Como diziam os antigos, os tempos andam bicudos. Latitudes afora, sempre nos iluminam os artistas, as histórias da humanidade e sobretudo a literatura.
Quando lembramos dos desvios de princípios de governo é impossível não lembrar de George Orwell e seu rebanho de icônicos animais. Sua metáfora central ilustrava o centralismo e a hipocrisia do socialismo real. Justo ele, que alistou-se no POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) na guerra civil espanhola, testemunhou o desenrolar do conflito e a atuação das Brigadas Internacionais.
Bola-de-Neve, o líder revolucionário, estudara as campanhas de Júlio César e comandou a revolta com pombos, gansos e ovelhas, com a emboscada de vacas, cavalos e porcos para vencer os humanos.
O cavalo, Sansão, contristado com a morte de um homem, cujo crânio esmagara, entregou-se a lamentos. Bola-de-Neve o atalhou:
– Nada de sentimentalismos, camarada! Guerra é guerra. Humano bom é humano morto.
Relendo o trecho lembrei de um cidadão que, ao pregar a construção de uma sociedade socialista, propôs a radicalização da luta de classes para enfrentar os conservadores. Segundo ele, parafraseando Brecht, pode-se oferecer ao inimigo “um bom paredão, onde vamos colocá-lo na frente de uma boa espingarda, com uma boa bala e vamos oferecer, depois de uma boa pá, uma boa cova” (https://www.youtube.com/watch?v=jKvTFelL974).
Como sabemos, valendo-se de slogans e muita astúcia, os porcos dominaram a fazenda.
Para justificar sua hegemonia, construíram a narrativa segundo a qual “todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que os outros” e surfaram nas altas ondas do poder.
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Qual o segredo para exercer e prolongar a tirania, sem necessariamente valer-se apenas da força ou da violência? É uma boa pergunta para a qual eu não tinha uma resposta sólida. Até que um colega postasse uma citação de Étienne de La Boétie, autor que desconhecia, extraída do opúsculo “Discurso sobre a servidão voluntária”. Tratei de obter o texto, redigido no século XVI, e fui largamente recompensado. Trata-se de uma pérola, da qual citarei alguns trechos:
“São, portanto, os próprios povos que se deixam ou, ainda, se fazem maltratar, pois ao pararem de servir estariam livres; é o povo que se subjuga, que corta a própria garganta, que, podendo escolher entre servir ou ser livre, abandona a liberdade e toma o jugo, que consente com seu infortúnio e até mesmo o busca”.
“Para alcançar o bem que desejam, os valentes não temem o perigo; os sensatos não se furtam ao sofrimento: são os covardes e parvos que não sabem nem arcar com o mal, nem recuperar o bem; eles se limitam a desejá-lo, e a virtude de reivindicá-lo lhes é negada por sua covardia, ainda que o desejo de tê-lo subsista neles por natureza. Esse desejo, essa vontade de almejar todas as coisas que, uma vez obtidas, nos fariam felizes e satisfeitos, é comum aos sábios e aos tolos, aos valentes e aos covardes. Entretanto, falta-lhes algo, cuja aspiração não sei como a natureza falhou em instigar nos homens: a liberdade, um bem tão importante e desejável que, uma vez perdido, acarreta todos os males de uma só vez, e os bens que sobrevivem a ela perdem inteiramente seu gosto e sabor, corrompidos pela servidão. A liberdade é o único bem pelo qual os homens não anseiam, por nenhum outro motivo senão o fato de que, se a desejassem, a teriam”.
Boétie registra que nossa natureza e desejo são de sermos livres, mas denuncia o hábito como o primeiro motivo da servidão voluntária:
“Os homens são como os mais leais cavalos, que inicialmente mordem o freio e depois passam a apreciá-lo; que primeiramente escoiceiam e logo exibem altivos seu arreio, pavoneando-se sob sua barda. Dizem que sempre foram subjugados, que seus pais viviam assim; pensam que estão fadados a tolerar o mal e convencem-se disso citando exemplos; justificam eles próprios a posse daqueles que os tiranizam ao dizer que estes vêm fazendo isso há muito tempo, quando, na verdade, os anos jamais dão a alguém o direito de fazer o mal, apenas intensificam a injúria. Dentre esses homens sempre há alguns – mais virtuosos que outros – que sentem o peso do jugo e não podem evitar reagir; que jamais tomam gosto pela sujeição e que, como Ulisses, que buscava sempre enxergar, do mar e da terra firme, a fumaça de sua cabana, não conseguem evitar a busca por seus privilégios naturais e a lembrança de seus predecessores e sua essência ancestral. Com frequência são esses homens que, com um arbítrio claro e um espírito visionário, não se contentam, como o grande populacho, em observar o que está diante de seus olhos sem analisar o antes e o depois e sem rememorar as coisas passadas para julgar as do futuro e medir as do presente. São eles que, já tendo nascido com bom juízo, ainda o aprimoram com o estudo e o saber. Mesmo se a liberdade perecesse por completo e desaparecesse do mundo, eles a imaginariam e a sentiriam em sua alma, ainda a saboreariam, e o gosto da servidão não lhes agradaria, por mais disfarçado que estivesse”.
Um pouco adiante pontifica sobre os que são criados como servos: “sob o poder dos tiranos, as pessoas transformam-se com facilidade em covardes e afeminados”. Quanto aos dominados, perdem a coragem guerreira e “a vivacidade em todas as coisas, e seu espírito é frágil, frouxo e incapaz de qualquer feito grandioso. Os tiranos sabem bem disso, e, ao ver surgirem tais vincos em um povo, ajudam a deformá-lo ainda mais”.
Boétie ilustra o artifício de bestializar súditos com as ações do persa Ciro:
“Após tomar Sardes, a capital da Lídia, e capturar e aprisionar Creso, o riquíssimo rei, chegaram-lhe notícias de que os habitantes da cidade tinham se revoltado. Ciro poderia tê-los subjugado com facilidade, mas não desejava saquear uma cidade tão bela nem ceder um exército para protegê-la constantemente, então concebeu um grande expediente para garanti-la: estabelecer bordéis, tavernas e jogos públicos, ordenando a todos os habitantes que fossem conhecê-los. O rei foi tão exitoso em sua guarnição que nunca mais precisou desferir um só golpe de espada contra os lídios”.
Quanto à sustentação dos tiranos, segundo o autor, não são as armas que a garantem: “Foram sempre cinco ou seis os depositários de sua confiança, cinco ou seis que dele se aproximaram ou foram convocados como cúmplices de suas crueldades, companheiros em seus prazeres, alcoviteiros de suas volúpias, compartes dos bens de suas pilhagens. Esses seis têm tanta influência sobre o líder que este parece, à sociedade, mau não apenas por suas maldades, mas também pelas deles. Esses seis têm 600 outros que deles se beneficiam e com eles fazem o mesmo que eles fazem com o tirano” e por aí seguem, “causando, aliás, tamanha devastação que só conseguem manter-se sob sua égide e fugir às leis e às penas graças à proteção de seus superiores”. Desta forma aglomeram-se à volta do tirano ambiciosos e avaros, que garantem seu quinhão no butim e exercem, sob o grande tirano, a própria tirania.
Pode parecer que o eco do século XVI não nos diz respeito, afinal temos eleições ditas livres, dezenas de partidos e pencas de instituições, de tal forma que a tirania como a conhecíamos parece extinta. Quem sabe na modernidade a tirania não seja a de um consórcio de porcos?
“De fato, o tirano não ama, nunca amou. A amizade é um nome sagrado, uma coisa santa; só se dá entre pessoas de bem e só sobrevive pelo apreço mútuo; e se baseia não tanto em favores, mas na boa vida. O que faz um amigo confiar noutro é a consciência de sua integridade: suas garantias são a boa natureza, a fé e a constância. Não pode haver amizade onde há crueldade, onde há deslealdade, onde há injustiça; e, quando os perversos se reúnem, formam um complô, não um grupo de companheiros. Não têm afeto um pelo outro, mas medo; não são amigos, mas cúmplices”.