como herdei o hábito de garimpar nestes templos de livros abandonados, como cachorros que caíram da mudança de gerações.
Num tempo de economias pessoais mais apertadas, fazia questão de pagar qualquer refeição fora e por algum tempo pagou a escola de minhas filhas.
Horas antes de tomar o ônibus de volta aos pagos ficava inquieto, apressando a chegada no ponto de embarque. Lembrava da história de uma velhinha que jamais perdeu um trem: chegava na estação pelo menos três horas antes …
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Ainda residia em São Paulo quando minha irmã me ligou para informar que nos tornáramos órfãos também de pai. Embarcou na penúltima estação da existência pra não mais voltar.
Como alguém já escreveu sobre seu pai, o coração parou, cansado de ser bom.
Lembrar de todos os pais, em todas as latitudes, encontra ares de justiça numa frase de Santo Escrivá “O mundo admira somente o sacrifício com espetáculo, porque ignora o valor do sacrifício escondido e silencioso”.
Recordar os que se foram nunca deixa de ser melancólico, por mais divertidas que sejam nossas memórias. É mais ou menos como mergulhar de poncho no insondável e nadar com a inutilidade do guarda-sol nas águas paradas da eternidade.